Crítica | Game of Thrones 8×04: ‘The Last of the Starks’ decepciona e trai jornadas de personagens

Uma semana após a intensa Batalha de Winterfell, Game of Thrones contou os corpos do confronto com o Rei da Noite. “The Last of the Starks” serviu como rescaldo dos acontecimentos anteriores, e também apresentou um prelúdio de um novo embate que está chegando, agora que a série se aproxima de seu fim.

No entanto, o último episódio da série a ser dirigido por David Nutter conseguiu levar a série do oito ao oitenta em uma noite. Não que a atual leva de episódios esteja perto da perfeição, embora fique claro que cada uma das metades deste ano pretendem preparar e desenvolver duas guerras: contra os mortos e entre os vivos. “The Long Night” foi “amaciado” com dois episódios mornos, mas que desembocaram em um capítulo catártico com o embate contra os White Walkers. Já o desfecho da guerra de Daenerys Targaryen contra Cersei Lannister começou a ser construída de maneira parca, preguiçosa e contrariando alguns elementos estabelecidos até aqui.

A primeira metade – ou a parte que se passa em Winterfell – é onde Nutter se sai melhor. Estabelecendo o luto como sentimento que prevalece durantes as primeiras cenas, vemos um belo discurso de Jon Snow, e em seguida, é colocada em tela toda a preparação para as intrigas que viriam a seguir. Game of Thrones sempre mostrou momentos de calmaria e diálogos que pesam mais do que golpes de espada. Tudo parecia muito promissor, mas David Benioff e D.B. Weiss não foram muito felizes no que veio a seguir. Aliás, arrisco dizer: poucas vezes eles foram tão infelizes, embora tenham entregue ao menos algumas boas linhas, como o desespero de Danerys ao pedir o silêncio de Jon, que revelou seu maior segredo aos irmãos.

No entanto, diálogos como o de Sansa justificando sua força através de abusadores que passaram por sua vida, a inexplicável chegada de Bronn aos aposentos em Winterfell sem sequer ser notado, e a estúpida emboscada sofrida por Daenerys, subestimam a inteligência do público. Note, é preciso ter coerência. Em um universo que estabelece suas regras, a partir da suspensão de descrença, aceitamos a existência de mortos que caminham e dragões. Mas, como um animal capaz de voar tão alto não reconheceu uma frota inimiga? Como a pessoa, a bordo dele, não viu? Pelo que me lembre, Drogon e Raeghal não estavam nos navios. Parece que há necessidade de chocar por si só, o que é lamentável.

Outro ponto fora da curva é a decisão tomada por Jaime Lannister. Ora, ela seria plausível se ele não tivesse se deitado com Brienne. Aliás, não era coerente ficar em Winterfell. Pensando bem, há uma sucessão de erros ao tratar esse arco, forçando um personagem prestes a alcançar uma suposta redenção a voltar a estaca zero. Jaime merecia mais que uma escrita abominável, característica condizente ao que ele diz ser, para justificar sua atitude.

Além disso, é evidente que o caminho traçado para Daenerys alcançar a loucura Targaryen é pobre porque a torna desprovida de inteligência de uma forma barata. Dany, ao longo da série, fez sua história através da força e senso de justiça, pavimentando seu caminho em Essos através de circunstâncias que a tornaram uma espécie de líder, por vezes tirânica e errante, é verdade, mas que quebrou correntes e libertou escravos de seus senhores.

Daenerys, portanto, merecia mais do que ignorar seus conselheiros de maneira esdrúxula; mais do que um interesse amoroso empurrado goela abaixo; mais do que Missandei capturada da forma mais conveniente possível para apenas servir de estopim; mais do que uma intriga no Norte.

No entanto, há pontos positivos aqui. O diálogo de Tyrion – que colocou uma pulga atrás da orelha de Euron – com Cersei é muito bom. Cersei, uma rainha endurecida pela jornada e sem muitas nuances desde e quinta temporada por ter se tornado uma personagem com pouco tratamento, balança em sua humanidade, com excelentes atuações de Lena Headey e Peter Dinklage.

Outro destaque é a volta do teor político. É neste terreno que Varys e Sansa atuam, com informações e segredos de bastidores que podem mudar a guerra por trás dos panos. Pena que todo esse aspecto possa convergir apenas para um único ponto: a revindicação ou não de Jon ao Trono de Ferro. O pragmatismo de Lorde Varys, a Aranha, e o tom conciliador de Tyrion devem se chocar já no próximo episódio, o que deve ser interessante. Agora o grande segredo da série é uma informação e será o fiel da balança.

No entanto, ao tornar as decisões de Daenerys apenas um meio para um fim – loucura e chamas em Porto Real, Game of Thrones parece ter reduzido a jornada da personagem a algo menor do que poderia. A essa altura do campeonato, é impossível não achar que o desfecho da série aponta para um embate mortal entre as rainhas, deixando o trono de ferro nas mãos de quem não queria. Previsível e sem a essência que os fãs da série aprenderam a gostar.

GAME OF THRONES 8X04 - THE LAST OF THE STARKS
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RESUMO:

Quarto episódio da oitava temporada de Game of Thrones, “The Last of the Starks” encontra sua força no apelo visual e choque, mas esbarra na falta de profundidade de seus diálogos e trai jornadas dos personagens.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...