Crítica | The Perfection é um suspense imprevisível e cheio de reviravoltas

Charlotte Willmore (Allison Williams), uma talentosa violoncelista, foi forçada a abandonar a prestigiada escola de música Bachoff quando sua mãe ficou doente. Anos depois, Charlotte se reencontra com seus antigos mentores e descobre que eles possuem um novo prodígio musical, Lizzie (Logan Browning), que está fazendo muito sucesso.The Perfection

The Perfection, distribuído pela Netflix, é uma grande surpresa. Richard Shepard, conhecido pela comédia O Matador – também desse serviço de streaming – e por ter dirigido alguns episódios da série Girls (HBO), além de dirigir, escreve o roteiro em parceria com Steven Weber e Alania Huffman. Sempre consciente dos sentidos e significados que quer passar em cada cena, Shepard constrói um universo no qual o público não sabe em quem confiar ou no que acreditar. Consequentemente, é criada uma atmosfera de incômodo.

O roteiro segue uma estrutura não convencional, que combina perfeitamente com a ideia de suspense psicológico. O filme não revela as principais características de seus personagens. Assim, até o final, não é possível dizer do que eles são capazes, o que contribui para a imprevisibilidade da história. Os diálogos são realizados de modo esquisito e frio. Isso num longa qualquer poderia funcionar como um aspecto negativo, mas não é o caso em The Perfection. A cada passo há uma nova surpresa, mas sem excessos. As reviravoltas são bem construídas e coerentes. Shepard é capaz de elaborar momentos incrivelmente desconfortantes, que fazem com que a história atinja diferentes níveis de emoção. Claramente, seguindo um único tom de suspense.

A história é dividida em quatro capítulos – Missão; O Atalho; Lar; e Dueto. O grande problema é a diferença entre ritmos de um ato para o outro. Talvez fique melhor discutir as principais questões e técnicas do filme a partir de cada capítulo individualmente. Para evitar spoilers, o último não será analisado.

MISSÃO

Richard Shepard consegue abrir o longa em grande estilo. Ele não entrega muito sobre a história ou sobre os personagens. Apenas o essencial é apresentado. Começam a surgir indícios do possível caminho que a narrativa vai seguir e que, depois, será desconstruído, surpreendendo a todos. Nesse, o roteiro foca bastante na relação entre Charlotte e Lizzie e no ambiente competitivo no qual as duas estão inseridas. Ambiente esse que exige nada menor do que a perfeição.

Ao perceber que o filme está se desenrolando e, mesmo assim, não se sabe muito sobre ele, uma sensação de desconforto é gerada. O público não sabe em quem confiar ou, até mesmo, qual é a trama exatamente. Isso contribui bastante para a experiência. Assim como, o ritmo acelerado desse primeiro capítulo. A montagem é composta por muitas sobreposições, um excelente recurso cinematográfico para se trabalhar diferentes sentidos de uma determinada cena, sem que fique muito expositivo.

O ATALHO

O segundo capítulo é muito diferente. Não é tão agitado e deixa de focar tanto no suspense para dar espaço ao horror. É o momento em que o público começa a encarar os truques do roteiro. A ideia de desenvolver toda uma linha para depois voltar e desconstruí-la rapidamente é a grande marca de The Perfection.

O diretor consegue prender a atenção durante todo o capítulo, pois ele trabalha elementos que, exceto a parte do horror, poderiam estar presentes no cotidiano de cada um. A situação também brinca com o espectador, ao deixá-lo incomodado por não saber o que tem de errado ou por pensar que sabe o que está acontecendo. A cada capítulo uma nova surpresa, uma reviravolta. O ponto negativo é que o segundo ato tem um ritmo muito abaixo do primeiro. Isso é um problema, pois acontece de maneira repentina.

LAR

No terceiro capítulo, o filme parece se transformar e seguir uma estrutura de terror mais sangrento. Essa transição é realizada de uma maneira brusca, o que desvia um pouco a atenção. Não parece que há uma conexão, pois os estilos entre “O Atalho” e “Lar” não são próximos. Porém, este terceiro ato logo consegue voltar a cativar a concentração do público.

Este ato se preocupa mais com o desenvolvimento dos personagens. É quando, de fato, o público os conhece. É uma parte da história, na qual o ator Steven Weber (iZombie) passa a ter mais importância. A maneira como ele se envolve com a trama é muito bem trabalhada e coerente. No entanto, não se pode dizer que ele realiza uma grande performance. O ator consegue fazer um bom trabalho dentro do que lhe é permitido, enquanto a atriz Alaina Huffman (Smallville) não ganha a mesma oportunidade, o que faz com que a sua personagem pudesse ter sido descartada.

Também vale ressaltar que “Lar” volta a se aproximar do ritmo frenético do capítulo inicial, o que contribui para a construção de um ótimo final.

Voltando para a análise mais geral do filme, é necessário destacar o ótimo trabalho de fotografia de Vanja Cernjul. Ele opta pelo uso de muitas cores brilhantes, principalmente o amarelo (que ressalta a ideia da “perfeição”). Além disso, é possível perceber muitas tonalidades de vermelho em quadros de determinadas cenas. No caso do capítulo “O Atalho”, a escolha é pela luz natural. Os tipos de enquadramentos utilizados, além de imprevisíveis, auxiliam bastante no caminhar da história. Em diversos momentos, procuram destacar a dualidade entre Charlotte e Lizzie, em outros, as expressões das personagens (com o uso de primeiríssimos planos). Também chamam a atenção as cenas nas quais o diretor de fotografia se preocupa em posicionar os personagens ou certos elementos exatamente no centro dos quadros – que ocorre no terceiro ato; e uma cena em que a câmera gira 360º de modo frontal com Lizzie.

Também vale ressaltar a trilha sonora do longa, formada em diversos momentos por um violoncelo nervoso, que aumenta a tensão.

Allison Williams, que atuou em Corra!, outro grande suspense, faz um ótimo trabalho em The Perfection. Ela se encaixa muito bem nessa ideia de não saber o que tem por trás do personagem. Não se pode dizer quais são os planos de Charlotte em relação à Lizzie.

Logan Browning tem o seu destaque no segundo capítulo. Ela transmite muito bem uma sensação de desespero e dor numa situação na qual a personagem não tinha controle.

The Perfection é um suspense manipulador e, em alguns momentos – propositalmente – desconfortante. O roteiro, além de imprevisível, sabe como construir as suas reviravoltas de maneira coerente, no entanto, sofre um pouco com as constantes mudanças de ritmo. É perceptível que o diretor Richard Shepard tem total controle da narrativa e consegue desenvolvê-la através de ótimos recursos cinematográficos – utilizando principalmente a fotografia, a edição e a trilha sonora -, evitando uma grande onda de exposição. Ademais, as atrizes Allison Williams e Logan Browning, que se encaixaram muito bem nas suas personagens, contribuem bastante para o crescimento da história. Ótimo filme.

THE PERFECTION
4.5

RESUMO:

The Perfection é um suspense imprevisível e surpreendente. Conta com a direção segura de Richard Shepard e as ótimas atuações de Allison Williams e Logan Browning.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.