Crítica | ‘I Am Mother’ acerta ao abordar temas complexos utilizando a maternidade

O que é ser humano? Pergunta que vem sendo feita desde os primórdios da civilização. Por pensadores, filósofos, poetas, cineastas. Filmes que abordam questões existenciais como essa não são novidade na indústria audiovisual. A ficção científica é bem sucedida ao imaginar e representar na tela mundos considerados impossíveis pela realidade tangível. Com isso, suscita reflexões relevantes e pode até inspirar aplicações práticas na sociedade.I Am Mother

I Am Mother é uma dessas obras. Talvez não introduza nenhuma novidade extraordinária, mas com certeza é um respiro interessante dentre tantas produções megalomaníacas que focam mais em efeitos especiais do que em ideias. O novo original Netflix nos é apresentado de forma sutil, abordando o tema “futuro do planeta Terra e da espécie humana” através de um viés com bastante cunho afetivo: a maternidade.

A trama inicia-se em uma instalação com tecnologia avançada em que um robô encontra-se sozinho com uma grande quantidade de embriões humanos. Nas primeiras cenas, vemos um desses se desenvolver em uma máquina até, algumas horas depois, nascer.

A robô, que se intitula “Mãe” (Mother), cria a criança humana como se fosse sua filha (inclusive a chama de “Filha”). Ao chegar a uma certa idade, a menina começa a se questionar sobre o mundo lá fora, que lhe foi explicado pela droide-mãe que estaria dizimado, assim como os outros seres de sua raça. Quando uma mulher surge do lado de fora da instalação, toda a verdade que a Filha conhecia é posta em dúvida.

I Am Mother é dirigido pelo estreante e cuidadoso Grant Sputore. A direção de arte e fotografia também são elementos bastante positivos, revelando um trabalho meticuloso. O elenco é outro ponto a se destacar. A três atrizes entregam atuações incrivelmente satisfatórias, com Hilary Swank como a mulher que interrompe a dinâmica na instalação, Clara Rugaard-Larsen como a Filha e a voz de Rose Byrne como a Mãe.

Um dos tópicos mais interessantes a se enfatizar é a relação mãe-filha trazida à história. Não somente referente à droide e a garota humana, mas também no que tange à imagem religiosa de Maria. As duas figuras — a mãe robô e a mãe espiritual — foram colocadas, em diferentes épocas e cenários, como as mães da humanidade. E tanto a Filha como a mulher adulta apegam-se a esse conceito de persona maternal como fonte de força, ensinamento e confiança.

De um lado, a robô quer criar um super humano. Um ser correto, ético e de bom caráter para perpetuar a raça. Isso pode ser percebido através dos testes éticos e morais que a Filha é submetida pela Mãe. De outro, recorrendo à cultura da religião, Maria, que seria a mãe de Deus e, portanto, mãe de todos nós, também seria um ser que nos inspira e influencia à fazer o bem.

É interessante constatar durante o filme os limites e extremos da maternidade. Até que ponto uma mãe está disposta a ir por seu filho? Estreando na Netflix essa semana, I Am Mother  é uma ótima recomendação ao ser bem-sucedida em abordar temas complexos referentes à existência e à consciência humana com uma roupagem simples, mas simbólica.

I AM MOTHER
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RESUMO:

Novo original Netflix, I Am Mother nos é apresentado de forma sutil, abordando o tema “futuro do planeta Terra e da espécie humana” através de um viés com bastante cunho afetivo: a maternidade.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"