Crítica | ‘Chernobyl’: a pulsão de morte em uma catástrofe monumental

A monumental série Chernobyl (2019), transmitida pelo canal pago HBO, após 5 episódios intensos, chegou ao fim. É importante destacar a sensibilidade pela qual foi construída a narrativa e a qualidade da imagem semelhante a uma fita de VHS, dando um toque anos 80. Durante toda a série há uma preocupação em mostrar como o maior acidente radioativo da história afetou os moradores da cidade e a poderosa União Soviética sob uma perspectiva micro e macroscópica.

A série começa 2 anos depois do acidente, em abril de 1988, com o professor Valery Legasov (Jared Harris) assistindo um noticiário sobre o julgamento dos envolvidos na explosão do reator nuclear. Logo depois grava uma fita contando sobre as manipulações do governo na busca de culpabilizar alguns e esconder as suas falhas. Encerrada a gravação, o professor se suicida por enforcamento na sua casa.

Após o suicídio do professor, a narrativa retorna para o dia da explosão do reator, o fatídico 26 de abril de 1986. No primeiro episódio observa-se o início das trágicas consequências do vazamento e como os técnicos, políticos, bombeiros e moradores lidaram com ela. O começo da série é bem caótico e confuso, provavelmente com a intenção de sentirmos algo próximo ao que os envolvidos no acidente sentiram também. Os trabalhadores e técnicos que estavam mais próximos do reator explodido, rapidamente começaram manifestar os sintomas da radiação, enquanto procuravam entender o porquê do desastre.

No segundo episódio o professor Valery é convocado para uma reunião com a alta-cúpula dos políticos soviéticos. Durante a discussão, todos, com exceção do professor, lidaram com o acidente como algo corriqueiro e de simples resolução. Com muito esforço Valery, especialista em física nuclear, consegue explicar a real gravidade da situação e o alto índice radiativo das substâncias químicas liberadas na explosão.

Em um primeiro momento, ele é visto como um alarmista, já que contrariou as informações minimizadas dos oficiais do partido. Desde o começo, nota-se um autoritarismo no discurso dos políticos, pois ao contrariá-los, ele foi rechaçado. Só passou a ser escutado ao se colocar em uma posição submissa e humilde perante eles. Levou algum tempo para compreenderem que o problema maior não era apenas conter o incêndio, mas que o núcleo continuaria a liberar uma grande quantidade de radiação. Consequentemente, o ar estava completamente contaminado e enquanto o vazamento não fosse estancando, a radiação seria espalhada para uma grande parte da Europa! Concluída a reunião, o vice-primeiro-ministro Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård) juntamente com Valery, foram convocados para avaliar o estado da usina em Chernobyl e conter o vazamento.

No começo, a relação entre Valery e Boris é bem conflitiva, apesar dos vários avisos do professor, o vice-primeiro-ministro o subestima, estabelecendo assim uma relação de poder. Por mais que Valery tenha o conhecimento necessário para agir diante da catástrofe, Boris é que tem o poder de tomar as decisões. Diante do grande saber do professor, ele se sente ameaçado. Como na cena em que estão próximos a usina, Valery diz para não sobrevoarem o prédio, ainda assim Boris manda o piloto se aproximar. Por sorte, o professor consegue convencê-lo a contrariar as ordens do ministro tirânico.

Catástrofe Monumental

No decorrer da série há retratos de algumas situações vividas por outros personagens, como a deterioração de um dos bombeiros que tentou apagar o incêndio na usina. Ao passar de algumas semanas seus tecidos estavam destruídos. Assim como os valentes mergulhadores que se voluntariaram para abrir as comportas, pois era necessário se livrar da água contida na usina com o objetivo de evitar uma explosão térmica. Fatalmente se arriscaram a se contaminar, mesmo sabendo que estariam mergulhando em direção a uma morte precipitada.

A série mostrou também os soldados que tiveram que caçar todos os animais da região, inclusive os domésticos, para conter a radiatividade. Destaque para a cena de uma idosa que se recusa a largar a sua casa, mesmo sob ameaça de um militar, disse que não teria sentido sair de lá, depois de sobreviver a Revolução Russa, aos nazistas e ao domínio dos soviéticos, preferiria permanecer e suportar as consequências da contaminação iminente. Afinal abandonar a sua casa seria como apagar a sua própria história e a sua subjetividade.

