Festival de Cannes | Dia 9: Xavier Dolan está de volta, ‘Oh Mercy’ desaponta e filme de crime estreia com censura chinesa

O nono dia do Festival de Cannes teve início com as coletivas de imprensa dos filmes que foram exibidos na noite anterior: Parasite, de Bong Joon-Ho e Era Uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino.

Na coletiva do thriller coreano Parasite, estiveram presentes o diretor, e sua equipe composta por elenco e produtores. O moderador da mesa, falou sobre a ‘nova onda do cinema coreano’ e pediu para que Bong comentasse um pouco sobre o amadurecimento deste cinema, pois assim como Parasite, os novos filmes da Coréia do Sul, abordam um criticismo acerca da política e da sociedade.

Bong respondeu:  “Definitivamente. Desde a virada do século, tivemos muito desenvolvimento e mudanças nos filmes de horror do cinema coreano. Nós não estamos seguindo os códigos do cinema de horror americano, por exemplo. Nós fomos possibilitados de adicionar um toque coreano quando contamos essas histórias. E falando sobre problemas sociais e políticos, para ser bem sincero eu acho muito estranho no cinema… Quer dizer, seria estranho se não tivéssemos mensagens políticas, ou mensagens sobre a sociedade. No cinema americano há algumas convenções, e nós também temos nossa especificidade no cinema da Coreia.”

Bong também declarou que ao fazer seus filmes, segue seus instintos. “Eu sigo meus instintos, é isso o que eu sempre tento fazer. Por exemplo, o padre tem a bíblia próxima a ele, os advogados têm os princípios das leis. Mas nós diretores, não temos nenhuma bíblia, nós apenas temos nossos instintos. Por exemplo, se algo não vai bem durante o dia, nós voltamos para casa e assistimos filmes dos nossos mestres. Hitchcock, no meu caso…”

O diretor Bong Joon-Ho e o elenco em Cannes

Na conferência do filme Era Uma Vez em Hollywood, a sala de imprensa estava cheia. O diretor Quentin Tarantino, juntamente com seu elenco e produtor David Heyman compuseram a mesa. Uma das perguntas feitas ao diretor americano viralizou pela forma como Tarantino tratou a jornalista. Ela perguntou ao diretor: ‘já que Margot Robbie é uma excelente atriz, por qual motivo ele não deu mais falas à ela no filme?’. De forma curta e grossa, o diretor respondeu: “Rejeito a sua hipótese“.

Margot, inicialmente sem saber como agir, deu continuidade a resposta: “Acho que os momentos em que apareci na tela serviram para homenagear Sharon”. “Eu acho que a tragédia foi a perda da inocência. Para mostrar os maravilhosos lados dela poderiam ser feito sem falar. Eu senti que tinha muito tempo para explorar o personagem sem diálogo, o que é uma coisa interessante. Raramente tenho a oportunidade de passar tanto tempo sozinha como personagem”, concluiu a atriz.

Tarantino ainda foi perguntado se havia conversado com o diretor Roman Polanski, marido de Sharon Tate na época do assassinato, sobre o projeto. Respondendo com um simples: “Não”. O diretor também alegou ser grande fã de seu filme, O Bebê de Rosemary (1968), grande clássico do terror americano.

Quentin Tarantino e Margot Robbie em Cannes

Seleção Oficial

Na noite do dia 22, os filmes Matthias & Maxime, do canadense Xavier Dolan e Roubaix, une lumière (Oh Mercy!), do francês Arnaud Desplechin foram exibidos na Croisette.

Em seu oitavo filme, o diretor juntamente com seus amigos, apresenta a história de dois melhores amigos de infância que são convidados a compartilhar um beijo para os propósitos de um curta-metragem de estudante. Logo, uma dúvida prolongada se estabelece, confrontando os homens com suas preferências, ameaçando a irmandade de seu círculo social e, eventualmente, mudando suas vidas.

Na premiere do filme de Dolan, além do diretor, também estiveram presentes Pier-Luc Funk, Antoine Pilon, Nancy Grant, Catherine Brunet, Gabriel D’Almeida Freitas, Samuel Gauthier e Adib Alkhalidey. Apesar de ter dividido a crítica, o filme foi mais bem recebido do que o oposto. Muitos alegaram que este é o retorno do diretor após o controverso É Apenas o Fim do Mundo, que apesar de ter ganhado o Grand Prix em 2016, desapontou a crítica.

“Bem-vindo de volta, Xavier. É como se você nunca tivesse saído.”, é como o site The Wrap finaliza sua resenha sobre Matthias e Maxime. Durante a crítica, Steve Pond alega que “Matthias & Maxime lida com amizade e auto-descoberta de uma forma que será familiar para os fãs do trabalho anterior de Dolan, mas é, digamos, um trabalho mais maduro; há uma reflexão para acompanhar a energia alegre e transgressora, uma sensação de reverenciar com carinho os momentos chocantes mas seminais que formam a identidade.”

