Artigo | Daenerys Targaryen: de quebradora de correntes à Rainha Louca da noite para o dia

No início de Game Of Thrones, conhecemos uma Daenerys Taragryen (Emilia Clarke) frágil e amedrontada. Apagada pela sombra do irmão e prometida em casamento a um homem que nunca vira, teve seu corpo roubado de si. Voltando no tempo até este ponto, é impressionante perceber a evolução da personagem. Sua construção a proporcionou admiradores, não somente dentro mas fora da série, ao que foi completamente ignorado na oitava temporada. É como se seu desenvolvimento fosse um gráfico crescente e, do nada, decrescente.

Assistimos ao seu casamento e uma noite de núpcias traumática e humilhante para ela. Vemos também quando assume seu lugar como Khaleesi e começa a encontrar sua força. Vibramos quando enfrenta seu irmão e o vence. Testemunhamos sua gravidez e a perda de seu filho. Em compensação, ela dá à luz a três dargões e se torna A não queimada, Mãe dos Dragões.

Quando vai à Quart e Astapor, conquista e lealdade dos Imaculados e liberta os escravos de Yunkai. Torna-se a Quebradora de correntes e inicia sua missão de “quebrar a roda”. Daenerys vai até Meereen e conquista a cidade com auxílio dos escravos que se rebelaram contra seus donos. É também em Meereen que ela conhece Tyrion Lannister e faz dele seu conselheiro.

Comprometida em ajudar Jon Snow a salvar o mundo do Rei da Noite, perde seu filho Viserion. Chega em Winterfell e encontra algo diferente do que conheceu em outros lugares. Ela sempre foi amada em Essos, mas ali era temida e não querida.

Daenerys e Drogon em Meereen na quinta temporada de “Game of Thrones”

Daenerys queria o trono de ferro sim, mas a série sempre deixou claro que ela o queria para que pudesse libertar o povo. Para que não houvesse mais opressão ou repressão. Se assassinou homens maus por onde passou, foi pelo bem maior. Esta foi a idealização da futura rainha. A obra da HBO a estruturou assim. Ela foi feita para que gostássemos dela, torcêssemos por ela. Ainda mais por ser uma mulher que conquistou e lutou tanto em universo que só respeitava as leis dos homens.

Em uma jogada apressada, decidiu-se que a oitava temporada seria a última e que apenas seis episódios a constituiriam. Suficiente? Pelo contrário, decepção. Foi triste ver em tela todo o desenvolvimento de uma série de sete temporadas sendo desprezado em diversas situações e personagens. Jaime, Cersei e, principalmente, Daenerys não tiveram um final justo. Tudo foi meio estranho e suspeito, não condizente com o que conhecíamos.

Do nada, há a sugestão da loucura de Dany. Precisa-se de personagens cogitando e afirmando isso. Se não o houvesse, não entenderíamos. Porque as imagens jamais o falaram. Diálogos forçados indicados que ela se tornaria a vilã da noite para o dia. De Mãe dos escravos à Rainha Louca que queimou uma cidade inteira de inocentes. Queriam esse final? Que dessem sinais dele durante toda a série, não somente no final. O fim não justificou os meios.

Do nada, sentimo-nos traídos pela série que tanto amamos e idolatramos. E se sua imprevisível insanidade foi injusta, mais ainda foi sua morte. Assassinada nos braços de seu “amor”. A aniquilação de uma personagem incrível e de todo o seu desenvolvimento. Quando Robert Baratheon autorizou a morte de uma criança (o filho do açougueiro na primeira temporada), por ter entrado em uma brincadeira com Joffrey, ninguém o acusou de louco. Quando o próprio Joffrey realizou atos horrendos, não foi louco. Quando Stannis Baratheon matou sua própria filha, ninguém o ditou louco. Quantos homens realizaram ações terríveis, mas quando a mulher o faz, aí sim é louca. Ciumenta, desiquilibrada, histéria. Louca. Louca. Louca.

Daenerys em “The Bells”: o ponto de virada da personagem no penúltimo episódio da série

Não vai ser fácil de digerir, HBO. Não somente o que fizeram à Daenerys, mas toda a indiferença e falta de cuidado que fizeram a última temporada de uma das séries mais aclamadas no mundo. Que pena.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"