Festival de Cannes | Dia 10: A coprodução brasileira ‘O Traidor’ tem boa recepção; novo longa de Kechiche é massacrado

No dia 23, ocorreu o 10ª dia do Festival de Cannes. No início do dia, Xavier Dolan e Arnaud Descplechin estiveram na coletiva de imprensa com seus respectivos filmes.

Na coletiva de imprensa de Matthias & Maxime estiveram presentes o diretor Dolan, elenco e produtores. Em uma de suas falas, o cineasta disse: “Eu queria fazer um filme sobre amizade basicamente. Eu queria tentar coisas novas. Este filme também foi uma transição para mim, porque me permite começar meus trinta abrindo um novo capítulo em minha vida, estando em Cannes e em termos de cinematografia também. Eu atuo em meu próprio filme. Como eu embarco em meus trinta agora, eu decidi fazer algo que eu gosto, atuar”, finalizou o ator.

Já na conferência do filme Oh Mercy! estiveram presentes o diretor Arnaud Desplechin e seu elenco: Sara Forestier, Roschdy Zem, Léa Seydoux, Antoine Reinartz e Roschdy Zem.

Na coletiva, Desplechin declarou sua inspiração para o filme. “Quando penso em cinema, e por que assisto aos muitos filmes que eu amo. Houve um filme que me abraçou quando eu estava escrevendo que foi O Homem Errado de Hitchcock, e eu decidi ‘me desarmar’ e filmar na cidade em que nasci. Decidi me concentrar na delegacia de polícia, e esse evento ocorreu há 15 anos e, para mim, era o que eu estava procurando fazer.”

Xavier Dolan em Cannes

Seleção Oficial

Nas exibições dos filmes da competição oficial, foram apresentados a coprodução brasileira O Traidor, de Marco Bellocchio e o francês Mektoub, My Love: Intermezzo, de Abdellatif Kechiche.

O primeiro longa exibido foi o do italiano Bellocchio. O drama biográfico é uma coprodução entre Itália, França, Alemanha e Brasil, e conta a história de Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino), considerado um dos mafiosos mais relevantes na história da Itália. Ele foi o principal informante da polícia em uma gigantesca operação que resultou em centenas de prisões que ajudaram a desmantelar a máfia italiana. Em meio a mortes, tráfico e ameaças, Tommaso viveu os dois extremos da lei e tornou-se conhecido por seus ex-companheiros como traidor.

Na premiere do longa estiveram presentes o diretor Marco Bellocchio, a atriz brasileira Maria Fernanda Cândido, Pierfrancesco Favino, Luigi Lo Cascio e Fausto Russo Alesi. Após a sessão foi muito aplaudido, principalmente pelos críticos italianos, que aparentaram ter uma relação mais pessoal com o filme.

O protagonista foi muito elogiado pelo site The Wrap, que apontou a vitória de Favino no sábado (25) como algo possível de acontecer. “Em um ano extraordinariamente forte para os homens (e também para as celebridades, com Antonio Banderas, os garotos de Tarantino e até Xavier Dolan), Favino poderia facilmente levar o prêmio de Melhor Ator do festival no sábado à noite. Seja qual for o caso, esse papel de destaque sem dúvida aumentará o perfil do ator nos EUA após o lançamento do filme pela Sony Pictures Classics. Ele conseguiu papéis menores em filmes de Hollywood na última década, mas não se surpreenda ao vê-lo mascar o cenário como o principal vilão de um filme de James Bond em alguns anos.”

A Variety, que define essa como sendo melhor performance do ator Pierfrancesco Favino, também elogia a precisão do longa. “O que mais surpreende no drama sobre a máfia de Marco Bellocchio, The Traitor, é o quão direto é. […] havia expectativas de que o diretor entregasse um drama teatral ao estilo de Vincere, mas apesar de alguns floreios operísticos, seu mais recente parece entender que os elementos teatrais incorporados já são tão histriónicos que é melhor reproduzi-los da forma mais direta possível. Consequentemente, The Traitor parece um pouco anônimo. É claramente feito por um cineasta que questiona a natureza do arrependimento e, como tal, está longe de ser superficial; e, apesar de nunca perder a nossa atenção, ele também não causa muito impacto.”

Para o Adoro Cinema, que deu ao longa nota 2,5, “o maior problema do filme se encontra no roteiro, satisfeito em enumerar as passagens mais marcantes da vida de Tommaso sem construir o antes e o depois, ou ainda o contexto permitindo o desenvolvimento das ações. O diretor Marco Bellocchio trabalha a cinebiografia em modo Wikipédia, listando nomes e datas na tela, saltando de um julgamento a uma investigação, de uma cidade onde mora Tommaso à outra, onde é forçado a se exilar.”

Pierfrancesco Favino em “O Traidor”

O segundo filme da noite foi o francês Mektoub, My Love: Intermezzo, de Abdellatif Kechiche. Na premiere, estiveram presentes Kechiche, Hafsia Herzi, Salim Kechiouche, Alexia Chardard, Lou Luttiau, Shain Boumedine, Mel Einda El Asfour e equipe.

