Crítica | ‘Rocketman’: cinebiografia vai muito além dos fatos marcantes da carreira de Elton John

Extravagante. Seria uma boa palavra para definir Rocketman, cinebiografia de Elton John, que estreia nesta quinta-feira (30). Muitas cores, brilho e figurinos espalhafatosos compõem a produção, contribuindo para ilustrar a história do cantor para além de apenas fatos marcantes de sua carreira.

A trama tem seu início com a chegada de Elton em uma clínica de reabilitação depois de muitos anos de abuso de álcool e drogas. Ali, ele começa seu relato e nos transporta a momentos passados de sua vida. A primeira parada é sua infância, marcada por cores frias e destoantes do traje que o vestido por ele no presente. Observamos uma criança carente de afeto pelos pais que se preocupavam mais com eles mesmos do que com o filho.
Este é o ponto que cria o tom do filme, que foca em uma abordagem mais psicológica da personalidade de Elton. Assistimos à uma análise interna do artista e as contradições que perpassaram sua jornada: De um lado, o espetáculo suntuoso e deslumbrante, de outro, as cicatrizes e traumas de seu íntimo.
E sua cinebiografia não poderia ser diferente. Sua vida foi expressiva, multicor, gritante e resplandecente, porém não foi somente isso. Também foi solitária, angustiante e melancólica. Para traduzir esse paradoxo, utilizaram-se metáforas e simbologias que puderam ser explicitadas de forma belíssima através da linguagem musical, formada pelas músicas do artista, cantadas por ele ou por outros personagens.
O gênero musical tem códigos próprios e uma frequência específica. Nele, tudo é possível. Não existem limites para a representação. Essa natureza cinematográfica foi bem explorada em Rocketman , onde podemos ver, por exemplo, Elton e a plateia levitando em seu primeiro show no Troubador. Além de performances, coreografias e composições próximas do surreal constituindo a obra.
A dramatização da música “Rocketman” é um dos pontos fortes, em que se torna perceptível o quão sozinho e distante estava Elton naquele período. O quão “alto” e perdido no espaço ele se encontrava e queria, desesperadamente, voltar. A encenação da canção inicializa no fundo da piscina, onde o cantor, ao se jogar após ter ingerido vários remédios, encontra seu eu criança. O garotinho inocente, sonhador e sem mágoas que era.
Conforme Elton conta sua história, vai se despindo de seus trajes do palco, que também é uma alegoria. No momento literal que entrou pela porta e caminhou pelo corredor, penas e lantejoulas foram caindo de suas vestes. Como se ao transpor aquele espaço e ao relembrar sua trajetória, pudesse constatar, finalmente, quem era de verdade. Sem todo aquele externo extravagante que o cobriu durante tantos anos.
Outro viés importante a ser destacado é que não houve um encobrimento do homossexualismo do protagonista, como houve em Bohemian Rhapsody, a fim de “poupar” um possível público mais conservador. Inclusive, o filme é o primeiro produzido por um grande estúdio com cena de sexo gay. Além disso, Taron Egerton também merece bastante enfoque, por entregar uma atuação impecável de Elton.
Rocketman é divertido, reflexivo e possível de identificação. Elton não é posto em um pedestal que o separa do resto da humanidade ordinária. As aflições que o acompanharam por muito tempo podem ser facilmente os sofrimentos de milhares de pessoas. A busca por amor e aceitação é um tema universal e, quando visto em tela, emociona.
ROCKETMAN

RESUMO

Rocketman é uma cinebiografia divertida, reflexiva e de fácil identificação.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"