Crítica | ‘A Lenda de Golem’ entrega uma história de terror simples e muito bem contada

Em A Lenda de Golem, Hanna (Hani Furstenberg) vive em um vilarejo do século XVII, uma comunidade judaica bastante religiosa e conservadora. Com a intenção de obter respostas para compreender a perda de seu filho Joseph, ela obtém acesso aos livros de sua religião, livros estes que são de uso restrito aos homens da comunidade. Quando um grupo de pagãos invade o vilarejo, ameaçando assassinar seus moradores se sua filha não fosse curada, Hanna conjura um Golem, uma criatura mítica, para protegê-los, porém, ela descobre que esse ser é mais perigoso do que contam os livros.

É nítido que a obra faz referência à consagrada história de Frankenstein e isso pode se ver inclusive nas roupas remendadas usadas pelo Golem, porém, é uma releitura bastante subversiva à história original. Hanna não tem nenhuma relação com o arquétipo de cientista ou conjurador maluco. Tudo o que ela faz é em decorrência da perda de seu filho e as consequências que isso lhe trouxe, especialmente no tocante à pressão social de que ela precisa engravidar novamente, uma vez que nessa sociedade, uma mulher que não dá à luz a crianças é considerada inútil e ingrata.

Interessante é a construção cultural e social dessa comunidade tipicamente machista e conservadora ao máximo. Mesmo assim, vemos no marido de Hanna, interpretado por Ishai Golan, não um estereótipo de homem machista e controlador e sim, um parceiro amoroso e compreensivo, que também está sofrendo com o trauma que o casal sofreu. Ele é o responsável por fornecer os livros religiosos para a esposa e também compactua com ela inclusive nos momentos em que ela se esconde abaixo do assoalho do templo onde ocorrem as reuniões religiosas exclusivas para os homens. Sua interpretação é cheia de nuances. Percebemos seu temor às coisas divinas, mas também o sacrifício pela esposa. Mesmo quando ele descobre que ela está utilizando-se de uma poção em suas partes íntimas para evitar uma nova gravidez, o homem não é agressivo e nem toma medidas radicais típicas de um homem daquele tipo de comunidade.

Mesmo o vilão de A Lenda de Golem, que ameaça incendiar o vilarejo, não é totalmente mau. Pode-se compreender que sua motivação parte da ignorância, uma vez que ele atribui a doença de sua filha à cultura dos judeus, acreditando que seus feitiços foram responsáveis pela moléstia. Não é um simples assassino, e sim, um homem amargurado pela dor do sofrimento de quem mais ama e está tomando a única atitude cabível em seu poder.

Já o Golem é bem desenvolvido. A direção, aliada a uma fotografia bastante pertinente e bem iluminada, trabalha bem o suspense em torno desse personagem. Quando ele surge, não é logo de cara, acontece aos poucos. A forma como o Golem age também é bastante interessante, uma vez que ele se move de maneira mecânica e inexpressiva. Os momentos de violência também são bem realizados. Não vemos uma criança atacando adultos de forma não convincente, como acontece em Cemitério Maldito, mas sim, uma criatura sobrenatural utilizando-se de poderes psíquicos para explodir cabeças. Talvez um problema seja o exagero da violência gráfica que, sem freios, beira o cômico em alguns momentos.

Interessante também, são os conceitos que são levantados durante o enredo. Além de explorar os aspectos machistas, ignorantes e supersticiosos de uma comunidade setentrional, vemos na figura do Golem uma extensão das próprias atitudes humanas, apesar de sua figura simbólica e mística. Criado para cumprir o papel de protetor, ele acaba por se tornar uma máquina de destruição, não apenas para os que ameaçam destruir o vilarejo, mas também um objeto de matança para os próprios moradores do lugar.

Uma vez que não há vilões e sim, personagens complexos motivados por suas próprias razões, vemos na matança de ambos os lados os mesmos aspectos de uma guerra e assim como na maioria dos conflitos existentes ao longo da História, um empilhamento de corpos. Uma matança desnecessária, realizada em decorrência de valores humanos distorcidos.

A Lenda de Golem é um filme que vale a pena ser assistido. Longe de ser um típico filme de terror, é uma obra sensível e reflexiva, produzida de uma maneira competente e bastante inspirada.

A LENDA DE GOLEM | THE GOLEM
4

RESUMO:

Terror israelense A Lenda de Golem vai além da violência gráfica e explora aspectos culturais e relevantes da sociedade do século XVII.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...