Festival de Cannes | Protestos marcam a 72ª edição, incluindo produções brasileiras

Durante o Festival de Cannes, seis filmes tiveram suas exibições marcadas por protestos: os documentários Que Sea Ley, For Sama, Papicha, Indianara e os dramas Litigante e Sem Seu Nome, além da Palma de Ouro Honorária, que também foi marcada por protesto.”

O festival é conhecido por receber filmes de todo o mundo, assim como, filmes com as mais diversas temáticas. Algo recorrente no festival, são protestos levantados pelas equipes dos filmes que tendem a abordar alguma mensagem importante, e ao serem exibidos em um local com tanta visibilidade, veem a oportunidade como um ato político. Visto que o festival é acompanhado por pessoas de todos os lugares, e cobrido por jornalistas de vários países. 

Este ano, não poderia ser diferente. Diversos protestos já ocorreram no festival, além daquele feito pela atriz holandesa Sand Van Roy em prol da luta da violência contra a mulher. Van Roy apareceu no tapete vermelho com a seguinte mensagem nas costas: “Pare com a Violência Contra Mulheres”, em referência ao ator Alain Delon que foi homenageado com a Palma de Ouro Honorária, apesar de ser acusado por várias mulheres de violência doméstica.

Alain Delon em Cannes – G1(reprodução)

Que Sea Ley, de Juan Diego Solanas

O documentário que aborda a legalização do aborto na Argentina teve sua premiere na mostra Sessões Especiais no dia 18/05 marcada por um protesto com sessenta mulheres e ativistas que lutam pela causa. O movimento foi estampado pela cor verde, no qual participantes carregavam lenços, roupas e placas verdes, cor da assinatura do movimento na Argentina.  

O protesto é uma reivindicação após a rejeição de uma lei na Argentina legalizando o aborto. A lei foi rejeitada no ano passado, mas será novamente votada em 28 de maio. Apesar de ser com enfoque argentino, os organizadores disseram que o protesto também é uma reação às mudanças na lei de aborto dos EUA. De acordo ao THR, até agora, neste ano, quatro estados – Geórgia, Kentucky, Ohio e Mississippi – promulgaram proibições de abortos depois que um batimento cardíaco fetal é detectado. Na sexta-feira, a Casa do Missouri aprovou uma lei proibindo o aborto depois de oito semanas, exceto em casos de emergência médica, com o governador do estado, Mike Parson, esperando assinar a medida. 

Antes da exibição do filme, foi apresentado um cartaz em homenagem a Ana María Acevedo, mulher que perdeu a vida 12 anos atrás em uma gravidez de risco, mesmo os médicos tendo conhecimento e a mesma tendo recorrido ao aborto legal anteriormente. Além disso, foram colocados lenços verdes em todos os assentos, na sala de projeção onde o filme foi exibido, afirma uma jornalista da AFP.

O movimento recebeu o apoio do elenco de Dor e Glória, bem como a do seu diretor, Pedro Almodóvar.

Litigante, de Franco Lolli 

O filme que abriu a Semana da Crítica no dia 15/05, dirigido pelo colombiano Franco Lolli, aborda a história de uma advogada independente que se envolve em um forte escândalo de corrupção e todas as pessoas próximas a ela começam a ser afetadas. Enquanto tenta lidar com o problema, ela luta para superar transtornos mentais como ansiedade e depressão, fazendo com que sua rotina seja uma grande montanha-russa. 

Apesar de ter sido bem recebida pela crítica, o que marcou a estréia do filme foi o protesto que Lolli, juntamente com o diretor Ciro Guerra (O Abraço da Serpente), presidente do júri da seção, e outros cineastas colombianos fizeram em prol de justiça pelo assassinato do diretor, gerente cultural e diretor de cinema do departamento de Arauca, Mauricio Lezama. 

De acordo ao site da Revista Acardia, Lezama foi morto na quinta-feira do dia 08/05, na aldeira de La Esmeralda, no estado venezuelano do Amazonas, enquanto trabalhava em um projeto sobre as vítimas do conflito armado. De acordo com o El Espectador, sua viagem a Arauca foi voltada para audições de atores que estariam presentem em seu próximo curta-metragem sobre a vida de Maio Villareal, líder social e sobrevivente do genocídio contra a União Patriótica. Ainda não se sabe quem matou o cineasta, mas tiros o acertaram e deixaram o cinegrafista Ricardo Llain ferido. 

