Festival de Cannes | Dias 8: ‘Parasite’ entra para lista de favoritos e ‘Era Uma Vez em Hollywood’ é aplaudido por sete minutos

No oitavo dia do Festival de Cannes, os filmes Frankie, de Ira Sachs e O jovem Ahmed, dos irmãos Dardenne passaram pela coletiva de imprensa pela manhã.

Na coletiva de Frankie, além do diretor, estiveram presentes o elenco e produtores do filme. Em uma das perguntas, Sachs falou sobre sua relação com o público.:

“Eu estou sempre tentando criar uma situação em que se sente que a vida vem em primeiro lugar, e o público percebe isso. Eu acho que os filmes são contados no meio, eles não são contados nos começos ou nos fins, as cenas são dadas em um determinado lugar, o qual você como um público, precisa encontrar um caminho. E eu acho que isso ajuda a criar um suspense no filme, e também um sentimento de que essa família existe, que convida você a fazer parte dessa família, mas também quando o filme acabar, a família vai sem você. Então, para mim, esse é o relacionamento mais íntimo que eu posso criar com o público, dando suficiente, mas não muito.”

Já no filme de Luc e Jean-Pierre Dardenne, ao ser questionado por uma jornalista quanto ao final de seu filme e como, na vida real, ela não acreditaria tanto naquele final, Jean-Pierre respondeu: “Se a ideia fosse apenas copiar a realidade, nós pensamos que isso seria interessante. Porque o que você diz é muito verdadeiro, na realidade, na vida, isso aconteceria. Se fizermos um filme que fala sobre fanatismo, temos que filmar algum “luar” nas coisas. Não podemos simplesmente copiar a vida. Vamos tentar e ver se os personagens podem ser salvos ou não”, finalizou o diretor.

Ira Sachs, diretor de “Frankie”, concede entrevista em Cannes

Seleção Oficial

Na competição oficial do festival, foram exibidos o aguardado filme de Quentin Tarantino, Era Uma Vez em Hollywood e o coreano Parasite de Bong Joon-Ho.

Durante o início da noite na Croisette, Quentin Tarantino passou pelo tapete vermelho juntamente com seu elenco principal formado por Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Margot Robbie. No longe, Rick Dalton (DiCaprio) é um ator de TV em Los Angeles, ano 1969, juntamente com seu dublê, está decidido a fazer o nome em Hollywood. Para tanto, ele conhece muitas pessoas influentes na indústria cinematográfica, o que os acaba levando aos assassinatos realizados por Charles Manson na época, entre eles o da atriz Sharon Tate (Robbie), que na época estava grávida do diretor Roman Polanski (Rafal Zawierucha).

As primeiras reações ao filme foram calorosas, desde as performances dos atores, quanto o roteiro e diversas outras áreas. O The Guardian deu 5 estrelas para o filme, afirmando que o longa “é chocante, emocionante, deslumbrantemente filmado nas cores primárias de celuloide do céu azul e ouro do pôr do sol: cores com o calor que Mama Cass cantou sobre. Los Angeles de 1969 é recuperada com toda a intensidade habitual de Tarantino e delirante, histérica apreciação dos detalhes da cultura pop. Mas há algo de novo aqui: não apenas a cinefilia erótica, mas a TV-filia, uma intensa percepção do fundo das telas pequenas para a vida de todos. As opiniões vão se dividir sobre o final surpreendente e espetacular deste filme, que Tarantino está preocupado em manter em segredo e que não tenho intenção de revelar aqui. Mas, certamente, qualquer erro de gosto ostensivo não se parece em nada com aqueles dos admiráveis ​​Bastardos Inglórios. E talvez se preocupar com o gosto é perder o ponto dessa fantasia bizarra de horror Cacobeana.”

