Festival de Cannes 2019 | Dia 1: ‘The Dead Don’t Die’ abre o festival mas decepciona os críticos

Na última terça-feira (14), começou a 72ª edição do Festival de Cinema de Cannes, que ocorre anualmente no Palais des Festivals, Cannes, França.

Pela manhã, o júri da Competição Oficial do Festival, esteve em uma conferência respondendo a perguntas de jornalistas de todo o mundo acerca de suas expectativas para o festival no ano de 2019. O diretor mexicano, presidente do júri, Alejandro González Iñárritu, retomou novamente a questão de Cannes x Netflix, alegando:

que “Não tenho nada contra assistir em um telefone, um iPad, um computador. Um não cancela outro. Mas eu sempre pergunto, quantos desses filmes que veremos nos próximos 10 dias serão exibidos para o mundo, especialmente no México, onde há poucos cinemas de arte? A Netflix tem feito um grande trabalho capitalizando na falta desses filmes [internacionais] em todo o mundo. Mas por que não dar às pessoas a oportunidade de experimentar o cinema?”, completou o diretor, alfinetando a indústria online acerca de uma maior forma de distribuição mundial, que influencie a cultura do cinema.

Enquanto isso, as diretoras Alice Rohrwacher e Kelly Reichardt apresentam questões sobre a disparidade de gênero, e como isso se torna uma marca em seu trabalho. “As pessoas continuam nos perguntando como é ser uma diretora e eu fico feliz em ver que estamos bem representadas aqui […] mas é um pouco como perguntar a alguém que sobreviveu a um naufrágio porque ainda está vivo. Bem, pergunte à pessoa que construiu o barco“, desabafou Rohrwacher, alegando que as verdadeiras perguntas deveriam ser feitas aos produtores executivos e produtores no geral.

Esta é a primeira vez que eu não tentei sair do serviço do júri”, afirmou Reichardt. “Estou ansiosa para o momento em que chegamos e não precisamos dizer ‘mulheres diretoras’ ou ‘como uma diretora‘”, conclui a cineasta.

Eu fiquei completamente chocada quando recebi o telefonema perguntando se eu queria ser um membro do júri de Cannes. Eu ainda estou sentindo esse zumbido. Eu me sinto orgulhosa de representar uma voz jovem neste festival e ver os filmes com esses olhos“, alegou Elle Fanning, que com 21 anos se torna o membro mais jovem a compor o júri do Festival de Cannes.

Quando perguntado sobre seu papel de liderança nas decisões finais, Iñárritu contestou. “Eu não sei como isso vai funcionar”, disse ele. “Eu nunca controlei nada, nem meus sets, nem minha família, nada. Acho que teremos um voto intenso e apaixonado.” Completam o júri ainda o diretor grego Yorgos Lanthimos, a atriz senegalesa Maimouna N’Diaye, o diretor polonês Paweł Pawlikowski, o desenhista e diretor francês Eric Bilal e o roteirista e diretor marroquino Robin Campillo.

Confira a seleção oficial do Festival de Cannes 2019


‘The Dead Don’t Die’ decepciona

A abertura do Festival teve início com um dos longas mais esperados do ano, o novo filme de Jim Jarmusch, The Dead Don’t Die. O longa se passa em uma cidadezinha pacata, onde uma série de crimes começam a chamar a atenção dos policiais Cliff (Bill Murray) e Ronald (Adam Driver). Depois de investigarem, descobrem que os seus piores medos se tornaram reais: o local está sendo tomado por zumbis, que voltaram para executar as atividades que faziam diariamente quando vivos. O filme conta ainda com a presença de com Selena Gomez, Chloë Sevigny, Steve Buscemi, Tilda Swinton, Caleb Landry Jones, Danny Glover e Carol Kane.

Apesar do filme não estar na Competição Oficial, e já estar sendo exibido nos cinemas franceses – já que essa é uma das regras do Festival, no qual o filme de abertura deve estar oficialmente nos cinemas – o elenco e outras celebridades chamaram atenção no tapete vermelho da Croisette.

Além do grande elenco, estiveram presentes também as atrizes Julianne Moore Golshifteh Farahani que trabalhou anteriormente com Jarmusch em Paterson, filme que esteve presente no Festival em 2017.

O novo longa de Jarmusch apresenta uma crítica a sociedade contemporânea, e não mede esforços ao referenciar antigos clássicos de zumbis. Entretanto, no geral, a recepção da crítica foi em sua maioria negativa.

Confira o trailer de ‘The Dead Don’t Die’

O site The Guardian deu nota 3 de 5 afirmando que Jim Jarmusch parece estar ficando sem idéias. “‘The Dead Don’t Die’ ocasionalmente parece irreverente e inacabado, um conjunto de idéias, humores e atores de prestígio circulando em torno de si em um conto de cachorro desgrenhado. Mas é sempre visível em sua deliberação elegante e ritmo controlado de normalidade estranha – e lindamente fotografada em um crepúsculo assustador por Frederick Elmes.”.

De acordo ao Screen Daily, “Um sentimento amargo de resignação permeia ‘The Dead Don’t Die’, um filme de zumbis de Jim Jarmusch, que vê muito pouco no mundo que vale a pena salvar. Com a banda de rock-drone do Jarmusch, SQÜRL, que fornece a trilha sonora do ambiente, ‘The Dead Don’t Die‘ coloca o espectador em um ambiente sem esperança ou fuga. O humor disperso do filme nem sempre chega, mas mesmo quando isso acontece é apenas mascarar o que é, em última análise, um retrato sombrio da nossa existência morta em movimento.”

Para a Variety, o que pesa é a falta de originalidade. “O problema de ‘The Dead Don’t Die’ é que a noção de tratar uma revolta de zumbis como uma comédia de breu encharcada de atitude já foi feita até a morte. Ele remonta a ‘Shaun of the Dead’, para filmes como ‘Planeta Terror’ e ‘Re-Animator’ – e, claro, para ‘Dawn of the Dead’, que atou seu espetáculo medonho com uma sátira madura do filme. Cultura do consumo.”

O Cinema em Cena destaca diversos pontos negativos, dentre eles a falta de personagens interessantes, a falta de inovação ao abordar o tema já que “‘The Old Don’t Die’ nasceu antigo – ou alguém realmente acha que a comparação dos zumbis com a dependência moderna de smartphones e redes sociais é algo novo?”. Além de uma falta de definição para o filme, “Pois seu tempo teria sido melhor empregado na construção de um roteiro, já que o longa não funciona como terror (tudo bem, claramente não era sua intenção), comédia (era) ou comentário político/social (que tenta fazer de modo juvenil e atrapalhado).”

Já o The Telegraph deu 4/5 destacando os pontos que considerou positivos no longa. O site destaca a estranheza de Jarmusch de forma positiva: “Este é um filme excêntrico e vitorioso, sintonizado à sua maneira com os ritmos da vida cotidiana, como o Patmus, de Jarmusch e Driver (ainda melhor) de 2016. Mas há um pessimismo roendo seu intestino que não pode ser ridicularizado”, em referência a crítica social feita no filme.

Nesta terça-feira dia, 15 de maio, o filme de Jarmusch será exibido novamente, além de ‘Les Misérables’, o debut do diretor Ladj Ly, e Bacurau dos brasileiros Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.