Crítica | Apesar da superficialidade, ‘A Gente Se Vê Ontem’ acerta ao abordar brutalidade policial

Brutalidade policial tem sido cada vez mais discutido por obras cinematográficas; e felizmente teremos cada vez um número maior para denunciar esse problema que nunca parece ter uma solução. Misturando viagem no tempo e brutalidade policial ao mesmo tempo, original da Netflix com produção de Spike Lee, A Gente Se Vê Ontem possui uma proposta muito mais atraente do que sua execução jamais convém a ser.

Cj Walker (Eden Duncan-Smith) e Sebastian Thomas (Dante Crichlow), melhores amigos e os alunos mais inteligentes da escola trabalham no desenvolvimento do projeto que provavelmente os acarretará uma bolsa de estudos na faculdade: uma maneira de viajar no tempo. Fator principal enquanto se realiza tal viagem, no entanto, é que nenhuma ação pode ser alterada, já que tais mudanças podem influenciar em diferentes espaço-tempos.

É nessa regra que A Gente Se Vê Ontem se apoia para tornar vívido seu enredo. Após a primeira tentativa bem-sucedida dos dois amigos, uma ação de CJ considerada boba acarreta a morte de seu irmão mais velho, ao ser baleado por um policial; o estopim que levará a protagonista a realizar diversas tentativas de salvá-lo, sem interferir na morte de outras pessoas próximas a ela.

Na primeira vez na direção de um longa, Stefon Bristol experimenta ângulos e movimentos de câmera que nem sempre fluem com naturalidade, e ainda combinadas com o excesso de slow motion em uma tentativa de criar dramaticidade, comoção ou até mesmo usado sem necessidade carregam um peso cansativo ao longa mesmo com 80 minutos de duração.

Por mais bem-intencionado e necessário que o tema abordado por Bristol seja (também co-roteirista) em mostrar como a brutalidade contra pessoas negras é incontrolável ainda que se tente evitá-la de todos os jeitos possíveis, esse é o único ponto que o filme deseja provar ao espectador. Sua curta duração desempenha-se em mostrar isso por toda sua extensão ao invés de simplesmente sintetizar a história e conceder um desenvolvimento e maior profundidade ao tema.

Esses problemas, contudo, não classificam o filme como necessariamente ruim, mas ele acaba por adquirir um tom demasiadamente infantil. A gente se vê ontem possui um tema forte, mas após a primeira tragédia acontecer (e mesmo que ela possua o peso que deveria), o filme continua com o mesmo teor de mundo da fantasia enquanto era preciso assumir uma maior seriedade.

Sendo assim, o filme alterna entre cenas altamente significativas (como cenas televisionadas do Black Lives Matter) com cenas de piadas sem graça que apenas reforçam a ideia de que o filme não sabe o que está tentando fazer, além de disfarçar sua falta de profundidade; o assunto principal acaba perdendo sua força.

Ao final das contas, A Gente Se Vê Ontem ontem não pode ser considerado dispensável, já que é sempre interessante analisar em como um problema tão sério adquire diferentes formas narrativas; apesar de sua execução medíocre.

A GENTE SE VÊ ONTEM | SEE YOU YESTERDAY
2.5

RESUMO:

Apesar da superficialidade e do tom infantil que o filme adquire, A Gente Se Vê Ontem não deixa de abordar um assunto importante que não o torna dispensável.

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível ver todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é uma forma de viajar e conhecer outras realidades sem sair do lugar.