Festival de Cannes | Dia 4: Série da Amazon ‘Too Old To Die Young é exibida’, ‘Little Joe’ decepciona e ‘Dor e Glória’ encanta críticos

No 4ª dia do Festival de Cannes aconteceram as conferências de imprensa com os longas da competição oficial exibidos no dia anterior, Atlantique da franco-senegalesa Mati Diop e Sorry We Missed You do britânico veterano de Cannes, Ken Loach.

Na conferência de Atlantique, a diretora Mati Diop esteve presente com o seu elenco e produtores do filme. Durante 40 minutos, foram perguntados acerca de como foi a co-produção entre França, Bélgica e Senegal, e como foi para o elenco fazer parte desse filme. Nos minutos finais, a viúva do crítico Roger Ebert, e atual CEO das empresas Ebert, Chaz Ebert, alegou sua felicidade em ver a cineasta como a primeira diretora negra, africana a ter um filme na Seleção Oficial de Cannes e perguntou se a mesma sentia alguma pressão em estar neste momento histórico.

“Eu tenho certeza que o sentimento vai evoluir porque muita coisa está acontecendo ao mesmo tempo. Primeiro a seleção, depois a descoberta que eu seria a primeira diretora negra aqui, o que é bem chocante. Meu primeiro sentimento, para ser honesta, foi um pouco de tristeza. Isso só acontece hoje em 2019, bem tarde, e é incrível que ainda seja um avanço hoje, para nós mulheres negras. Não conheço uma mulher negra que veio aqui antes, então é um bem chocante, mas um lembrete de que muito trabalho ainda precisa ser feito”, respondeu Diop.

Apesar de entender a grandiosidade do momento, Diop alerta a necessidade de manter o foco sobre o filme:

“Eu acho que a coisa mais importante é referenciar aos filmes, o que a história contou, mais do que a pessoa que fez isso. Porque, como mulher negra, eu realmente sentia falta de figuras negras e personagens negros. E também foi por este motivo que eu fiz esse filme, eu precisava que isso estivesse aqui. Pessoas negras na tela, tipo grande, em todos os lugares. E isso foi super importante para mim. Quando vi o filme de Jordan Peele, algo realmente diferente aconteceu dentro de mim, e é importante compartilhar porque também é algo novo. Quando eu vou ver o filme de Jordan Peele, não consigo nem acreditar no que estou sentindo, eu fico tão animada. Olho ao redor e penso “quantas pessoas negras estão na sala” e quase os conto. Nós estamos aqui, nós ainda estamos aqui. E espero que o número aumente mais, e mais, e que se torne comum termos pessoas negras, como nós, na frente, como personagens”.

Mati Diop em Cannes

Na coletiva de Sorry We Missed You, Chaz Ebert fez uma pergunta emocionante ao cineasta Ken Loach. A jornalista declarou que seu marido, um dos mais famosos críticos americanos, era um grande fã do trabalho de Ken, além disso, disse bastante emocionada, que os filmes de Loach apresentam um enorme detalhamento da vida real de um trabalhador, e perguntou ao diretor como foi escolhido o limiar da família como sendo o centro deste filme. Loach retribuiu o carinho, alegando ser um grande fã de Ebert, e respondeu:

“Quando eu era jovem, me disseram que se você tivesse uma habilidade, você encontraria um emprego para a vida toda e você poderia criar uma família com seu salário”. “Houve uma mudança inexorável da segurança para a insegurança em que as pessoas podem ser contratadas e demitidas de um dia para o outro, onde o empregador não se compromete com quanto de salário você vai receber, e o trabalhador assume todo o risco. Isso não é o capitalismo falhando, é o capitalismo funcionando como sempre.”


Ken Loach em Cannes

Seleção Oficial

Na sexta-feira foi dia da premiere dos filmes Little Joe, primeiro filme falado em inglês da austríaca Jessica Haunser e Dor e Glória, do espanhol Pedro Almodóvar.

A diretora de Amour fou (2014), volta com uma ficção ciêntifica no qual uma planta geneticamente modificada espalha suas sementes e parece causar mudanças surpreendentes em criaturas vivas. Os aflitos parecem estranhos, como se fossem substituídos – especialmente para aqueles que estão próximos a eles, começando assim uma brincadeira entre várias verdades, em cujo fim está a perda da própria identidade. Na premiere estiveram presente Jessica Hausner, Kerry Fox, Emily Beecham, Kit Connor (que também está no filme Rocketman) e Phenix Brossard.

No geral, o filme não foi bem recebido pela crítica. O The Guardian deu nota 2 de 5, e Peter Bradshaw alega que o filme tem uma premissa interessante, mas que caminha por uma tentativa não muito convincente ou inteligente: “Mas nada disso é representado em qualquer estilo dramático convincente, e os atores – todos muito talentosos e seguros – talvez não tenham tido uma direção suficientemente clara. É um pedaço de humor. Cujo humor não leva a lugar nenhum.”

