Festival de Cannes | Dia 11: ‘It Must Be Heaven’ e ‘Sibyl’ fecham festival com simplicidade e leveza

O penúltimo dia do Festival de Canne 2019 teve início com as conferências dos filmes O Traidor, de Marco Bellocchio e Mektoub, My Love: Intermezzo, de Abdellatif Kechiche.

Na coletiva de imprensa da coprodução brasileira O Traidor, estiveram presentes além do diretor, o elenco principal, as roteiristas e produtores. Uma das roteiristas do filme, Ludovica Rampoldi, afirmou:

“Demorou mais de dois anos para terminarmos o roteiro. Então quando você lida com figuras históricas, é claro que você tem uma responsabilidade e você precisa ser extremamente preciso. Então, a primeira coisa que fizemos foi fazer muita pesquisa. Estudamos vários livros, nos encontramos com pessoas que participaram de sua história, como o policial que o manteve sob custódia, como juízes, como jornalistas. Fomos atrás de todas as evidências de sua vida para tentar transformá-los em uma narrativa. Guiados pela visão de Marco e pelas obsessões de Marco, que são muitas, mas existem algumas palavras-chave que ditas por ele que nos manteria na cena. […] E por fim tem a traição, na Itália as palavras traditore e tradizione são formadas de uma mesma palavras. Buscetta, traiu sua tradição para se salvar e foi esse interessante paradoxo que tentamos passar aqui.”

Já na conferência no novo longa de Kechiche, estiveram presentes, além do diretor, o seu elenco, composto por jovens não atores, ou que ainda estão em início de carreira. Durante a sessão do filme no dia anterior, muitas pessoas deixaram a sala de exibição. Um jornalista perguntou ao diretor se ele se incomodava com esse tipo de coisa, e se ele entendia que havia falhado de alguma forma.

“Não, não, absolutamente não. O que tentei fazer foi tentar algo diferente e nem todos estão abertos a viver essa experiência ou a essa nova experiência, nem todos compartilham o mesmo caminho que os outros. Nem todo mundo gosta desse ou daquele tipo de filme, por exemplo. Então, não, isso não me incomoda nem um pouco. Se o que eu vejo é o que eu quero ver e isso não convence a todos, uau, é muita sorte, seria um desastre se todos assistissem ao filme exatamente da mesma maneira…”, respondeu Abdellatif.

Pierfrancesco Favino, o diretor Marco Bellocchio, e a brasileira Maria Fernanda Cândido em Cannes

Seleção Oficial

No último dia de premiere de longas da competição oficial foram exibidos os filmes It Must Be Heaven, de Elia Suleiman e Sibyl, de Justine Triet.

A coprodução entre França, Alemanha, Canadá e Turquia, é uma comédia dramática na qual Elia Suleiman deixa sua terra natal da Palestina e viaja pelo mundo apenas para encontrar, por onde ele passa, os mesmos problemas que encontrava lá. De Paris à Nova York, por onde suas viagens o levam, ele encontra problemas com a polícia, racismo, controle de imigração. Tentando deixar sua nacionalidade para trás, mas sempre sendo lembrado dela, ele questiona o significado de identidade e o lugar que se pode chamar de lar.

Na premiere do filme, além do diretor, estiveram Yasmine Hamdan, Gael García Bernal e equipe. O filme é o primeiro do diretor em 10 anos apos pausa, tendo sido ele bem recebido pela crítica.

O The Wrap elogia a simplicidade e vivacidade no novo longa de Suleiman. “Como diretor, Suleiman sabe compor o quadro para tirar o máximo proveito de cada mordaça e, como artista, reconhece que suas sobrancelhas arqueadas são poderosas ferramentas da comédia e as emprega como tal. Esses são recursos úteis para um filme descontraído que freneticamente avança como uma série de pequenos esboços e vinhetas, enquanto mantém um tom bastante distanciado. Mas não confunda a abordagem divertida de Suleiman como evidência de imparcialidade. Muito pelo contrário, na verdade, porque ele usa esse estilo de achatamento para apontar um foco ainda maior…”

O The Guardian, deu 3 estrelas para o longa, abordando pontos positivos e negativos. “Mas este não é o ponto no cinema de Suleiman; sua comédia leva a algo diferente de uma piada, aponta você na direção de uma situação política. […] a comédia está aí para mostrar que há outras maneiras de insistir em sua identidade cultural, formas que não são abandonadas no ativismo paroquial. Para Suleiman, a comédia é uma espécie de não-violência retórica. E ainda há também um pessimismo aqui, um aviso de um leitor de cartas de tarô que um estado palestino não será visto na vida do protagonista”. “Há momentos em que a qualidade passiva e indescritível de It Must Be Heaven, como em outros filmes de Suleiman, me iludiu e me pareceu comportada e superficial, mas eles são elegantemente feitos com uma assinatura distinta.”

