Festival de Cannes 2019 | Dia 2: ‘Bacurau’ encanta com sua estranheza

Ontem (15), o segundo dia do Festival de Cannes 2019 teve início com a conferência de imprensa do elenco do filme The Dead Don’t Die de Jim Jarmusch, que abriu o Festival. Apesar da recepção não calorosa por parte da crítica, parte da equipe do filme que esteve presente divertiu e respondeu a questões sérias feitas pelos jornalistas.

A atriz Tilda Swinton alegou já ter visto o diretor Jim Jarmusch mencionar este filme:

Em Amantes Eternos (2013) nós temos zumbis, os zumbis fazem uma aparição, eles são mencionados. Eu lembro de pensar na hora “Oh, eu aposto que o Jim não seria capaz de resistir a fazer um filme de zumbi logo, logo. Um tempo depois ele chegou até mim: – “Tilda, eu vou fazer um filme de zumbi, o que você acha?“.

Enquanto isso, a atriz e cantora Selena Gomez desabafou acerca de sua preocupação com a internet e as redes sociais, tema também presente no filme:

Acho que o nosso mundo está passando por muita coisa. Eu diria que para minha geração, especificamente, as mídias sociais foram realmente terríveis. Isso me assusta quando você vê como esses garotos e garotas são expostos. Eles não estão cientes das novidades. Eu acho que é perigoso, com certeza. Eu não acho que as pessoas estão recebendo as informações certas às vezes.”

No final da coletiva, um dos jornalistas questionou a equipe sobre a falta de diretoras na Competição Oficial, já que há apenas 4 filmes de 20 em toda Seleção dirigidos por mulheres. Para Jarmusch o número não é o suficiente. Já o produtor Carter Logan afirmou que deveria haver mais:

Vivemos em um mundo em que os gêneros devem ser representados de forma igual, não há mais complicação do que isso.”. Tilda Swinton finaliza falando que “Ao mesmo tempo, eu tenho que ressaltar que as mulheres fizeram filmes por cerca de 11 décadas, existem inúmeros filmes de cineastas por ai, a verdade é que nós não as conhecemos, porquê não? Nós temos mulheres cineastas, algumas estão trabalhando em bares, outras estão estudando, outras não conseguem entrar nas escolas (de cinema). Nós precisamos começar por ai, olhar para elas e aprecia-las, precisamos comprar ingressos para seus filmes. Não é como se a gente precisasse procura-las, elas existem, nós só precisamos realmente prestar atenção e traze-las a tona.”

A atriz Tilda Swinton em Cannes

Houve também a estréia do segundo filme da Seleção Oficial, Les Miserables, de Ladj Ly. O debut do francês conta a história de Stéphane, rapaz que se junta à brigada anticrime de Montfermeil. Ali ele conhece seus novos companheiros de trabalho e descobre as tensões entre grupos diferentes dentro do mesmo distrito.

Na Croisette além do diretor estava presente o elenco Jeanne Baliba, Damien Bonnard, Alexis Manenti, Steve Tientcheu e Djibril Zonga. Além de JR, co-diretor de Visages, villages (2017), e parceiro de Ly, com quem colaborou por quase duas décadas em uma série de projetos que capturaram seu bairro, incluindo retratos gigantes que foram colados aos edifícios do território.

O The Guardian, que deu nota 3/5, e o Cinema em Cena que deu 3,5/5, apontaram a cena inicial do longa como sendo a de maior destaque, não só do filme, mas em comparação com outros longas. Narrado pelo primeiro citado, a cena inicial apresenta “as multidões aplaudindo e gritando nas ruas de Paris no verão passado, quando a França havia acabado de derrotar a Croácia por 4 a 2 na Copa do Mundo. Esta é uma massa fervilhante de humanidade com tricolores acenando em todos os lugares, fervendo de alegria. Finalmente, o diretor mostra o título sobre o povo, em êxtase em seu triunfo: Les Misérables.”