David Ehrlich do Indie Wire deu nota C+. O jornalista compara Hausner com Stanley Kubrick: “Hausner é um dos poucos cineastas contemporâneos que merece ser visto como herdeiro de Kubrick, e seu controle sobre suas composições é tão dominante quanto antes. Está sempre em movimento, flutuando lateralmente ou rastejando para revelar toda a ameaça cotidiana que escapa a olho nu.”. Entretanto, afirma que o filme além de ter uma premissa um tanto perigosa, também pode ofender, ao tentar fazer uma apologia entre antidepressivos e alienígenas. “Talvez haja um poder em abordar esse assunto de uma maneira desconfortável, que não tenha medo de agredir determinados públicos da maneira que a arte deveria, mesmo que isso não mude de ideia.”

Já a Variety destaca a forma como o filme critica a industria farmacêutica como sendo um ponto chave positivo para o filme: “Como você reage a Little Joe pode muito bem depender de suas próprias crenças sobre antidepressivos – se você acha que eles são uma força do bem, uma conspiração lucrativa da Big Pharma (com o establishment psiquiátrico como seu profissional de marketing / facilitadores), ou algo entre. Mas dada a pouca crítica direta de nossa cultura de drogas psicotrópicas que você pode encontrar na mídia, pode ser que um filme de terror – embora um filme de arte assustadoramente delicado e discreto – seja a maneira ideal de apresentar o argumento de que nós estamos nos tornando uma sociedade de pessoas muito artificialmente viciada em bem-estar, independentemente do custo, para ver qualquer coisa fora dele.”

Cena de “Little Joe”

O drama espanhol de Pedro Almodóvar, Dor e Gloria, foi anunciado como sendo o filme mais pessoal de sua carreira. Na premiere do filme no festival, quem assistiu na sessão de gala, alegou que o filme é um dos melhores do diretor em anos (leia a matéria especial sobre o filme). Almodóvar já concorreu à Palma de Ouro outras 5 vezes com: Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Volver (2006), A Pele que Habito (2011) e Julieta (2016), entretanto, nunca ganhou.


Sessões Especiais

Em outra importante mostra paralela do Festival de Cannes foram exibidos o documentário The Cordillera of Dreams do chileno Patricio Guzman, e a série Too Old to Die Young do diretor de Drive (2011) e Demônio de Neon (2016), Nicolas Winding Refn.

Em The Cordillera of Dreams, Guzman registra a beleza misteriosa dos Andes e sua presença na vida e na alma dos chilenos. Finalizando assim a sua trilogia após explorar o norte de seu país em Nostalgia da Luz (2010) e o sul em O Botão de Pérola (2015).

Para o The Hollywood Reporter o filme deixa a desejar com relação a suas duas outras obras anteriores. “Enquanto seus dois filmes anteriores se concentravam no deserto de Atacama e nos vastos cursos de água ao longo da costa do Pacífico, aqui ele tem um símbolo mais monolítico para enfrentar. Fez mais fôlego com a grandeza do placar de Miranda y Tobar, as montanhas da Cordilheira dos Andes pairam silenciosamente acima de suas cabeças. Um homem escalando uma rocha cheia é um bug na tela. As minas de cobre de propriedade privada estão escondidas, nem há vestígios da civilização inca como no Peru. Eles não são, francamente, um grande símbolo, embora em determinado momento Guzman os chame de “testemunhas” da sangrenta história do Chile. Ele poderia muito bem tê-los chamado de espectadores indiferentes.”

“The Cordillera of Dreams”

Já a série de Refn, tem 13 episódios mas apenas 2 foram exibidos no festival: os episódios 3 chamado de “North of Hollywood”, e o 4 “Oeste do Inferno”. Ambos foram escolhidos pois ofereceram detalhes suficientes para funcionarem sozinhos, sendo exibidos como um filme.

De acordo Eric Kohn do IndieWire que conferiu os dois episódios, Refn talvez tenha encontrado uma forma de estender suas histórias, o que era impossibilitado, ou demandava um maior planejamento nos filmes:

“Refn pode estar disparando em todos os cilindros, mas não está claro se ele encontrou uma maneira de harmonizá-los. Treze horas é muita história para qualquer diretor fazer malabarismo (a trilogia Pusher de Refn chegou em pouco mais de cinco horas e foi feita ao longo de uma década). A questão é que, mesmo que ele encontre uma nova mídia disposta a abrigar sua história mais ambiciosa, Too Old to Die Young precisará de muitas outras parcelas emocionantes para fazer funcionar. A tendência do diretor de encenar o diálogo com longas… pausas… e… profundos… olhares expandem muitas cenas para comprimentos desnecessários. Na melhor das hipóteses, o dispositivo significa que o profundo pavor pode se acumular ao longo de uma interação enigmática, mas pode, com a mesma frequência, estragar os intervalos sem um bom motivo.”