Ainda com referência ao site da Revista Acardia, o diretor Ciro Guerra e Vladimir Durán (Adeus entusiasmo)que orquestraram o protesto, decidiram aproveitar a visibilidade oferecida por um lugar como Cannes, ‘além da frivolidade’ de um tapete. A escritora Carolina Sanín, afirma que o movimento foi: “uma homenagem ao seu colega cineasta assassinado e uma mensagem ao mundo para ter em mente o que aconteceu e o que está acontecendo na Colômbia”. 

 “Sentimos a responsabilidade e a preocupação do que está acontecendo no país, contratempos, violência e manipulação de informações, para chamar a atenção do lugar de onde se pode”, disse Durán para ARCADIA. “Decidimos que o tapete vermelho era o lugar para fazer essa queixa. Entendo que já faz nove anos que um cineasta não é assassinado na América Latina. Então, quando um cineasta é morto, isso não é um caso isolado, mas sim parte de um novo extermínio, chegamos a um acordo com aqueles que estavam aqui para que fosse feita uma ação que coloque o foco nessa situação horrível”. 

Na manhã do dia 16/05, uma outra líder cultural foi assassinada, María del Carmen Flórez, líder e vítima de deslocamento em Ocaña. Aumentando assim a lista de crimes cometidos contra líderes e defensores dos direitos humanos nas regiões da Colômbia.  “Não podemos continuar a permitir que as regiões da Colômbia sejam assassinadas impunemente para sustentar um poder feudal”, conclui Durán. (Fonte Revista Arcadia).

For Sama, de Waad Al-Kateab e Edward Watts

Na premiere do documentário For Sama, de Waad Al-Kateab, Edward Watts, no dia 15, foi feito um prostesto contra os bombardeaos do regime de Assad á hospitais na Síria. 

O documentário exibido na mostra Sessões Especiais, aborda a história da cineasta síria, Waad al-Kateab, que filmou durante cinco anos sua vida na cidade de Aleppo tomada por rebeldes durante a rebelião síria. Ficando na cidade para lutar por uma Síria livre, ela se apaixona, se casa e tem uma filha, tudo enquanto documenta a terrível violência que a cerca. O documentário é dedicado a sua filha, como uma forma de explica-la sobre os conflitos existentes no lugar onde nasceu. Além disso, foi muito bem recebido pelos críticos no festival. 

Durante a premiere, a diretora e seus colegas posaram com cartazes de protesto no tapete vermelho pedindo ao regime sírio para parar a destruição sistemática de instalações médicas em áreas controladas pela oposição. “Parem de bombardear hospitais”, gritavam os cartazes. 

De acordo ao site Arab News, o governo sírio tinha sido acusado de atacar hospitais desde 2012. Com a “Primavera Árabe” protestos pacíficos que começaram em 2011, degeneram em uma guerra civil após o ditador Bashir Al-Assad tentar combater a oposição que estava no poder. A Anistia Internacional documentou “mais de 300 ataques a instalações médicas por forças sírias e russas” somente em 2015. Em 2016, o sírio American Medical Society registrou 252 ataques a centros de saúde sírios, entre eles uma instalação administrada pelos Médicos Sem Fronteiras (Médicos Sem Fronteiras), que foi atingido em um ataque aéreo na manhã de 15 de Fevereiro, deixando 25 pessoas mortas, incluindo nove trabalhadores da saúde e cinco crianças.  

A guerra na Síria já matou mais de 370.000 pessoas e deslocou milhões desde que começou com a brutal repressão de protestos contra o governo em 2011. (Via Arab News)

Papicha, de Mounia Meddour e Abou Leila, de Amin Sidi-Boumedine

O drama Papicha, se passa em 1997, em uma Argélia controlada por grupos terroristas com intenções de transformar o país em um arcaico Estado Islâmico. Nedjma (Lyna Khoudri), uma estudante universitária apaixonada pelo mundo da moda, deseja lutar contra a opressão que o governo exerce sobre mulheres tentando controlar seus corpos e presença em espaços públicos. Determinada em unir as mulheres de seu campus, ela organiza um desfile em protesto, que desafia as regras impostas pela sociedade argelina. 

Exibido no dia 17, durante a premiere e photocall do filme, a diretora Mounia Meddour e elenco, composto por Lyna Khoudri, Amira Hilda Douaouda, Shirine Boutella e Zahra Doumandji levantaram bottons com as mensagens “Yetnahaw Ga3” e “2nd RepublicYetnahaw Ga3 é um famoso movimento na Argélia, conhecido por pedir a renúncia do presidente do Senado, do presidente da Assembléia Constituinte, presidente do NPC, e todos os membros do governo, incluindo o primeiro-ministro e assim como a substituição por uma Assembleia Constituinte escolhida pelo povo para fazer a transição e realizar as eleições. 

