Crítica | Muita ação, violência, humor e pouco desenvolvimento marcam ‘John Wick 3: Parabellum’

Logo após os eventos de John Wick: Um Novo Dia Para Morrer, o personagem de Keanu Reeves passa a ser perseguido pelos maiores assassinos do mundo, em troca de uma recompensa de 14 milhões de dólares. Agora, em John Wick 3: Parabellum, ele precisa lutar para sobreviver e, talvez, conseguir de fato a sua tão desejada aposentadoria.

É perceptível a presença de referências a grandes filmes de ação, como Rambo e Duro de Matar, na trilogia John Wick. O protagonista não pode confiar em ninguém e tem que matar todos que aparecem ao seu redor. Além disso, é impossível matá-lo.

No entanto, os longas, dirigidos por Chad Stahelski possuem um estilo próprio. Esse passa pela construção do personagem principal. John não é musculoso como os protagonistas dos filmes citados anteriormente, ele é bem magro; John não anda com roupa suja e sem manga, ele usa terno e gravata; ele também não anda completamente armado, as armas vão aparecendo ao longo do filme. Então, de certa forma, John Wick foge um pouco desse estereótipo de protagonista de filmes de ação, sem deixar de utilizá-los como referências.

No que diz respeito às cenas de ação, é possível encontrar alusões aos filmes de kung fu, principalmente quando se analisa as coreografias. Clichês, como grandes explosões, não se encontram por aqui.

Toda essa análise foi rapidamente realizada para mostrar que o diretor possui um amplo conhecimento dos filmes do gênero, até mesmo, porque ele trabalhou durante anos com equipe de dublês. Em John Wick 3: Parabellum, isso continua coerente. Chad Stahelski sabe até onde pode ir sem perder seu estilo único.

As cenas de ação são muito bem coreografadas e bastante violentas. Elas não sofrem com uma edição cheia de cortes rápidos, pelo contrário, a edição é fluida. As cenas, em relação a outros filmes, se inovam em relação à movimentação das câmeras e dos ângulos imprevisíveis. Porém, elas são extremamente longas e repetitivas. Num momento da história, deixam de ser tão empolgantes.

Outro ponto positivo do longa é que ele sabe fazer piada de si mesmo. Em certos momentos, ele se leva a sério, em outros, funciona como uma sátira aos filmes do gênero. Inclui-se nessa questão as cenas de ação: piadas curtas; o fato dos inimigos levarem um século para morrerem, mesmo após terem levado dezenas de tiros/facadas; etc. Situações das mais absurdas possíveis estão presentes no roteiro. Uma das mais marcantes é a cena na qual John Wick caminha pelo deserto. Todo esse sarcasmo sustenta a história.

Portanto, existem duas formas de assistir John Wick 3: Parabellum. Uma pelo seu tom cômico, sem se preocupar com o caminho que a história segue, e outra, ignorando todas essas situações jocosas e, tentando, de fato, entender aquele universo ficcional. Se você escolher a segunda opção, provavelmente, vai se decepcionar.

O roteiro é pobre, repetitivo e previsível, além de apresentar diálogos bem genéricos. A narrativa segue a mesma estrutura de um jogo de videogame. John tem diferentes missões, que precisam ser realizadas para atingir seus objetivos e chegar ao grande vilão. Durante essas etapas, vários capangas e assassinos vão aparecendo para dificultar tudo. Até mesmo os cenários entram nessa ideia. O protagonista pode usar tudo o que for necessário nesses locais, principalmente as armas, para superar os “níveis do jogo”.

O primeiro longa, de 2014, era mais contido, pois focava no personagem principal em si. A partir de Um Novo Dia Para Matar (2017), um universo ao redor do protagonista começou a ser construído. John Wick 3: Parabellum dá sequência a esse universo, mesmo que ele não seja muito bem trabalhado. Ao mesmo tempo, o filme não cobra do espectador que ele tenha visto os anteriores. A história faz questão de relembrar certos aspectos para que todos fiquem bem situados naquele contexto. E quanto aos detalhes do universo em si, também não é necessário um conhecimento prévio, nem precisam fazer tanto sentido.

Nessa terceira sequência, muito do passado de John Wick é apresentado. Mas tudo de maneira superficial. Nomes como Laurence Fishburne e Anjelica Huston funcionam como artifícios para guiarem o personagem de Reeves e, logo, não são tão bem utilizados. Essas participações também lembram a estrutura do videogame, citada acima.

Halle Barry, que interpreta Sofia, está bem, apesar da sua curta aparição e na mesma estrutura dos atores citados no parágrafo anterior. Entretanto, nesse pequeno espaço de tela, ela é capaz de mostrar que é tão habilidosa quanto John. Quando a atriz sai de cena, deixa um gostinho de quero mais.

O personagem Winston (Ian McShane) deixa muito a desejar. Além de sofrer com a previsibilidade do roteiro, não toma muitas atitudes. Ele acaba ficando forçado. A atriz Asia Kate Dillon enfrenta o mesmo problema.

Keanu Reeves não apresenta nada de novo em relação à sua atuação. Mas a prova de que ele foi a escolha certa para interpretar John Wick, ficou clara em De Volta ao Jogo, primeiro longa da trilogia. Ele é sério, não demonstra muitas expressões faciais, e isso, de algum modo, funciona no que diz respeito ao humor do filme. Vale ressaltar também a sua dedicação às cenas de ação. O personagem não tem desenvolvimento algum. O universo se expande, mas o protagonista não.

Outro aspecto positivo do longa é a trilha sonora. Em alguns momentos, ela é composta por uma música eletrônica e em outros, uma trilha que lembra bastante os filmes de kung fu. No ato final, elas chegam a se misturar, o que é melhor ainda. É importante comentar também sobre a decisão de deixar algumas cenas de ação sem o recurso da trilha sonora. Essas são mais cruas e, logo, mais impactantes. É apenas o som de socos, gemidos (ou gritos) e coisas se quebrando.

O filme ainda conta com a participação de alguns atores asiáticos, como Mark Dacascos. O problema é que todos eles são inimigos e assassinos. Isso reforça uma visão bem negativa de Hollywood em relação aos asiáticos. Nessa questão John Wick 3 se iguala a outros filmes de ação. No caso de Rambo, os inimigos eram os soviéticos. Esses personagens aparecem aos montes só para serem assassinados por Reeves. É a forma que uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo encontra para personificar nas telas o inimigo dos EUA, num contexto político-econômico.

John Wick 3: Parabellum possui um trabalho bom e seguro do diretor. Apresenta ótimas cenas de ação e um humor que permite que o filme não se leve a sério o tempo todo. O roteiro sofre com a previsibilidade e os diálogos genéricos. Além disso, o ator Keanu Reeves mais uma vez se encaixa perfeitamente na história, mesmo que seu personagem – assim como nos outros longas da trilogia – não tenha tanto desenvolvimento, e a atriz Halle Barry, numa rápida aparição, consegue deixar sua marca. O filme não se diferencia dos outros dois, mas para quem é fã mesmo, isso não será um problema.

JOHN WICK 3: PARABELLUM | JOHN WICK: CHAPTER 3 - PARABELLUM
3.5

RESUMO:

John Wick 3: Parabellum marca o retorno do personagem interpretado por Keanu Reeves. Além das suas cenas de ação bem coreografadas e bastante violentas, o longa, dirigido por Chad Stahelski, também apresenta um humor único.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.