Crítica | Game of Thrones 8×06: ‘The Iron Throne’ impõe ao público um desfecho agridoce e melancólico

Uma das séries de maior impacto cultural da década chegou ao fim. O último e derradeiro episódio de Game of Thrones se encarregou de fechar ciclos de dar desfechos aos personagens. Se por um lado não tivemos o desenvolvimento adequado, sobretudo na construção da loucura de Daenerys, o final acaba sendo o mais plausível dentro de que fora proposto durante a apressada oitava temporada.

Intitulado “The Iron Throne”, ou, o trono de ferro, o episódio tem todas as características dos desfechos de temporada que a série habituou seus fãs a acompanhar. No rescaldo do massacre de Porto Real, coube ao último capítulo definir quem iria comandar os sete (agora seis) reinos, além de dar um desfecho dos personagens principais.

Dirigido e escrito pelos criadores de showrunners David Benioff e D.B. Weiss, “The Iron Throne” começa no mesmo ponto em que “The Bells” termina. Entre corpos carbonizados, cinzas e neve, Tyrion, Jon Snow e Davos presenciam o rescaldo do horror promovido pela loucura de Daenerys. A impressão é a pior possível e essa é a clara intenção dos diretores, que na primeira imagem de Daenerys, colocam em justaposição Drogon e a rainha louca, como se ambos agora fossem um só: os Targaryen retomaram o trono. Ou, quase isso.

No entanto, um dos males que essa temporada trouxe foi a artificialidade de certas situações para que este final pudesse ser contado. Personagens não devem ser o meio para que os fins possam ser atingidos; mais do que tudo, suas jornadas precisam fazer sentido por si só.

Jon Snow, ao encontrar Verme Cinzento, o questiona sobre a execução de um resquício de exército Lanniter. Todo e qualquer inimigo da rainha deveria ser executado nas palavras do Verme, que em seguida não titubeia e degola pessoalmente um a um. Mais tarde, Jon apunhala o coração da rainha louca, e não é executado, sendo contraditoriamente preso por algumas semanas, assim como Tyrion; é nesse tipo de fragilidade que o roteiro acaba não sustentando suas reviravoltas e acontecimentos derradeiros.

Quando Tyrion convence Jon a matar Daenerys, por exemplo, o anão enumera uma série de atitudes da Targaryen, que justificariam sua tirania: Yunkai, Astapor, Meereen…em todos esses lugares haviam pessoas más. Mas, que define quem é mau? É nesse tipo de diálogo que os roteiristas pretendem justificar suas escolhas? Ou seja, o público assistiu errado?

Note, se há alguém que ainda acha que qualquer personagem em Game of Thrones é preto ou branco, está errado. Isto posto, até mesmo os mais devotos fiéis de Daenerys não hão de duvidar. No entanto, ao tratar a jornada na personagem com absoluto maniqueísmo até a 7ª temporada, os escritores querem, agora, justificar com uma pretensa falta de percepção um desenvolvimento apressado da loucura desta rainha ensandecida?

E não para por ai. Para cada metáfora interessante, como o trono de ferro sendo queimado como símbolo maior de ganância e poder que destruiu Daenerys (sim, faz sentido por mais que seja estranho ver um dragão ser o personagem mais sensato), há uma solução capenga, como o injustificável conselho formado no Fosso dos Dragões; para cada decisão coerente e que seria uma tendência, como a nomeação de Sansa como protetora do Norte, ou a jornada de Arya Stark como desbravadora do Oeste, há uma incoerente calmaria e limpeza na capital, mesmo local reduzido a cinzas há apenas algumas semanas atrás, supõe-se.

E tem mais: Como forma de salvar a si mesmo, mesmo não querendo ser rei, Jon Snow não poderia ter sido usado sua prerrogativa de herdeiro legítimo, já que sua vida estava em risco? Ou todos os caminhos percorridos teriam que tornar, obrigatoriamente, mesmo sem fazer todo o sentido, Bran Stark o protetor dos seis reinos?

O problema em Game of Thrones, sobretudo neste episódio seis, é como os desfechos podem se tornar satisfatórios. Não é o ponto B, e sim a forma como o ponto A chega até ele. Não é enviar Jon Snow até a Muralha, em uma decisão poética e melancólica, que o torna um lobo solitário tal qual o vimos no início de tudo; encerrar a série da mesma forma como ela termina é poético, e bonito. Mas, se houvesse sentido para que ele fosse para lá, seria ainda mais bonito.

Aquele pequeno conselho formado por Davos, Brienne, Bronn, Sam e Tyrion, no fim do episódio, mostra que política, bordéis e verbas, colocadas no centro da discussão, iniciam o retorno da rotina ordinária e comum, e evidencia que o ciclo novamente se inicia, sem dragões, mortos que caminham no gelo e magia. E que inevitavelmente, tudo isso pode voltar a acontecer um dia. Da mesma forma como conhecemos a série em seu início.

No entanto, Game of Thrones merecia mais. Ainda que, a entrega dos atores tenha sido acima da média e Peter Dinklage merece e vai ganhar um Emmy (anote isso), faltou um pouco mais para que o conjunto da obra marcasse o todo, e não apenas o final.

Com relação ao desfecho, a série vai transitar por uma espécie de espaço entre Dexter e Lost – a primeira foi indefensável, a segunda, interpretável do ponto de vista criativo e menor que suas expectativas; o final da adaptação das Crônicas de Gelo e Fogo foi um pouco dos dois, e nada, ao mesmo tempo.

GAME OF THRONES 8X06 - THE IRON THRONE
2.5

RRESUMO:

Ainda que com grandes atuações e uma produção impecável ,final de Game of Thrones é um resumo da oitava temporada, com soluções mal desenvolvidas para promover um final a qualquer custo.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...