Festival de Cannes | Dia 3: pela primeira vez uma diretora negra, Mati Diop, compete pela Palma de Ouro

Quinta-feira, terceiro dia do Festival de Cannes, na França. O dia teve início com as conferências de imprensa dos filmes que concorrem pela Palma de Ouro, o francês Les Miserábles, de Ladj Ly e o brasileiro Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Les Miserábles – com nome inspirado no clássico de Victor Hugo – é baseado em um curta do próprio Ly de 2017. O longa se passa nos subúrbios parisienses e apresentam três policiais que tentam ocultar seus rastros depois que a prisão de um adolescente sai de controle. Na conferência os jornalistas indagaram o diretor acerca de como foi o processo do filme, assim como trabalhar com atores jovens e ter o elenco predominantemente masculino.

Dentre suas falas, se destacou a postura política de Ly que convidou o presidente da França a assistir ao seu filme: “Hoje, com os coletes amarelos, você sente que as pessoas estão descobrindo agora a violência policial. Temos sido os coletes amarelos por mais de 20 anos. Temos sido atingidos por balas de borracha na cara por mais de 20 anos. Gostaríamos que o senhor Macron assistisse a este filme”, finalizou o diretor.

Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho e o elenco de “Bacurau”

Na coletiva do brasileiro Bacurau, estiveram presentes os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, a produtora Emilie Lesclaux e elenco. Durante a conferência, houveram diversas perguntas com relação a situação política brasileira, incluindo uma acerca da resistência nacional daqueles que são contra o governo atual. Resistência essa que foi comparada ao filme.

Kleber Mendonça Filho disse: “Em uma democracia os cidadãos não devem perder de vista os princípios, embora governem outros. A educação é fundamental nesse aspecto. Eu acho que isso que resistência significa, em contato com um estranho sistema de governo que você não concorde. Não podemos aceitar como normal um corte de 30% no orçamento do ensino superior”.

A premiere de Bacurau em Cannes coincidiu com os protestos no Brasil sobre o corte de 30% no investimento na educação do país. O co-diretor Juliano Dornelles afirma que foi uma estranha mas boa coincidência: “A gente tá fazendo a nossa parte para não deixar que destruam o que foi conquistado no país. Então, cada um a sua maneira está trabalhando para que essa destruição pare.”


Seleção Oficial

Dentre os filmes que concorrem pela Palma de Ouro, foram exibidos Atlantique, de Mati Diop e Sorry We Missed You, de Ken Loach.

Atlantique foi exibido na tarde de quinta-feira e se tornou o primeiro longa de uma diretora negra a concorrer pelo maior prêmio do festival. A diretora franco-senegalesa Mati Diop esteve no tapete vermelho juntamente com Mame Bineta Same e elenco. Além da equipe do filme, estiveram presentes também Abdoulaye Diop, Ministro da Cultura do Senegal, as delegações senegalesa e marfinense.

Atlantique, assim como Les Miserábles, também é baseado em um antigo curta da diretora, Atlantique de 2009. No longa, trabalhadores do subúrbio de Dakar, no Senegal, que estavam construindo um prédio futurista, fogem após não receber nenhum pagamento. Um desses trabalhadores, chamado Suleiman, decide escapar do país pelo mar. Ele é apaixonado por Ada, entretanto ela está sendo forçada a se casar com um homem que não ama.

As reações ao filme foram mistas. O site The Guardian deu 4 estrelas de 5, alegando que o filme faz uma belíssima união entre a história de refugiados a partir de um tom sobrenatural:

Atlantique é um drama voodoo-realista, ou mistério docu-sobrenatural, cuja dimensão de estranheza é autoconscientemente integrada à ostensiva normalidade do filme. Mas isso não prejudica as coisas pertinentes que tem a dizer sobre o mundo em desenvolvimento contemporâneo. É um conto de inverno de um filme.”. “Atlantique pode não ser perfeito, mas eu admiro a maneira como Diop não se submeteu ao modo realista esperado desse tipo de material, e também não entrou em um modo realista-realista clichê, nem tornou a história romântica a como o centro óbvio do do filme. Seu filme tem um mistério sedutor.”

A BBC Culture também deu nota 4 para o longa, afirmando que Atlantique apresenta um romance assustador, drama político e sonhos surrealistas, tudo em um só. “Tão lindamente filmado como o filme é – e tão deslumbrante quanto seus amantes são -, Atlantique parece ser um relato direto dos africanos da classe trabalhadora sendo expulsos de casa por dificuldades econômicas…Em suma, Diop está dando dicas de que o Atlantique poderia abranger tanto o social-realista quanto o surrealista. Mas não é menos arrepiante quando o sol inchado se põe sobre o mar todas as noites, e algo estranho continua acontecendo. Sonhador, mas sensual, fantástico, mas enraizado em fatos desconfortáveis, o cativante filme de Diop pode até ter reinventado um gênero. Quanto ao gênero que é, assista o Atlantique e descubra.”

