Crítica | ‘Olhos que Condenam’: trinta anos depois, uma história mais atual do que nunca

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On 3 de junho de 2019
Last modified:4 de junho de 2019

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Em 1989, Trisha Meili, uma mulher de 28 anos foi estuprada no Central Park, enquanto fazia corrida. No mesmo dia, alguns jovens negros se encontravam próximo ao local como plateia de uma briga que ocorria entre dois homens. Cinco desses rapazes, que possuíam entre 13 e 16 anos, foram pegos e acusados de cometer o crime que não cometeram. 

Ava DuVernay é uma artista conhecida por abordar temas políticos com a figura central em pessoas negras, reais ou fictícias, bem como o racismo que os ronda. Sendo assim, é viável fazer um recorte ainda mais delimitado em sua obra. A partir de sua filmografia é possível notar a influência que o sistema criminal possui em seu trabalho, visto em A 13ª Emenda (2016), documentário indicado ao Oscar que apresenta como sintomático a forma como o sistema carcerário funciona para pessoas negras, e principalmente como essas pessoas passam a ser escravas do estado, provando assim que a escravidão de fato nunca acabou. Em Olhos que Condenam, a roteirista, diretora e produtora conta a história real de cinco jovens negros entre 13 e 16 anos que foram acusados injustamente  no caso que ficou mundialmente conhecido como Central Park Five. 

A minissérie de DuVernay é dividida em quatro episódios com 1 hora de duração cada, com exceção do quarto episódio que possui 1 hora e 30 minutos. A diretora reparte assim a vida dos cinco garotos de forma que possa ser abordado o antes, o durante e o depois do caso ocorrido, bem como o rumo que suas vidas e a vida de seus familiares tomam a partir do evento. Os episódios são divididos entre as figuras centrais formada pelos jovens Antron McCray (interpretado na infância por Caleel Harris e na maioridade por Jovan Adepo), Yusef Salaam (Ethan Herisee e Chris Chalk), Korey Wise (Jharrel Jerome), Raymond Santana (Marquis Rodriguez e Freddy Miyares) e Kevin Richardson (Asante Black e Justin Cunningham).

 Os jovens, que não se conheciam na época, foram apreendidos e persuadidos pela polícia a assumirem a autoria do crime. DuVernay utiliza da visão dos garotos para apresentar o momento conturbado pelo qual eles passaram, assim como se baseia em suas respectivas famílias para apresentar o contexto no qual aqueles jovens se encaixavam antes de estarem todos na mesma situação. 

A fotografia do fantástico Bradford Young e direção de arte de Carmen Cárdenas dão vida ao roteiro de DuVernay, pontuando cores específicas com objetivo de causar determinados sentimentos nos telespectadores. A minissérie possui uma tonalidade verde azulada quase em toda sua duração, presente principalmente nas cenas do julgamento, mas também nas cenas dos reformatórios e cadeias, e de algumas casas como a do jovem Korey Wise, transmitindo a sensação de frieza e desconforto em seu próprio lar. Enquanto isso, a casa do jovem Kevin Richardson é apresentada com cores alaranjadas que transmitem calor humano e um carinho existente ao redor da família. Uma das cenas finais, que ganha tom onírico, possui cores fortes e vívidas, em contraste com a realidade do jovem Wise, que sonha por um momento em como seria sua vida se decisões do passado tivessem sido diferentes. 

E aqui está a marca de Ava DuVernay. Ela apresenta a visão dos jovens garotos, inocentes até que se prove o contrário, de suas famílias, e também da polícia, os responsáveis pela negligência juvenil para com esses garotos. A forma como a diretora conduz a cena a partir dos elementos que o roteiro da mesma apresenta é primorosa. A melancolia, tristeza e impotência, sentimentos que perduram no expectador durante A 13ª Emenda, voltam a fazer parte do público, e dessa vez ainda mais forte. A delicadeza com a qual Ava conduz essa história é o principal responsável por isso, com close-up nos rostos dos jovens que estão perdidos em suas próprias vidas e olham para a câmera em busca de ajuda. Ajuda essa que, nós que assistimos não podemos dar, e por isso, compartilhamos de suas dores.