De acordo ao Screen Daily, “o filme de Ly é executado com enorme confiança e energia, construindo um final apocalíptico que resulta em uma gradual acumulação de tensão nervosa. O uso exagerado da estrutura policial de filmes policiais deve proporcionar a compra de filmes com públicos de gênero, enquanto a urgência noticiosa deve torná-lo um ponto de discussão na França e além, mesmo que o filme não traga algo radicalmente novo ao assunto.”

Para a Hollywood Reporter, o filme tem pontos de destaque, mas também pontos desagradáveis. “Pesado e previsível em alguns pontos, ainda que cativante e provocante em outros, é uma estréia impressionante, embora um pouco indisciplinada, que poderia jogar muito em casa e encontrar apoiadores no exterior, onde comparações com outros filmes que abordem a periferia como O Ódio (1995) e Dheepan (2015), são prováveis.”

A Folha de São Paulo apresenta semelhança entre Les Miserables, Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007), devido a temática da periferia e da luta de jovens contra policiais. Para eles o filme é um dos grandes favoritos a Palma de Ouro, até o momento.

Já aVariety compara o filme do jovem cineasta ao trabalho do diretor Spike Lee, principalmente através da energia para apresentar a demanda local. “‘Les Misérables’ é habilmente irritante como um estudo das estruturas de poder cotidianas testadas e exploradas até o ponto de ruptura; suas melhores cenas são combativas no desconforto que provocam, estimulando os espectadores a perguntar se, quando e como eles interviriam em várias exibições feias de autoridade não controlada. O filme de Ly tem pouca simpatia pela polícia, mas é surpreendente que a maior parte de sua ação seja vista através de seus olhos alternadamente cansados ​​e aterrorizados.”

Les Miserables foi exibido em Cannes

Um Certo Olhar

Na abertura da mostra Um Certo Olhar, presidido por Nadine Labaki, foi apresentado o filme A Brother’s Love, primeiro longa da atriz quebequense Monia Chokri, conhecida por estrelar o filme Amores Imaginários (2010) de Xavier Dolan. Em seu filme, a protagonista possui um amor platônico de trinta e poucos anos por seu irmão, o que a coloca em uma posição desconfortável quando ele finalmente começa a namorar a garota quase perfeita. De acordo ao The Hollywood Reporter, o filme não é nem engraçado demais, e tão pouco deprimente. E apesar de ter seu final um pouco confuso, A Brother’s Love coloca Chokri como um talento de direção que tem algo a dizer, e para ficar de olho.

Em seguida foi vez do filme da diretora americana Annie Silverman, Bull. O filme conta a história de uma pobre jovem de 14 anos e seu amadurecimento, através do seu potencial em rodeios no Texas rural.

De acordo ao IndieWire, que deu B para o filme, “o longa pertence ao novo sub-gênero inesperado projetado para complicar o entendimento tradicional da cultura cowboy nos Estados Unidos, do retrato deslumbrante de Gabriel Mascaro de cowboys brasileiros em Boi Neon, à história de reabilitação da prisão The Mustang e do conto adolescente de Andrew Haigh, Lean on Pete. Mas todas essas entradas pairam à sombra de The Rider, de Chloe Zhao, o retrato majestoso de um indígena cujas lesões no ringue o tiram do jogo e, com efeito, em uma crise existencial . Para estes cowboys, o perigo do trabalho é o único mundo que eles conhecem.”

As performances dos atores foram elogiadas, destaque para a protagonista Amber Harvard, assim como a delicadeza de Silverman ao retratar tal história. Apesar de não ter agradado a todos, como por exemplo o site Variety que preferiu o filme anterior da diretora, curta Skunk pelo qual ganhou o prêmio de curta na mostra Cinéfondation no Festival de Cannes de 2014, no geral, o longa conquistou e apresentou um novo talento do cinema americano.

Amber Harvard em Bull (2019)

Sessões Especiais

Na abertura da mostra Sessões Especiais foi exibido o documentário For Sama, de Waad al-Kateab e Edward Watts, que colocam as crianças no centro da guerra vivida na Síria. Um dos poucos filmes a ser exibido no festival que não teve sua estreia no mesmo, For Sama, estreou em março no South by Southwest Film Festival (SXSW). O documentário foi ovacionado após a sessão, onde arrancou aplausos de pé de seu público.