O Adoro Cinema deu nota 3 para o filme. “Ao longo da narrativa, o diretor encontra momentos para demonstrar sua habitual inteligência de enquadramentos e conhecimento dos diferentes gêneros do cinema […] Apesar destas cenas isoladas, resta constatar que o filme se arrasta, não apresenta conflitos (leia-se: reviravoltas que mudem os rumos da narrativa) durante aproximadamente 140 minutos, e gira em círculos ao pular de personagem em personagem, os três separados em subtramas paralelas durante a quase integralidade da história…Talvez esta estratégia seja inteligentíssima, por romper com a estrutura clássica narrativa e evitar o fetiche da violência que se esperaria do cineasta. Talvez ela seja apenas autoindulgente, como se o diretor dissesse filme após filme que não precisa provar nada a ninguém, agradar quem quer que seja.”

Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e Al Pacino em “Era Uma Vez em Hollywood”

O segundo filme exibido na noite de quarta-feira foi Parasite, do coreano Bong Joon-Ho. No novo longa do diretor de Okja, uma família é o centro. Toda a família de Ki-taek está desempregada, vivendo num porão sujo e apertado. Uma obra do acaso faz com que o filho adolescente da família comece a dar aulas de inglês à garota de uma família rica. Fascinados com a vida luxuosa destas pessoas, pai, mãe, filho e filha bolam um plano para se infiltrarem também na família burguesa, um a um. No entanto, os segredos e mentiras necessários à ascensão social custarão caro a todos.

De acordo ao site IndieWire , que deu nota A- para o longa, Parasite define em qual gênero é possível se encaixar o diretor Bong. “O diretor se refere a seu novo filme furioso e diabolicamente bem trabalhado como uma “tragicomédia familiar”, mas a melhor coisa sobre Parasite é que nos dá permissão para parar de tentar classificar seus filmes em qualquer tipo de taxonomia pré-existente – com Parasite, Bong finalmente se torna um gênero para si mesmo. Abandonando os elementos de ficção científica que definiram seu trabalho recente em favor de uma história da vida mais fundamentada (mas não menos excêntrica) sob a mortandade do capitalismo tardio, o último de Bong oferece outra parábola compassiva sobre como a sociedade só pode ser tão forte quanto pessoas mais vulneráveis.”

Parasite pega todas as batidas que você espera encontrar em um filme de Bong e as encolhe com precisão de relógio. O filme não parece menor do que o Okja, apenas mais restrito. É um truque de mágica que Bong é capaz de fazer porque ele é capaz de esculpir um set inteiro sem fôlego a partir de apenas uma única mesa de madeira. Não há nada em Parasite tão épico quanto o ataque de abertura em O Hospedeiro, mas o filme contém uma série de sequências inspiradas que pulsam com a mesma loucura moral e relativa dos momentos marcantes de Bong; um está debaixo d’água, um está na pedra, um está na grama.”

O The Hollywood Reporter também elogiou ao filme, traçando um paralelo entre o novo longa de Bong e outros filmes de sua carreira. “Como grande parte do trabalho de Bong, Parasite é complicado e pesado em seu comentário social. O tratamento amplamente naturalista aqui também pode alienar alguns dos seus fãs de fantasia. Dito isso, esse drama espinhoso contemporâneo ainda se sente mais coerente e tonalmente seguro do que Snowpiercer ou Okja, e traz um soco oportuno que ressoará em nossos tempos financeiramente duros e politicamente polarizados”.

Parasite é geralmente emocionante e finamente trabalhada, levantando-se bem como a declaração mais madura do estado da nação de Bong desde Mémorias de um Assassino em 2003. As performances são uniformemente sólidas, com crédito especial devido aos atores infantis e adolescentes. A cinematografia de alto brilho de Hong Kyung-pyo combina cores brilhantes de confeitaria com precisão cinética, enquanto o design de produção de Lee Ha-jun é tipicamente soberbo, especialmente o elegante e minimalista homem de família Park.”


Sessões Especiais

Na mostra paralela de Cannes foi exibido o longa La Belle Époque, de Nicolas Bedos. O comédia dramática francesa conta a história de Victor (Daniel Auteuil), um sexagenário desiludido com o casamento em crise. Quando ele conhece Antoine (Guillaume Canet), um empreendedor de sucesso, que o sugere uma atração de parque de diversões diferenciada, que une encenação teatral com recriação histórica, sua vida vira de cabeça para baixo. Victor decide então reviver o que ele considera a semana mais memorável de sua vida, na qual, 40 anos atrás, ele conheceu seu grande amor.