O Adoro Cinema e IndieWire deram 3 estrelas de 5 para o longa. “Matthias et Maxime se constrói como um filme romântico, acreditando em forças do destino, no amor superando adversidades, no afeto vencendo preconceitos. Xavier Dolan, diretor conhecido pela mão pesada e pelos truques de linguagem (trilha sonora em excesso, câmeras lentas, cores saturadas e outros penduricalhos), tenta revelar seu lado minimalista, até porque o tema constitui justamente o não-dito.”. “No entanto, o diretor ainda insiste em tiques que pouco contribuem à condução narrativa, enquanto chamam atenção excessiva a si mesmos. […] Mesmo assim, no excesso quase paródico, Dolan se mostra mais contido que de costume, mais próximo do material humano do que dos sedutores efeitos de pós-produção.” (via Adoro Cinema).

“Há muitos desvios manipulados, e o foco de Dolan continua a vacilar, mesmo que sua sensibilidade emocional seja mais aguda do que nunca, mas seu filme mais recente ainda oferece um corretivo generoso para uma sociedade de homens condicionados a pensar que é mais seguro queimar suas pontes do que dê uma olhada no que pode estar esperando por eles do outro lado”, diz o IndieWire.

Xavier Dolan em “Matthias & Maxime”

Na exibição do francês Roubaix, une lumière (Oh Mercy!), estiveram presente o diretor Arnaud Desplechin e seu elenco composto por Léa Seydoux, Sara Forestier e Antoine Reinartz. No longa, Daoud (Roschdy Zem) é o chefe de polícia da pequena cidade de Roubaix. Ele e seu mais novo assistente, Louis (Antoine Reinartz), recém formado pela academia de polícia, precisam investigar as pistas relacionados ao assassinato brutal de uma idosa. Tudo indica que o crime foi cometido por suas vizinhas, Claude e Marie, duas amantes supostamente alcoólatras e viciadas.

Apesar de ter uma performance promissora da atriz Léa Seydoux, o filme foi considerado por muitos críticos como o pior da competição, podendo inclusive, substituir Frankie no ranking do jury grid.

O site The Guardian e Adoro Cinema deram 2 estrelas para o filme, enquanto Indie Wire o pontuou com um C-. Para o site The Guardian: “A história, no entanto, é forçada, arrogante e artificial, estranhamente, considerando as origens do crime verdadeiro. Seydoux e Forrestier são boas, mas Zem é quase insuportavelmente sábio e decente, e a subtrama de estupro é esclarecida com uma facilidade quase casual. Oh Mercy! pertence a um novo gênero que poderia ser chamado de crime muito bom para ser verdade.”

“O diretor disse que esperava “prestar homenagem à trivialidade de suas palavras” e, bem, missão cumprida. Preso em pequenas discrepâncias entre os relatos dos suspeitos, e alimentado pela insistência dos detetives em intimidá-los com a psicologia pop genérica do horóscopo sobre as supostas motivações de Claude e Marie, essas cenas não avançam tanto quanto elas circulam pelo ralo, o filme se aproxima cada vez mais de uma verdade irrelevante. Forestier e Seydoux estão ambas fantasticamente desesperadas como cidadãs sem saída que se conheceram em um momento muito perigoso em suas vidas, mas Desplechin não faz uso total de seus atores; em vez de permitir que elas dee nuance para seus personagens, ele leva o público a um estado ambíguo de simpatia forçada.” (via Indie Wire).

Léa Seydoux em “Roubaix, une lumière”

Sessões Especiais

No último dia de exibição na mostra Sessões Especiais, foram exibidos no Grand Théâtre Lumière os filmes Ice on Fire, de Leila Conners e The Gangster, the Cop, the Devil, de Lee Won-Tae.

Em Ice on Fire, documentário sobre a degradação do meio ambiente, Conners retoma sua parceria de A Última Hora (2007), com Leonardo DiCaprio, narrador e produtor do filme. Após o verão de 2018, que foi considerado o mais quente da história, tempestades estão mais fortes, secas mais longas e o gelo da Antártica está derretendo mais rápido do que nunca. Em visitas à visionários e cientistas, o documentário explora as possibilidades para não só reduzir o impacto de carbono na atmosfera, mas para reverter o processo de aquecimento global. Além de Leonardo, seu pai, Georde DiCaprio também produz o filme.

De acordo com o Screen Daily, “a mensagem sóbria permanece a mesma, mas o foco desta vez é nos métodos de pesquisa de ponta que podem ser capazes de enfrentar ou mesmo reverter a escalada da crise climática. Há esperança, argumenta o filme, mas, como acentua a voz de DiCaprio, o tempo para ignorar os especialistas acabou, e o momento para a ação é agora.” Entretanto, “É uma série de argumentos estruturados de forma inteligente que repetidamente leva o público à beira do desespero, antes de retroceder com um vislumbre de otimismo. O que o filme não faz é sublinhar as contribuições que o cidadão comum pode fazer. Há uma sensação de impotência que pode advir da confiança total em outro grupo de pessoas para salvar o dia, sejam políticos ou cientistas, o que é contrário ao espírito de ativismo e participação engajados que caracterizam cada vez mais o movimento verde.”