De acordo com o O Globo, o presidente do país, Abdelaziz Bouteflika, pediu renuncia no dia 02 de abril após pressão dos militares. Encerrando suas pretensões a um quinto mandato após 20 anos de poder. Entretanto, o processo de transição imposto pelo Exército, com eleições presidenciais agendadas para 4 de julho, está sob controle da velha guarda do regime, o que contraria as ambições das ruas. O general aposentado Ali Ghediri já apresentou sua candidatura ao pleito. Já o chefe do Estado-Maior, general Ahmed Gaïd Salah, alertou para o perigo da continuidade dos protestos e declarou que “todas as perspectivas permanecem abertas” para superar a crise.  

Esse movimento popular também faz parte da Primavera Árabe, que teve início no começo da década através de revoltas contra regimes autoritários no Norte da África e no Oriente Médio. 

Outro filme argeliano que aderiu a causa foi o Abou Leila, de Amin Sidi-Boumedine, exibido na mostra Semana da Crítica. O longa conta a história de Lotfi e S., dois amigos de infância que viajam através do deserto procurando por Leila, uma perigosa terrorista atualmente fugindo da polícia. Por mais que aventura pareça absurda, na verdade S. possui um plano de tramar toda esta jornada para manter Lotfi longe da violência urbana crescende no centro da Argélia, onde eles moram.

Indianara, de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa

No dia 19/05, a produção nacional Indianara foi exibida na mostra ACID (Association du Cinéma Indépendant pour sa Diffusion). O filme entrou para a lista de filmes brasileiros exibidos no Festival de Cannes, sendo ele o único nacional na mostra ACID. A mostra ACID é conhecida por receber produções que não são francesas, e apesar de possuir um pequeno espaço no festival, ainda sim, é uma projeção para o campo internacional. O documentário Indianara é baseado na figura de uma revolucionária líder trangênero, Indianara Siqueira, acompanhando desde 2016, os passos da militante. Fundadora da Casa Nem, abrigo carioca para mulheres transgênero em situação de vulnerabilidade, ela lidera um grupo de mulheres transgênero que lutam pela própria sobrevivência em um lugar tomado por preconceito, intolerância e polarização. Desde disputas partidárias até o puro combate contra o governo opressor, a ativista de origens humildes passou por uma longa trajetória até se tornar ícone do movimento.

Na premiere do filme, a equipe fez um protesto denunciando acontecimentos do Brasil. Alguns cartazes denunciavam o presidente Jair Bolsonaro e seu descaso com a educação; outros foram exibidos em homenagem a Marielle Franco; e um denunciava a transfobia existente no país.

Infelizmente Indianara não pôde comparecer ao festival, pois está proibida de entrar em solo francês. Em 2007 foi presa pois, enquanto estava na França, trabalhava como prostituta, além de sublocar apartamentos para outras transexuais, prática que apesar de exercer no Brasil, foi considerado proxenetismo no país, crime visto como grave. Apesar do passado, Indianara alegou que “Foi o único lugar onde eu me senti realmente em paz e em segurança, porque eu estava livre dessa sociedade aqui fora.” declarou ao O Globo. (Via O Globo)

Sem Seu Sangue, de Alice Furtado

No dia 23 foi exibido outra produção nacional, Sem Seu Sangue da diretora Alice Furtado, filha do diretor Jorge Furtado. Sem Seu Sangue, coprocução entre Brasil, França e Holanda, esteve presenta na mostra Quinzena dos Realizadores, e conta a história de Silvia (Luiza Kosovski) é uma jovem introvertida que possui completo desinteresse pela própria rotina. Ela acredita ter encontrado em Artur (Juan Paiva) um sentimento que a faz sentir-se mais viva e menos tímida. Apesar de ser hemofílico, a sua força e vitalidade deixam Silvia completamente encantada, mas um grave acidente pode complicar ainda mais as coisas.

Na premiere do longa, a equipe do filme usou o momento para se manifestar em defesa das universidade públicas brasileiras. Apresentando cartazes em português e inglês com frases em defesa de instituições que estão sendo afetadas pelo corte de 30% feito este ano. (Via Assiste Brasil)

O Festival de Cannes ocorre entre os dias 14 e 25 de maio. Confira outras notícias do festival aqui.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.