O The Up Coming pontuou o filme com nota 3. “O set-up é uma comédia clássica, e o diretor Nicolas Bedos consegue criar uma atmosfera de possibilidade leve. Ele corta entre situações e momentos – muitas vezes passando da reencenação para a sala de controle do diretor e vice-versa – com um bom timing cômico”. “La belle époque é aconchegante e engraçado, mas nunca se perde em sua fantasia – ele sempre volta à Terra – e é um filme pior para ela.”


Um Certo Olhar

Na seção Un Certain Regard, foram exibidos a animação The Bears’ Famous Invasion, de Lorenzo Mattotti e O que Arde, de Oliver Laxe.

A animação de Mattotti conta a história dos ursos que, passando fome depois de um inverno particularmente difícil, descem de suas montanhas para os vales sicilianos em busca de alimento. Porém, chegando lá, eles são obrigados a enfrentar o exército do Grão-duque da Sicília e uma série de perigos e batalhas se colocam em seu caminho.

Para a Screen Daily ,”transformando cenários naturais em padrões têxteis arrebatadores e produz esculturas de tom e tonalidade castanho-avermelhadas, este é um mundo visual de cores brilhantes, mas também moderno e estiloso, que pode aparecer numa caixa de chocolate retro criada por alguns desenhos animados. Designer italiano amigável. Apenas as formas e os rostos humanos são um pouco decepcionantes, muito imprestáveis ​​de um certo estilo de economia de custos da Euro TV. Em sua inventiva trilha sonora, o compositor René Aubry mistura as marchas russas e os acordes da guitarra siciliana, espelhando, em suas texturas sonoras, a gama caleidoscópica de referências visuais do filme.”

Laxe volta a Cannes após vencer o Grande Prêmio da Semana da Crítica em 2016 com seu primeiro longa, Mimosas. O novo filme do diretor apresenta Amador (Amador Arias), um notório incendiário galego que já foi até mesmo preso por seus crimes. Saído da prisão e vivendo com sua mãe na pequena vila em que nasceu, ele tem seu cotidiano interrompido quando um incêndio em uma floresta próxima devasta a região.

O The Hollywood Reporter apresenta que o filme possui “uma progressão bem merecida, considerando as excepcionais qualidades cinematográficas do filme – entre elas, suas imagens incrivelmente poderosas e suas atmosferas que transcendem um realismo documental e contrastam de maneira surpreendente com uma história intencionalmente austera”. “Oliver Laxe produz uma obra estupefaciente, sua secura narrativa pulverizada pela intensidade de suas sequências à medida que o filme de repente mergulha no coração do fogo. Um impressionante feito de direção que mais do que recompensa a paciência exigida anteriormente pela extrema nudez da história e que prioriza com sucesso as sensações dos espectadores.”

O Adoro Cinema, deu 4,5 ao filme. “Laxe encontra na natureza o registro próximo do documental, uma prova de que aquela história é verdadeira, os cenários são reais, as ações não poderiam ser simuladas.”. “Este jogo de acusações é permeado por uma atmosfera misteriosa, próxima da alucinação. As cenas iniciais constituem um puro deleite estético, quando as árvores de uma floresta são iluminadas por alguma fonte desconhecida, e então caem, uma a uma, antes que descubramos a causa da devastação. O cineasta filma o corte dos pinheiros como uma sinfonia macabra, em pleno domínio dos enquadramentos e da montagem, até deslizar sua câmera majestosamente pelos sulcos de uma árvore. Este poderia ser o início de um filme de terror, o que de certo modo condiz com os não-ditos e as sugestões de O que Arde.

O Festival de Cannes termina no dia 25 de maio. Confira outras matérias sobre o festival aqui.

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Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.