Crítica | Game of Thrones 8×05: não foi apenas Daenerys quem enlouqueceu em ‘The Bells’

Estamos a apenas um episódio do fim de Game of Thrones. Vários personagens estão mortos. Porto Real está em chamas. Daenerys se tornou  a Rainha Louca. E embora algumas coisas ainda não façam sentido em “The Bells”, este é o episódio que define a série e prepara o terreno para o desfecho da oitava e última temporada. Para o bem ou para o mal.

Dirigido por Miguel Sapochnik, “The Bells” é visceral e choca. O diretor consegue nos dar ângulos diferentes do terror da guerra incendiária e nos mostra por meio de vielas e tumultos todo o pânico e terror instaurado pela chegada de Daenerys e Drogon. A câmera – muitas vezes tremida com o devido senso de urgência – nos guia através de personagens desconhecidos (uma mãe e sua filha) e protagonistas, como Jon Snow, Arya Stark e Jaime Lannister.

A edição também acerta ao equilibrar bem os núcleos durante a investida da rainha louca. Em alguns momentos, algumas jornadas são colocadas em justaposição, como no momento em que Arya e O Cão passam por momentos de muito perigo. Além disso, temos eventos de grande magnitude sob a luz do dia. Os CGI nem sempre é perfeito, e você nota em alguns momentos a tela verde mesmo sem ver. Mas quando acerta, sobretudo nos muitos momentos em que Drogon está em ação, “The Bells” consegue ser um espetáculo visual.

Entretanto, é no roteiro que residem as maiores reclamações sobre o desfecho da série. David Benioff e D.B. Weiss já haviam optado por um caminho que não condiz exatamente com tudo o que fora mostra ao longo de todas as temporadas – em especial, até a sexta. Sapochnik conduz com maestria em evento que era para ser o ápice desta temporada, e não deixa de ser, mas acaba se tornando algo anti-climático. Martin (George R.R.) chocava, com coerência e imprevisibilidade impar. D&D estão chocado pela necessidade de chocar, e enlouquecer os fãs.

Você é tudo que importa (mas só agora)

Jaime Lannister, o regicida. Talvez, um dos personagens com o maior número de camadas e potencial de desenvolvimento de Game of Thrones. Ao matar o Rei Louco, que iria colocar Porto Real em chamas, se importou com as pessoas. Jaime foi lutar pelo vivos em Winterfell, uma luta com mínimas probabilidades, deixando tudo o que importa para ele para trás. E mesmo assim, tivemos esse desfecho do personagem, que até aconteceria de forma poética se não fosse pelo seu background.

É bem verdade que Jaime não deveria nem ter chegado até a irmã. Pelo menos dois golpes mortais de Euron Greyjoy (que tem a morte mais feliz e engraçada que alguém poderia ter) deveriam ter aniquilado o cavaleiro. Mas, vida que segue, o importante era o fim, e nem tanto o meio.

Já Cersei resiste bravamente – até os quarenta minutos do segundo tempo. Ela não cedeu em nenhum momento. A guerra da intransigência também foi calcada em arrogância e desprezo pelo reino, ao longo de todas as temporadas. Sendo assim, ver Cersei frente a frente com Drogon não seria o símbolo maior da resistência do que foi construído para ela até aqui?

O mais positivo nesse arco é justamente as atuações. Lena Headey e Nikolaj Coster-Waldau se entregam de corpo e alma em todas as cenas. A propósito, todas as atuações estão acima da curva em “The Bells”: Peter Dinklage, Maise Williams e até mesmo Kit Harington e Emilia Clarke. Mérito dos atores, e claro, da direção.

Ela estava errada o tempo todo, e eles também

Aqui, um conjunto de situações que também traem diversas jornadas ao longo da série. Game of Thrones sempre deixou claro que o senso de justiça de Jon Snow, a la Ned Stark, era seu guia moral. Por isso, ele enfrentou a morte em Hardhome, foi morto pela Patrulha da Noite e foi até o sul requisitar apoio na guerra contra os mortos. Nesta temporada, Jon decide seguir, sem qualquer tipo de filtro, Daenerys.

É claro, esse sentimento vem de forma tardia. Enquanto a ação frenética se desenrola na tela com sangue e vísceras, Jon parece atordoado, sem sentido algum ou propósito. E o que a série parece sugerir é sua revindicação ao trono, antes abnegada. O que contraria os instintos do personagem.

Da mesma forma Tyrion, que antes tinha como maior arma sua inteligência, passou a ser…estúpido? Emocional, para ser mais honesto. O mais inteligente dos Lannister foi responsável por uma sucessão de erros que desembocaram na loucura de Daenerys, mas seus conselhos para a rainha passaram a ser tão imperdoáveis que sua vida preservada, a essa altura do campeonato, não se justifica tanto.