Ava delimita da forma certeira o que abordar de cada personagem, dedicando assim o último episódio exclusivamente para um dos jovens garotos, que permaneceu anos na cadeia por ter como condição para sair em condicional assumir o crime que supostamente teria cometido. Enquanto o personagem nega, a diretora trabalha com sua condição mental, física e social de forma que nós comemoramos e torcemos para que ele esteja na maior parte do tempo sozinho, já que dentro das penitenciárias aqueles acusados de estupro são ainda mais odiados do que fora da cadeia. 

Assim como o uso de “Glory” na marcha de Martin Luther King (David Oyelowo) em Selma: Uma Luta Pela Igualdade (2014), e o uso das letras de rap em A 13ª Emenda que conduzem o documentário, em Olhos que Condenam ela utiliza de cenas chaves entrelaçadas com uma trilha sonora que desperta emoção e desencadeia arrepios. Neste caso, é possível destacar o momento final do primeiro episódio, que, apesar de ter sido arrastado devido a repetição nas situações dos jovens, que são apresentados um a um, em paralelo com sua situação no caso. Terminam juntos, pela primeira vez, se desculpando um com o outro antes mesmo de se conhecerem. Assim como a união dos jovens neste primeiro momento, o ninho familiar e o afeto por parte deste é utilizado de forma cuidadosa na minissérie. É notável a diferença daqueles que eram mais próximos de suas famílias, principalmente durante seus anos na prisão, já que a grande maioria ainda era menor de idade quando o caso ocorreu, estando assim sem uma identidade completamente formada. Precisando ainda mais de apoio e de um guia norteador para os anos que enfrentariam. 

DuVernay não poderia deixar de fora aquilo que a define, deixando claro a sua posição contrária quanto ao governo em vigor. Em 13ª, Trump foi uma das figuras do documentário, com seus discursos racistas e opressores. Aqui, ele retorna ainda jovem, mas já com os mesmos discursos: “Traga de volta a pena de morte. Traga de volta nossos policiais” foi a manchete que Trump pagou para estampar os jornais de New York na época. Ava cutuca mais uma vez, não somente o presidente dos EUA, mas todos aqueles que acompanharam e o deixaram chegar ao poder, pois mesmo com os discursos extremistas a longa data, ainda assim ele foi eleito. Mais uma vez, dói ver sair da boca de uma das personagens “Ele está tendo os seus 15 minutos de fama”. Quem dera!

Entretanto, nada disso adiantaria se a minissérie não tivesse os protagonistas que tem. Os cinco jovens que conduzem a cena possuem as mesmas características, são frágeis, estão com medo e só desejam que esse pesadelo acabe. Apesar de sentirem as mesmas coisas, eles não estão caricatos e não se perdem um no outro. A construção de cada um é feita de tal forma que nós sabemos o que esperar de cada, sem que isso se torne clichê. Jharrel Jerome segue tendo sua melhor performance, sendo o único a interpretar as duas fases do seu personagem, Korey Wise. Ainda assim, quem rouba a cena é o caçula do grupo Kevin Richardson, vivido por Asante Blackk. O jovem não precisou de muito, além de um olho roxo e a expressão de assustado que carrega para que fosse necessário querer fazer algo maior do que apenas vê-lo sofrer. 

Olhos Que Condenam é uma obra que apesar de retratar um acontecimento de 1989, segue sendo atual, onde o racismo e a injustiça perduram até hoje. Mostrando que enquanto puder, Ava DuVernay irá abordar o tema e cada vez mais de uma forma melhor, apresentando o seu amadurecimento como artista e principalmente como diretora.

Cruel, brutal e desumano, não foi apenas o que aconteceu a Treisha Meili, mas também aos cinco jovens que perderam boa parte de suas vidas apenas por serem negros. Mesmo com toda a tristeza, é bom ver a justiça sendo feita em prol desses rapazes que demoraram anos até terem seus nomes limpos diante da sociedade e passar a serem vistos como gente e não como bichos. Apesar de ser uma obra necessária como lembrete para que esse fato jamais volte a se repetir, é triste saber que todos os dias a população negra continua pagando por crimes que não cometeram, não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Todavia, estamos com DuVernay na esperança de um desfecho igual a este, onde a verdade e justiça triunfam no final.”

OLHOS QUE CONDENAM | WHEN THEY SEE US
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RESUMO

Em Olhos que Condenam, a diretora Ava DuVernay retoma o tema do sistema carcerário para relatar a história real dos cinco jovens negros acusados injustamente por estupro.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.