 

“Too Old to Die Young” será exibida pela Amazon

Um Certo Olhar

Na mostra Un Certain Regard foram exibidos os filmes The Climb, de Michael Angelo Covino e Papicha, de Monia Meddour.

The Climb, também estrelado por Covino, conta a história de Mike (Michael Angelo Covino) e Kyle (Kyle Marvin). Ambos são melhores amigos que há anos têm suas vidas profundamente conectadas. Quando Mike dorme com a noiva de Kyle, eles são obrigados a olhar para os muitos anos de risadas, dor e aventura que dividiram e se questionar sobre os limites de amizades muito próximas.

O filme foi muito recebido em Cannes e visto como uma das melhores comédias que passaram por lá, visto que o festival não costuma receber esse tipo de gênero.

OThe Wrap afirma que a presença do filme no festival pode fazer Cannes refletir acerca da comédia. “Dentro desse primeiro capítulo estão quase todos os elementos que tornam The Climb uma joia inesperada. Alguns deles têm sido bastante comuns em filmes recentes e na televisão, como a comédia que emana de uma dinâmica dolorosamente real e a disputa de dois artistas por constrangimento. Isso não diminui o que Covino traz como ator; Eu só quero dizer que o estilo tem sido o pão com manteiga da comédia americana na última década ou mais. O que a comédia americana não viu, por outro lado, é tudo o que Covino traz como diretor. E isso é muito ruim. Ele mostra um controle formal verdadeiramente impressionante, incorporando um trabalho de câmera sofisticado e edições fortemente precisas, enquanto permite tempo, espaço e ritmo – em suma, as fundações do cinema – como participantes iguais na comédia.”

O IndieWire, que deu nota A- para o filme, destaca que “a verdadeira magia de The Climb vem do formalismo astuto sob o qual se desdobra. Os recentes psicodramas norte-americanos de baixo orçamento, como Krisha e Thunder Road, extraíram material semelhante, mas Covino os canaliza para uma maior variedade de tradições narrativas. O trabalho de câmera itinerante e a narrativa elíptica têm mais em comum com as técnicas de arte caseira europeias, às vezes chamando a atenção para o sueco Ruben Ostlund e o austríaco Ulrich Seidl. Enquanto Covino apimenta a história fragmentada com incertezas sobre se Mike e Kyle poderiam curar suas várias fissuras, cada nova entrada em seu relacionamento se eleva à piada de uma triste piada existencial.”

Cena de “The Climb”

Outro filme exibido na mostra foi Papicha, de Monnia Meddour. O longa se passa em 1997 e conta a história de uma Argélia controlada por grupos terroristas com intenções de transformar o país em um arcaico Estado Islâmico. Nedjma (Lyna Khoudri), uma estudante universitária apaixonada pelo mundo da moda, deseja lutar contra a opressão que o governo exerce sobre mulheres tentando controlar seus corpos e presença em espaços públicos. Determinada em unir as mulheres de seu campus, ela organiza um desfile em protesto, que desafia as regras impostas pela sociedade argelina.

O Adoro Cinema deu 4/5 para o filme, destacando a forma de resistência do lado de dentro das instituições, e não de fora. “Papicha constrói uma metáfora simples e funcional sobre esta peça do vestuário para demonstrar a dinâmica social. Em paralelo, esta obra de uma diretora estreante surpreende pela maturidade da direção. Meddour emprega um estilo arriscado: a câmera na mão, muito próxima dos rostos, tremendo de uma personagem à outra. Esta forma de imersão e urgência pode recair facilmente no fetichismo da marginalidade, porém neste caso demonstra um notável cuidado na composição.”

O The Hollywood Reporter destaca Meddour como roteirista e alguns momentos de sua direção. “Meddour está no seu melhor quando simplesmente captura as meninas enquanto elas tentam viver suas vidas em um momento de profunda e às vezes violenta transformação. A camaradagem feminina sente-se bem observada e autêntica e as atrizes têm um relacionamento encantador. Mas suas reações a alguns desenvolvimentos chocantes, incluindo um primeiro de cerca de 35 minutos e um dos principais no último ato, não são tratados de forma convincente ou estão quase ausentes. De fato, como roteirista, Meddour parece mais interessado nesses acontecimentos chocantes como eventos históricos e sintomas abstratos de uma sociedade doentia do que como eventos traumáticos específicos que, em suas consequências, deixam uma marca indelével em um ou mais indivíduos.”

Cena de “Papicha”

O Festival de Cannes ocorre entre os dias 14 a 25 de maio. Confira aqui a programação completa.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.