Mas, sejamos honestos. A carta na manga do anão em entregar Varys é uma espécie de trunfo que lhe dá uma hora extra como Mão da Rainha. Faz todo sentido se pensarmos que, não tomar essa atitude custaria a sua própria vida. Trair um amigo fiel se tornou uma questão de sobrevivência. Libertar Jaime foi um ato de amor.

Entretanto, precisamos falar mais uma vez sobre Varys. Tido como um sobrevivente, ele foi aquele que melhor fez a leitura da situação. E será que era muito difícil ligar alguns pontos como ele ligou? Suas maquinações, aliás, fazem parte daquilo que a série tinha de melhor: os bastidores que ganham batalhas e evitam outras. Elas poderiam ter sido desenvolvidas já há algum tempo. O desfecho do personagem parece apressado demais.

Loucura, insensatez e tirania

Não é correto afirmar que a loucura de Daenerys não foi sugerida em Game of Thrones. A visão da Casa dos Importais também existe para provar um futuro presságio. Porém, Dany começou para valer essa escalada na sétima temporada. Sua jornada em Essos foi de libertação, mas sempre houveram opções, mesmo com seu passado de sofrimento, algo que não devemos ignorar.

Agora sem seus maiores conselheiros, Missandei e Jorah, com a confiança abalada em Jon Snow (e se sentindo rejeitada), claro, é de se esperar a ira e destempero. Porém, será que a mesma Daenerys, que em sua jornada executou mestres e queimou cidades, mas ofereceu liberdade e rendição – até em seu ato mais insano frente ao pai e ao irmão de Samwell Tarly – não foi completamente insana.

Com a frota de ferro dizimada, todos os escorpiões destruídos, a cidade aos seus pés e o exército Lannister rendido, qual o sentido em tornar Daenerys vilã apenas para justificar a loucura Targaryen? Os sinos tocaram! E mais: se quebrar a roda e não seguir o legado dos pais eram os principais objetivos da personagem, qual o grau de crescimento ou desenvolvimento completo temos aqui?

Daenerys se tornou cruel a troco de nada. Apenas de uma loucura que foi passada de pai para filha. Como se ela não fosse mais forte que isso. Como se sucumbir a algo supostamente inevitável, com o reino conquistado, fosse a cereja do bolo. Como se fosse um pretexto para entregar o trono a Jon Snow, o abnegado, salvo da morte justamente por ela, mais de uma vez.

Mas com justiça, é necessário enaltecer a evolução e entrega de Emilia Clarke. Essa versão Mad Queen convence. E a direção sugere isso nos pormenores do episódio. No início, ainda em Pedra do Dragão, o fogo e a escuridão em suas cenas remetem ao que está por vir. Por que tais sugestões não vieram, também, mais cedo?

Ultima palavras

* O local em Pedra do Dragão onde Daenerys executou Varys é o mesmo em que Melisandre executou infiéis do Senhor da Luz. Também queimados.

* Arya Stark 1: um grande acerto é justamente fazer com que a menina, que buscou vingança a todo custo, tenha seus planos frustrados pela impotência do caos. Ela perdeu o que queria quando esteve mais próxima disso, enquanto Daenerys, em contraponto, teve o que queria e fez o que não era necessário fazer.

* Arya Stark 2: Assim como em “The Long Night”, a personagem mais uma vez diz hoje não. Ela é o que temos mais próximo do terror da guerra. Mas ela também falha em proteger as pessoas, um propósito que encontrou ali. Não foi um grande dia, definitivamente.

* A Compahia Dourada não deu nem para o cheiro. E isso é tudo.

* Se a emboscada de Euron no episódio anterior foi algo meio tosco, a chegada de Daenerys faz sentido aqui. Descer dos céus em um ângulo que arruina as chances do oponente é enfim uma bela estratégia. Todo o poder de Drogon desequilibra a Batalha e é visualmente incrível.

* A morte de Qyburn de forma estúpida pode ser considerada uma referência a Frankstein. Mas pode ser também um momento de alívio cômico sombrio. E ok, quando Cersei sai de fininho para o CleganeBowl, não teve como não achar engraçado.

* Mais CleganeBowl: O Cão enfrenta seus maiores medos nesse episódio: O irmão e o fogo. O sacrifício era inevitável, e a luta é uma das melhores da série. Belo final, um dos poucos arcos respeitados até aqui.

* Mais Clegane: “Obrigado, Sandor”, de Arya Stark, é um momento singelo e bonito. É quando a humanidade do personagem é finalmente reconhecida por ela. É um nome que sai da lista, enquanto provavelmente, outra rainha poderá entrar.

GAME OF THRONES 8X05 - THE BELLS
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RESUMO:

Tirania, loucura e caos transformam Daenerys Targaryen em vilã, enquanto “The Bells” prepara o desfecho agridoce de Game of Thrones.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...