De acordo com o The Wrap, no geral, For Sama diz: “”Isso é para as crianças”. É para as crianças que morreram porque saíram de casa para brincar pouco antes de uma bomba ser lançada; para as crianças que viram irmãos e irmãs e primos e pais e amigos mortos; para a garotinha que diz ao pai, como se estivesse pedindo uma história favorita para dormir: “Papai, conte-me a história do menino cuja casa foi quebrada. E principalmente, como diz o título, para uma criança em particular: Sama, a jovem filha de al-Kateab e seu marido Hamza, um médico que acabou dirigindo o único dos nove hospitais em East Aleppo que não foi bombardeado pelas bombas Russas.”

For Sama (2019)

Brasil em Cannes

No final da noite na Croisette foi vez da premiere de Bacurau, longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O longa que foi filmado no sertão de Seridó, entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, acompanha a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, e os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, que descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa.

Apesar de um dos maiores nomes do filme não estar presente no Festival, Sônia Braga postou nas redes sociais um apoio a sua equipe que estava no território francês. Enquanto isso os diretores, juntamente com a produtora Emilie Lesclaux e os atores Barbara Colen, Silvero Pereira, Thomas Aquino, Udo Kier, Karine Teles, Danny Barbosa, Wilson Rabelo passaram pelo tapete vermelho e foram aplaudidos de pé antes do filme, com a sala cheia no Grand Théâtre Lumière.

No geral, o filme agradou a maioria, mas não todos. A unanimidade está acerca da estranheza e bizarrice do filme, sendo destacado que o seu último ato de forma alguma é previsível.

O elenco de Bacurau, no Tapete Vermelho em Cannes

O IndieWire que deu nota B+ para o filme, define Bacurau como um encontro entre Sete Samurais e Hostel em um delirante Oeste Brasileiro. De acordo ao crítico David Ehrlich, Bacurau é “imediatamente mais vigoroso e mais inescrutável do que os trabalhos anteriores de Filho. Bacurau’ mergulha mais fundo no território da meia-noite quando suas ideias centrais se consolidam, seus fantasmas se tornam literais e seus heróis pegam em armas.”

O The Guardian que deu 4 de 5 estrelas, definiu o filme como sendo “realmente estranho, começando em uma espécie de etno-antropologia e estilo documentário, tornando-se uma parábola de rebanho envenenado ou um sonho febril e depois um banho de sangue no estilo jacobino. É um filme completamente distinto, executado com clareza e força implacáveis.”

O The Telegraph, também deu 4 de 5 estrelas, traçou um paralelo entre Bacurau e os filmes de John Carpenter, fundidos de forma sinistra com o objetivo de “encenar toda a história de sobrevivência indígena do Brasil, deixa suas expectativa para trás e para todos os lados, como cabeças rolando na terra.”

Para Wendy Ide do Screen Daily, “‘Bacurau’ é um exemplo em encapsulado da colonização econômica do Brasil pelos EUA e Europa e do domínio cultural americano.”

Já Stephen Dalton do The Hollywood Reporter teve sentimento conflitante quanto ao filme, por um lado, gostou da forma como o filme é “visualmente impressionante, propositadamente evocando a gramática visual luxuosa dos clássicos filmes dos anos 70 […].”. Entretanto, afirmou que “apesar de bonito, memorável na ambição, este neo-western em expansão nunca se une como um todo satisfatório.”

O site Adoro Cinema deu 3,5 de 5, e destacou o terceiro ato do filme como sendo o seu ponto mais positivo. Além de ressaltar a relação metafórica entre o filme e o atual cenário brasileiro, “nos tempos em que se questiona com frequência porque o povo brasileiro tem aceitado calado tamanha opressão, sem se unir e se revoltar, o filme propõe uma revolução simbólica da classe trabalhadora contra as classes dominantes, uma revanche histórica dos brasileiros contra o colonizador.”

Bacurau (2019)

Hoje (16) é dia de Atlantique, de Mati Diop, Sorry We Missed You de Ken Loach e Rocketman, de Dexter Fletcher.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.