Já para o Cinema em Cena, a mescla de gêneros apresentados por Atlantique não funciona. Para o crítico Pablo Villaça, tudo não passa de uma tentativa que falhou. O que por sua vez, o lembrou de Bacurau, que ao seu ver, teve sucesso onde Atlantique não conseguiu:

“Salpicando a montagem com planos que enfocam de forma desinteressante e óbvia o oceano e encerrando a projeção com um monólogo cafona, esta é uma obra que, por contraste, comprova como o equilíbrio entre tons e gêneros alcançado pelo brasileiro Bacurau é uma proeza difícil e, por esta razão, digna de aplausos.”

Mati Diop e os protagonistas de Atlantique

Durante a noite foi vez do novo filme do britânico Ken Loach, vencedor da Palma de Ouro de 2016 com I, Daniel Blake. O diretor esteve no tapete vermelho com Debbie Honeywood, Paul Laverty, Katie Proctor e Rebecca O’Brien. Em Sorry We Missed You, Ricky e Abby, pais de dois filhos e que, apesar de trabalharem incansavelmente, não conseguem uma vida melhor. Cansado de rodar de emprego em emprego, Ricky decide comprar uma van para trabalhar como transportador por conta própria, embora ligado a uma agência. Um novo trabalho baseado em um “contrato zero horas” que terá repercussões desastrosas em sua família.

Nas primeiras críticas do filme, é possível ver que o diretor volta a abordar o assunto com qual já tem familiaridade, a vida do proletariado e suas implicações na sociedade.

De acordo ao The Hollywood Reporter o filme emociona principalmente através de seu tom pessoal e da forma como retrata a relação do núcleo principal. “Este é um filme habilmente julgado e profundamente humano, feito sem frescuras ou barulho, mas surpreendentemente direto em sua representação emocional das coisas difíceis que são a fibra de tantas vidas comuns, particularmente na era atual de ampliação da desigualdade de renda. Você teria que ser feito de pedra para não ter seu âmago mexido por isto.”

A Variety destaca o ponto central dos filmes do diretor britânico: “Loach encena tudo isso com suprema confiança e fluxo. Ele se tornou, à sua maneira, flexível e certeiro como dramaturgo quanto Mike Leigh. No entanto, é a sua visão geral das forças econômicas precárias que estão mantendo o nosso mundo unido – e, cada vez mais, rompendo-o – que fazem com que Sorry We Missed You seja um filme carregado, tocante e estimulante. Assistimos à saudade de uma catarse e Loach oferece uma: é a conversa dolorosa de Abby, por telefone, com o chefe de Ricky, em que ela critica a empresa pela indiferença obscena de suas políticas. No entanto, Loach é um cineasta muito bom para envolver tudo em um arco de bem-estar. A mensagem de Sorry We Missed You é: A vida continua, e o trabalho também. E assim, espera-se, a era do renascimento de Ken Loach.”

Para o Screen Daily, “a paixão política e a compaixão humana queimam brilhantemente em Sorry We Missed You, um espetáculo irado da economia de hoje, bem como um drama comovente sobre uma família amorosa à beira da implosão, que é facilmente um dos melhores filmes de Loach. É uma homenagem brilhante à longa relação de trabalho do diretor com o roteirista Paul Laverty e um exemplo magistral de como estimular a empatia por meio de um elenco de atores não profissionais.”

‘Sorry We Missed You’

Sessões Especiais

Na mostra paralela do festival, Sessões Especiais, foi dia de Rocketman, de Dexter Fletcher; Living And Knowing You Are Alive, de Alain Cavalier e 5B de Dan Krauss.

A cinebiografia de Elton John era um dos filmes mais esperados do festival, e teve recepção mista. Sua comparação com Bohemian Rhapsody foi inevitável, mas em todas elas, Rocketman foi destacado como superior ao longa que retrata a banda Queen. Confira aqui as primeiras impressões do filme e a emoção de Taron Egerton após assistir ao filme.

Living And Knowing You Are Alive é uma junção de vários filmes caseiros, minimalistas e idiossincráticos, filmados com uma câmera digital de mão, que apresentam as memórias em primeira pessoa de Cavalier sobre sua falecida esposa, Irene (2009).

