Crítica | Mesmo confusa no início, 3ª temporada de ‘3%’ mantém bom ritmo e relevância social

3% é, com certeza, um dos maiores sucessos brasileiros da Netflix até o momento. Pode-se arriscar dizer que seja até a maior. A série teve uma 1ª temporada bem recebida por uma parte do público, e mal recebida por outra. Mas o que realmente a fez ganhar força foi o estrondoso e imprevisível sucesso que obteve mundo a fora.  

Extremamente bem vista em outros países, 3%  conquistou um público fiel, que vem crescendo a cada temporada que passa, garantindo que a série se mantenha em exibição, e até mesmo aumentando sua qualidade de produção. A 2ª temporada elevou o nível de roteiro e produção que tinha sido visto anteriormente, surpreendendo até quem não havia sido conquistado pela temporada inicial. Quem continuou, não se arrependeu. Quem parou por ali, perdeu, devo dizer. 

Essa nova remessa de episódios se inicia um pouco confusa. Passaram-se mais de 500 dias desde onde a história terminou no ano anterior. Muita coisa mudou, personagens não se encontram mais no mesmo lugar, e somente aos poucos vamos descobrindo o que aconteceu por ali. Mas, é aí que está um dos problemas dessa temporada, as explicações são um pouco vagas, e até mesmo preguiçosas.

A que mais parece ter tido uma trajetória para chegar do ponto A à B é Michele (Bianca Comparato). Iniciamos a temporada vendo-a reconstruir a Concha, local que tinha intenção de reerguer após as descobertas referentes ao casal (ou trio) fundador. E, por mais que seja interessante passarmos a história direto para quando este novo lugar já está totalmente em pé, ao mesmo tempo é frustrante notar que as explicações dadas para a chegada a este ponto são extremamente insatisfatórias.

3% – Pedro Saad/Netflix

Porém, depois que se passa o primeiro episódio, que é bastante corrido, a série pega o ritmo novamente. 3%  nunca perdeu tempo com enrolações, sempre mantendo um ritmo frenético, que é o que consegue segurar o espectador. E por mais que aqui fosse necessária uma pequena pausa para contextualizar o cenário em que se encontra, principalmente no início, o ritmo ainda é um dos grandes acertos da temporada.  

Os 8 episódios cedidos para apreciação são completados perfeitamente, sem deixar a peteca cair em nenhum momento. Mas, o que talvez seja um incômodo para algumas pessoas, é a falta de impacto visual de alguns acontecimentos. Não em relação à cenas fortes ou violentas, e sim tentar representar da melhor forma possível as reviravoltas e cenas marcantes do roteiro em tela.

A retirada de alguns cenários, deixando o foco ser em apenas um, é uma corajosa mudança. O Maralto com suas paisagens modernas e tecnológicas é deixado de lado, juntamente do Continente, que perde tempo de tela aqui, dando espaço para uma Concha com um território desértico bastante contido. Entretanto, o alto nível da produção ainda é perceptível. Quando precisa mostrar algo que necessite de um pouco mais de efeitos especiais, cenários e ambientações, a série entrega, e entrega muito bem.

3% – Pedro Saad/Netflix

O que mais incomoda é a motivação dos personagens. Alguns deles parecem mudar de lado na mesma frequência em que trocam de roupa. A mais afetada por isso é Glória (Cynthia Senek). A personagem não parece se encontrar, sempre parecendo estar de um lado, para no episódio seguinte estar do outro, para depois voltar ao ponto inicial. Esse ciclo vicioso incomoda, deixando-a cansativa de se acompanhar. Principalmente considerando o foco gigantesco que ela possui pelo roteiro. 

Mas, em relação ao andamento da história, a série tenta inovar, e ao mesmo tempo, resgatar o que mais fez sucesso no primeiro ano: o processo. É interessante notar que mesmo tendo um foco diferente em cada temporada, o roteiro nunca deixou de lado sua essência, e nem se perdeu em meio à tantas novidades que procurara introduzir. É um exemplo de produção que sabe onde quer chegar, e tenta chegar lá sem passar por cima do que a fez ser o que é hoje.

As atuações, consideradas um dos maiores problemas da série, continuam iguais. Quem não consegue ignorar a forma engessada de atuar de boa parte do elenco, vai continuar se incomodando aqui. O que mais consegue se sobressair é Rodolfo ValenteO ator é extremamente esforçado, e sempre procura dar a maior expressividade ao personagem, que é um dos melhores que a série tem a proporcionar.

3% – Pedro Saad/Netflix

Ao final, a terceira temporada de 3%  continua entregando o que sempre fez de melhor. Alto nível de produção, uma boa história com excelentes reviravoltas, e ainda aquela cutucada na política atual e desigualdade social do nosso país. É uma série que sabe dosar o entretenimento com o socialmente relevante, por mais que ainda seja vista com olhar torto de muitos brasileiros.  

3% - 3ª TEMPORADA
3.5

RESUMO:

3% entrega uma terceira temporada frenética, mas ao mesmo tempo um pouco confusa devido ao salto temporal da história. Possui seus problemas, mas consegue manter o que sempre entregou de melhor ao espectador: uma boa história, excelentes reviravoltas e um alto nível de produção nunca deixando de lado o impacto social que deseja causar.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.