O longa é uma continuação de outro filme de Kechiche, Mektoub My Love: Canto Uno de 2017, que estreou no Festival de Veneza. A segunda parte se passa durante o verão, e conta a história de Amin (Shaïn Boumedine), que aproveita os últimos dias de suas férias. O jovem fotógrafo se torna cada vez mais próximo de Charlotte (Alexia Chardard), a antiga namorada de seu primo conquistador. Eles passam as noites juntos, entre ensaios fotográficos e conversas sobre literatura. Mas ninguém sabe destes encontros escondidos. A recepção do filme foi uma das mais negativas de todo o festival. Público e críticos alegam que Mektoub é apresenta apenas sexo e corpos nus gratuitamente.

O The Guardian pontuou  filme com 2 estrelas. “Então eu tenho que admitir: Mektoub My Love: Intermezzo me derrotou. Kechiche está começando a parecer menos com Eric Rohmer e mais com Russ Meyer. É como se Kechiche estivesse repetindo a pergunta clássica feita por Nigel Tufnel, da Spinal Tap: o que há de errado em ser sexy? Todas as partes interessantes do primeiro filme, todas as coisas que lhe deram uma perspectiva, foram amputadas, deixando-nos apenas uma espécie de artrusa Love Island. E o vazio emocional dos personagens nessa cena interminável de boate, sempre rindo e dançando como se tivessem uma pílula muito forte de MDMA – ou uma lobotomia – é simplesmente estranho. Parece que toda essa dança certamente deve levar a alguma coisa: algum surto de ciúme, ou agressão masculina tóxica, ou talvez alguma revelação de Stepford. Mas não. Nada.”

O IndieWire que deu C- afirma, “Dado que Intermezzo inclui mais bunda do que qualquer filme desde Au Hasard Balthazar, e apresenta uma cena de sexo oral sem estímulos em que uma mulher bonita mói sua vagina no rosto de um homem em um banheiro apertado de discoteca por algo entre 10 e 15 minutos ininterruptos a única esperança do filme para a distribuição dos EUA seria que Kechiche fizesse um acordo diretamente com o PornHub. É apenas uma questão de tempo até que a cena esteja lá de qualquer maneira, então ele também pode ganhar algum dinheiro com isso (não menos importante, porque sua decisão de separar essa parte da abrangente história em seu próprio filme fez com que seus produtores saíssem e forçou-o a leiloar seu troféu de Palme d’Or para recuperar os fundos.”

O Adoro Cinema, que deu 1,5 para o longa define não só o filme, mas como o seu diretor como fetichista. “Mektoub, My Love: Intermezzo constitui uma mostra tragicômica de autoria no cinema, uma prova do que um cineasta consagrado é capaz de fazer por ter o poder de fazê-lo – e ainda ser selecionado no festival de cinema mais prestigioso do mundo. Se é possível falar em privilégio masculino, é devido a casos como este. O espectador permanece sentado, quieto e atento, assistindo a um grupo de pessoas se divertirem, não para os nossos olhos, mas apesar deles. […] Para o bem ou para o mal, o que interessa a Kechiche é a demonstração de controle e poder masculino, detendo em suas mãos o corpo das atrizes, o olhar do espectador e as atenções do disputado Festival de Cannes.”

“Mektoub, My Love: Intermezzo”, de Abdellatif Kechiche

Um Certo Olhar

No último dia de exibição da mostra Un Certain Regard foi exibido o longa Once in Trubchevsk, de Larissa Sadilova.

O filme é uma crônica da vida na aldeia russa de Troubtchevsk. Em uma cidade pequena, tudo está ao ar livre. Não importa o quanto você tente esconder os assuntos, sua família é obrigada a aprender a verdade mais cedo ou mais tarde. E então você terá que fazer uma escolha: começar uma nova família ou confessar e voltar à vida normal. Essa é a escolha que os protagonistas enfrentam. Na photocall do filme, além da diretora russa Larisa Sadilova, estiveram presentes Egor Barinov e Kristina Schneider.

Para o Screen Daily, “o primeiro longa-metragem da roteirista e diretora Larisa Sadilova em quase uma década é um drama modesto, mas precisamente calibrado, com uma sensação plangente de vida numa cidade pequena. Talvez uma proposta demasiado modesta para os distribuidores internacionais, ainda deve ser bem recebida no circuito de festivais.”

O site também destaca a performance de Schneider: “A performance de estrela aqui vem de uma radiante Kristina Schneider que faz de Anna uma força vital tão positiva que você pode sentir imediatamente por que ela iria querer uma vida mais romântica, ou pelo menos algumas novas aventuras. Vestida com amarelos ousados ​​e cores brilhantes, ela é um raio de sol em um mundo bastante monótono e Schneider faz dela uma vibrante sobrevivente de qualquer coisa que a vida e os homens decidam jogar nela.

“Once in Trubchevsk”

Confira aqui nossos conteúdos sobre todos os dias do Festival de Cannes 2019.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.