Apesar de pessoal, o filme se transforma em algo mais poético e universal, afirma Stephen Dalton do The Hollywood Reporter. “Há ecos fracos da antiga gramática feita por Agnes Varda, tão divertida e ingênua, que é apropriada para um festival de Cannes em que a memória de Varda está sendo celebrada. O pequeno trabalho de outono de Cavalier é uma esquisitice não convencional, sem polimento, muitas vezes auto-indulgente, feita para um público de nicho restrito. Mas também é uma meditação comovente sobre a amizade, o pesar e a beleza estranhamente sensual das abóboras”, completa o jornalista.

O documentário 5B aborda a história dos funcionários e pacientes da ala de AIDS do Hospital Geral de São Francisco durante os primeiros anos da epidemia. De acordo a Teresa Nannucci do Cinematographe, “a alternância de imagens de arquivo e entrevistas sobre eventos passados ​​dá ritmo a uma análise linear da história de um determinado departamento médico e, do ponto de vista da direção, esse é o aspecto mais convincente; isto é, a capacidade de processar imagens de arquivo com os insights dos protagonistas desta aventura e, acima de tudo, dar caras àqueles que experimentaram esse drama.” Entretanto, “o documentário com as melhores intenções perde o foco do filme em alguns momentos, dando prioridade absoluta à conscientização sobre o trabalho do enfermeiro neste departamento e seu valor humano e profissional.”

Taron Egerton e Richard Madden em “Rocketman”

Um Certo Olhar

Na segunda seção mais importante do Festival, foram exibidos Beanpole, de Kantemir Balagov e a animação The Swallows of Kabul, de Zabou Breitman e Eléa Gobé Mévellec.

O longa de Balagov apresenta Leningrado em 1945, após ser devastado pela Segunda Guerra Mundial, centrando-se em duas jovens mulheres, Iya e Masha, que estão lutando para reconstruir suas vidas.

O jornalista David Ehrlich, do IndieWire, destacou o design de produção do filme, que muito o lembrou o de Roma (2018): “A pintura verde lascada das paredes dos apartamentos de Iya, a luz branca amarga que cobre as janelas do hospital e os 600 metros de conjunto perfeito que a equipe de produção de calibre Roma de Balagov construiu para as cenas externas transportadoras se unem em uma neve vívida. globo do espaço-tempo em que tudo é crível, mas nada parece real.”

O The Up Coming destaca a fotografia do filme:

“A diretora de fotografia Ksenia Sereda molda um cenário angustiante, obscuro e lindo, muitas vezes aprimorado e diminuído através da luz de velas […] Em todos os lugares este filme está alerta para texturas e seus efeitos sobre a visão.” Assim como destaca os pontos chaves do filme: “Nascimento e renascimento formam os componentes temáticos centrais. A guerra nunca acaba. Como reconstruir? Em um nível pessoal, essas duas mulheres precisam preencher o abismo, para ter algo dentro delas. Eles usam os homens como instrumentos para diminuir o ódio a si mesmos, para restaurar o propósito. Ambos os atores confiam em seus olhares: o vazio raramente é transmitido de maneira tão convincente, tão ardentemente. Reproduzir é continuar, fabricar uma existência proposital. É um testemunho da complexidade do filme que você não tem ideia de como essa existência pode parecer.”

O The Hollywood Reporter aponta liderança das mulheres: “As atrizes principais são poderosas como mulheres que podem ou não ter um ato dois em suas vidas com base na gravidade do que lhes aconteceu durante a guerra. As duas características do diretor são sobre jovens mulheres forçadas a tomar controle da situação, com suas próprias mãos, das formas mais elementares, enquanto os homens são brutais ou quebrados, inúteis.”

Cena de ‘Beanpole’

A animação The Swallows of Kabul é inspirada em livro de mesmo nome e conta a história de dois casais cujos destinos se entrelaçaram com a morte, aprisionamento e notável auto-sacrifício em Cabul sob o domínio talibã.

No geral, o filme foi muito bem recebido.  O site Variety alega que “teria sido quase impossível filmar como ficção ao vivo ou no local. Aqui os desenhos comunicam rapidamente o que levou várias páginas de descrição e diálogo para serem expressas no romance…Particularmente impressionantes são vários planos subjetivos de trás da tela do olho de uma burca, e uma cena climática, em que um homem olha para a barreira de malha do outro lado, tentando encontrar os olhos de sua esposa.”

De acordo ao Cinema em Cena “as diretoras Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec evocam a sufocante angústia de Zunaira sob a pesada burca através de “câmeras” subjetivas claustrofóbicas, extraindo também suspense no terço final ao mesmo tempo em que encontram uma justa ironia na predominância daquelas vestes durante uma busca raivosa por uma multidão de mulheres.”

‘The Swallows of Kabul’

O Festival de Cannes vai até o dia 24 de maio.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.