O The Hollywood Reporter destaca a performance de Suleiman, e a leveza que apesar de positiva, pode acabar prejudicando o filme. “O dom de Suleiman é sua capacidade de transmitir essa inquietação nos termos mais leves, tornando cada cena um encontro divertido entre o Everyman silencioso e as esquisitices ao seu redor. Ele não precisa de tópicos abertamente políticos;”. “Mais uma vez a cena é tratada de maneira tão leve que seu significado pode ser facilmente perdido no humor de seus movimentos coreografados em patinete elétrico, uma das melhores cenas engraçadas filme.”

“I Must be a Heaven”

O outro longa exibido na noite do dia 24, foi Sibyl, de Justine Triet. Na coprodução entre França e Bélgica, Sibyl (Virginie Efira) é uma psicoterapeuta desgostosa com a vida. Quando ela conhece sua nova paciente, Margot (Adèle Exarchopoulos), uma atriz em ascensão cheia de problemas, ela se vê inspirada a retornar para sua primeira grande paixão: a escrita.

Na premiere do filme estiveram presente a diretora, Gaspard Ulliel, Laure Calamy, Virginie Efira, Niels Schneider, Adèle Exarchopoulos e Paul Hamy.

De acordo ao site IndieWire, que pontuou o filme bom B-, “Sibyl monta o ocasional meta-comentário sobre as quedas de contar histórias no século XXI; Muito parecido com o recente Nonfiction, do escritor francês Olivier Assayas, a história de Trier é um tumulto desenfreado dos perigos que a narrativa enfrenta em uma era de distração. “As pessoas estão saturadas de informações”, diz um personagem. “Os escritores têm menos influência.” O filme muitas vezes luta para equilibrar suas múltiplas vertentes, mas frequentemente aterra em cativantes observações filosóficas no centro da incerta trajetória de Sibyl.”

Para aVariety, “É certamente a mais pura fantasia francesa a jogar no escalão principal de Cannes desde Double Lover, de François Ozon, há dois anos. De fato, o terceiro longa de Triet (e seu segundo com Efira, após a deliciosa fuga de Na Cama Com Victoria de 2016) tem o espírito de Ozon mais vivo e brincalhão, levemente inclinado pela perspectiva feminina simpática da diretora sobre mulheres que já passaram do limite de um colapso nervoso, e deve continuar independentemente.”. O site ainda destaca a performance da protagonista Virginie Efira: “Sibyl também sela a chegada de Efira, uma vez considerada uma comediante simpática, mas leve, como uma protagonista de expansão e consistentemente em expansão – com a honestidade emocional e impassível para tirar os personagens mais revoltosos de Triet e o roteiro original ágil de Arthur Harari”.

Para o Screen Daily, Sibyl “É um filme digerível, com um elenco atraente que também inclui Adele Exarchopoulos, Gaspard Ulliel e Sandra Huller e uma viagem a um set de filmagem em Stromboli para algumas imagens de locais agradáveis. Mas Sibyl é muito menos do que a soma de suas partes, e nunca consegue se livrar de um tom pesado que consistentemente ameaça virar até mesmo os raros interlúdios engraçados. O desempenho de Triet da mulher mais bêbada viva na festa de estréia é certamente um espetáculo para ser visto.”, destaca.

“Sibyl”

Um Certo Olhar

A premiação da mostra paralela mais importante do festival aconteceu na sexta-feira (24), premiando a produção nacional A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Karim Aïnouz com o maior prêmio da seção. Confira aqui todos os filmes vencedores da mostra presidida por Nadine Labaki.

Confira também os vencedores da Palma de Ouro e os demais prêmios do Festival de Cannes 2019.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.