The Gangster, the Cop, the Devil, de Lee Won-Tae foi o segundo longa exibido na mostra. Na premiere do filme, além do diretor, estiveram presente Kim Sung-Kyu, Kim Mu-Yeol, Ma Dong-Seok, dentre outros da equipe. O drama policial coreano acompanha Jang Dong Soo, um chefe de gangue de Cheonan, na Coréia do Sul. Quando ele se torna alvo do temido serial killer Kang Kyung Ho, se tornando a única vítima a sobreviver seu ataque, a polícia se vê obrigada a trabalhar com o crime organizado para capturar essa ameaça à sociedade coreana.

Para o Screen Anarchy , “o que este segundo filme do diretor de Man of Will, Lee Won-tae, carece de sutileza compensa nas emoções simplistas, mas intemporais, de ver homens carismáticos espancando uns aos outros sem sentido.”. “A narrativa estereotipada de Lee é recheada com vários desses trunfos coreanos de suspense, e são esses momentos de leviandade aguçada, bem como um comparativamente esbelto tempo de duração de 100 minutos que permite que The Gangster, the Cop, the Devil se destaque das ofertas de thriller mais genéricas da cena comercial da Coreia.”

“The Gangster, the Cop, the Devil”, de Lee Won-Tae

Um Certo Olhar

No penúltimo dia da seção presidida por Nadine Labaki, foram exibidos os longas Evge (En terre de Crimée), de Nariman Aliev e Summer of Changsha (Liu Yu Tian), de Feng Zu.

No filme ucraniano de Nariman Aliev, uma família tártara da Crimeia deseja levar o corpo de seu filho mais velho, morto recentemente, para ser enterrado lá. Porém, com as tensões crescentes desde a anexação da península pela Rússia, transportar o corpo de Kriev para a Crimeia se prova uma difícil missão.

O site francês Maze, além de fazer uma crítica positiva ao filme, também cita possibilidade da Câmera de Ouro, maior prêmio da seção. “Evge é uma bela promessa, um filme ao mesmo tempo desafiador e revelador de todas as dificuldades recentes sobre conflitos armados que ocorreram durante a anexação da Criméia pela Rússia em 2014, e no caso de tártaros da Crimeia, cujo integridade é desrespeitada pela Rússia. Na apreensão este assunto específico, o diretor exalta a relação pai-filho entre Atim e seu pai Mustafa. Uma relação que é ao mesmo tempo sensível e simples, revelando a fragilidade que ambos enfrentam uma tragédia que eles perturbar tanto, mas cada face à sua própria maneira.”

“Evge”

Summer of Changsha de Feng Zu, apresenta A Bin, um ex-detetive da polícia. Ele se deparou com LI Xue, uma cirurgiã, durante a investigação de um caso bizarro de assassinato. Ao conhecerem mais e mais um ao outro, A Bin se vê atraído por essa misteriosa mulher.

O filme havia tido sua exibição cancelada no festival devido a ‘problemas técnicos’. Entretanto, no dia 22 de maio ele foi exibido, sem a presença do diretor ou elenco. De acordo a Variety, todo o ocorrido teria como responsável a censura chinesa. Ainda de acordo ao site, o filme foi exibido na Croisette na quarta e quinta-feira, entretanto sem “selo do dragão”, que representa a autorização pelas autoridades chinesas. Filmes sem o selo não podem ser lançados nos cinemas da China, e desde que as restrições se intensificaram, também não pode ser exibido em festivais no exterior. Títulos com destino a festivais agora também precisam de uma permissão de viagem adicional que, uma vez emitida, significa que a duração e o diálogo do filme não podem ser alterados e que nenhum novo investidor pode entrar na distribuição.

De acordo ao site Télérama, que apresenta informações segundo uma fonte anônima próxima da equipe, o elenco tomou a decisão de cancelar sua viagem para o festival “para evitar problemas com as autoridades chinesas”. O site ainda sugere que, a partir da mensagem, as aspas indicariam que a equipe estaria sendo pressionada. O produtor do filme, que já estava em voo quando esta decisão foi tomada, está presente em Cannes, mas não subiu ao palco no teatro Debussy, pelas mesmas razões, garantiu a fonte anônima.

“Summer of Changsha”

Summer of Changsha é a estréia do ator Feng Zu na direção, para além disso, ele também interpreta o protagonista A Bin. De acordo a Screen Daily, o filme é um tanto quanto decepcionante, principalmente no segundo ato da trama. “Como estrela do filme, Zu Feng registra-se como uma presença monotonamente lúgubre, enquanto, como diretor, se mostra incapaz de seguir o drama do crime com qualquer senso real de urgência. Evidentemente, nos dizem que o drama está se desenrolando em um verão quente, mas além da imagem estranha que mostra A Bin com uma sobrancelha suada, o filme nunca evoca atmosferas convincentemente balsâmicas, e uma explosão de ação, uma perseguição e seqüência de luta, é desanimadamente inerte.”

O Festival de Cannes vai até o dia 25 de maio. Confira aqui o que ocorreu nos outros dias.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.