Apesar desses personagens serem menores na trama principal, eles contribuíram na contextualização da tragédia de Chernobyl. É importante ressaltar a delicadeza em retratá-los, não há uma intenção da série em espetacularizar o sofrimento deles, mas sim em enriquecer a narrativa a partir de um microcosmos, individualizando e subjetivando a dor e o sacrifício desses cidadãos invisíveis aos olhos da História.

Com o passar dos dias o professor e o ministro começaram a se entender melhor, rapidamente perceberam que seria necessário se aliarem diante da missão impossível da qual foram designados, aos poucos conseguiram estancar o vazamento e evitar uma desgraça ainda maior. A física nuclear da Bielorrússia, Ulana Khomyuk (Emily Watson) foi fundamental também na formulação dos planos para conter o vazamento, além de ter contribuído na compreensão da falha do procedimento de emergência.

Passado mais de um ano chega o dia do julgamento dos envolvidos na explosão do reator. De fato os técnicos responsáveis pelas experiências foram imprudentes e abusaram dos limites, mas por outro lado a União Soviética foi negligente com os procedimentos e materiais utilizados na construção do reator. Valery, juntamente com Ulana, sabiam da verdade, entretanto o professor se viu em um conflito delicado, manter em segredo os erros do estado soviético e apontar os técnicos como os bodes-expiatórios, e assim garantir um cargo alto na Universidade ou revelar ao mundo a displicência dos soviéticos e se tornar um mártir socrático ao buscar a verdade?

Ainda na década de 80, a União Soviética era uma das maiores potências do mundo e batia de frente com os Estados Unidos, seja no conhecimento, nos jogos olímpicos ou no armamento nuclear. Sem medir esforços o estado soviético se preocupou apenas em manter o seu poderio. Em um primeiro momento nega o tamanho da catástrofe de Chernobyl, após tomar consciência da monstruosidade, preocupa-se apenas em encontrar culpados por meio de erros individuais e específicos dos técnicos. Além de não admitir os seus deslizes publicamente, a União Soviética tentou ocultar os problemas relacionados na construção dos seus reatores, pois na verdade, não era apenas o de Chernobyl que estava danificado, mas todos os outros também.

A pulsão de morte em Chernobyl

Para manter sua hegemonia, o bloco soviético escolheu arriscar o futuro de sua nação com a possibilidade de novos acidentes nucleares em nome do poder. A partir dessa atitude pode-se notar a presença da pulsão de morte em suas decisões. A pulsão de morte é um impulso inconsciente destrutivo presente em maior ou menos quantidade no psiquismo de todos os sujeitos, ela é contrária a vida e aos relacionamentos amorosos e fraternos. Freud a nomeou como Tanatos, força contrária a Eros, a pulsão de vida. Os políticos soviéticos ao negarem os erros cometidos, percebem como ameaçam as vidas de todos os cidadãos, além de suas próprias. Portanto, nesse caso, o poder se torna algo radiativo, ameaçador e destrutivo.

Chernobyl, dirigida por Johan Renck, apesar do seu formato televisivo, apoiado em uma narrativa dramática, aproxima-se de um documentário e proporciona uma bela aula de História. Com um excelente roteiro e bastante cuidado com a veracidade dos fatos. Um dos poucos elementos fictícios do filme é a personagem de Emily Watson, a professora não existiu, ela foi introduzida na série com a intenção de representar a equipe de auxiliares do professor Valery.

Apesar de algumas explicações físico-químicas complexas a respeito do funcionamento do reator e das graves consequências do vazamento, mesmo para o grande público, é possível compreender uma boa parte delas. Além disso, a série se focou também em mostrar o jogo de poder político, mas sem perder de vista as emocionantes histórias individuais de alguns personagens. Por fim, a tragédia ucraniana, é mais um exemplo maquiavélico da enorme capacidade humana em se autodestruir.

CHERNOBYL
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RESUMO:

Chernobyl, produzida pela HBO, mostra com grande profundidade a tragédia do maior vazamento radiativo da História e os envolvidos, revelando os bastidores e as intrigas políticas da extinta União Soviética.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.