Crítica | ‘Compra-me um Revólver’ explora o simples com eficiência

No México, em um futuro não muito distante, os cartéis controlam praticamente tudo, as mulheres começam a gradativamente desaparecer e as poucas que nascem são levadas embora de suas casas.Compra-me um Revólver

Huck (Matilde Hernández) é uma jovem garota que vive com o seu pai, que a força a usar correntes nos pés, para evitar que a roubem, a manter sempre seu cabelo curto e a andar sempre com uma máscara, para esconder seu gênero.

Temos aqui um filme sem muitas pretensões de grandiosidade, mas que se mantém firme no que propõe realizar. Acompanhamos uma direção seca, objetiva, direta e propositalmente simples de Julio Hernández Cordón, entrando em perfeita sincronia com a situação em que se encontram as personagens e com a visão pobre que Huck é forçada a ter de seu mundo.

Na trama encontramos um roteiro simples, porém não simplório e que não se preocupa em elucidar o espectador das causas que levaram o mundo a chegar nas consequências que observamos. Partindo dai, acompanhamos uma irritante contestação de que o mundo é assim mesmo, pois só temos como porta de entrada o olhar subjetivo das personagens, ficando refém durante todo o filme de uma sensação de iminência de catástrofe – como se a qualquer momento uma grande desgraça fosse acontecer.

Aqui temos uma paleta de cores quentes e apagadas, mostrando com precisão a pobreza econômica, social, moral e afetiva deste mundo.

Compra-me um Revólver, como já dito, não visa um grandiosidade e nem uma profundidade narrativa, não explora o heroísmo, nem a tirania e nem a covardia, mas mergulha no dia a dia de pessoas em um mundo grosseiro que mais cedo ou mais tarde vai engoli-las. É um filme que incomoda por sua monotonia e pela inocência das personagens e nos faz refletir o que pode fazer as pessoas simplesmente se acomodarem em um mundo como esse.

É um filme que vai desgostar aqueles familiarizados com um modo mais tradicional de contar histórias, pois estamos falando de um longa que parece não ter começo e que termina em aberto. Porém, do início ao fim somos atraídos e sentimos uma provocante familiaridade com tudo aquilo que acontece.

Como resultado, Compra-me um Revólver é simples, porém afetivamente eficaz, interessante, claustrofóbico e provocador. Carrega a impressão de que nada grandioso aconteceu, porem todos os eventos falam por si mesmo.

COMPRA-ME UM REVÓLVER | CÓMPRAME UN REVOLVER
3

RESUMO:

Compra-me um Revólver explora a simplicidade técnica e narrativa, porém trabalha muito bem com os recursos disponíveis e nos traz uma obra sagaz e afetivamente satisfatória

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Matheus Amaral

Formado em Audiovisual, amante do cinema em todos os seus aspectos. Filósofo de bar. As vezes mistura as coisas...Desde pequeno assistia tudo o que via pela frente, cresceu lado a lado com o cinema e com as suas diversas vertentes.