Crítica | 2ª temporada de ‘The OA’  é uma viagem absurda e incrível

A primeira temporada de The OA dividiu opiniões. A grande “viagem” na qual a série se propôs a embarcar foi repudiada e amada. Eis que três anos depois a Netflix disponibiliza a segunda temporada, algo que muitos já tinham desistido de presenciar. E aos que esperaram ansiosamente por esse momento, o resultado não decepcionou.

O final da primeira temporada deixou uma sequência de perguntas a serem respondidas. Nesta segunda parte, muitos questionamentos foram esclarecidos, no entanto criaram-se muitos outros capazes de abalar o cérebro, inclusive em relação ao futuro da trama. Brit Marling e Zal Batmanglij, criadores, podem ter ou enterrado sua obra ou a levado para um outro patamar no que tange às narrativas audiovisuais.

Logo no início, somos apresentados a Karim (Kingsley Ben-Adir), um detetive contratado para investigar o desaparecimento de Michelle Vu, que some misteriosamente após chegar até o nível avançado de um jogo. Em seguida à introdução deste novo personagem, reconhecemos Prairie (Brit Marling) e fica claro que os movimentos feitos ao final da última temporada de fato abriram um portal para uma outra dimensão. Dimensão esta que The OA vai ocupar uma versão diferente de si mesma, Nina Azarova. Logo, ela vai reencontrar Hap e seus amigos mantidos em cativeiro.

Além desses dois núcleos, Karim e Nina, que posteriormente vêm a se unir, também acompanhamos a dimensão de Prairie, com os jovens amigos e BBA (Phyllis Smith) lutando contra a lógica e a descrença para compreenderem a verdade de tudo que lhes ocorreu. Mesmo com esses três focos de desenvolvimento, a série consegue manter-se cognoscível e com ritmo, apesar dos mistérios incorporados a cada episódio.

The OA não é uma criação perfeita, porém, diante do que nos foi representado, acredito que seja somente um o ponto de relevância neste texto: a criatividade da história. Marling e Batmanglij não têm medo de transportar o enredo para lugares surreais e absurdos.

A ideia de “multiverso” é aprofundada e nos é oferecida a concepção de que nossa mente é o próprio multiverso. Somos milhares em um, como se a existência da existência se desmembrasse a partir de nossas sinapses. A teoria da unidade da multiplicidade também está presente. Tudo está conectado como um grande organismo vivo.

A partir daqui, haverá SPOILERS. E teorias mirabolantes sobre o final. 

Karim e Nina, em determinado momento da história, aproximam-se em busca da resolução de um enigma. O tal jogo que Michelle participava e que, supostamente, havia sido o responsável por seu desaparecimento, levava seus jogadores a uma casa. Casa esta envolta por lendas antigas sobre o solo onde foi construída e seus primeiros donos. Todas as conjecturas e suspeitas encaminham a um cômodo onde existe uma janela redonda de vidro rosa. O objetivo do jogo era olhar através dela, contudo, todos que conseguiam, enlouqueciam com sua verdade.

À essa altura, observamos o desenrolar de dois segmentos: De um lado, Karim na casa tentando alcançar a janela. De outo, Nina, Hap e Homer prestes a viajar já que se encontram em meio a um círculo de máquinas que realizam os 5 movimentos. Ao mesmo tempo, os jovens da dimensão de Prairie também fazem os movimentos cientes da presença de The O.A. naquele espaço e tempo (em outra dimensão). Logo, todos eles saltariam para uma nova dimensão.

Quando Karim finalmente abre a janela — que se revela ser um portal — ele vê o Anjo Original levitando, ato interrompido por uma pomba branca que faz com que ela caia. No segundo em que ela cai, a verdade é revelada. O cenário visto pelo portal são os bastidores da série The O.A. Vemos equipamentos, câmeras, diretores, figurantes e gruas de filmagem. Prairie agora é Brit (seu nome na realidade) e Hap (que saltou para aquela dimensão também) atende por Jason Isaacs (seu nome verdadeiro).

Este final, revolucionário em minha opinião, instaura indagações acerca de uma terceira temporada. Tudo era, esse tempo todo, uma produção audiovisual da Netflix, a la Show de Truman ou a realidade do espectador é uma nova dimensão?

Quando o Karim olha pela janela, descobre que seu eu não existe e que é apenas uma sombra e criação da mente de Brit Marling? Todas as dimensões são reais ou só mantêm-se na criatividade de Brit por ser idealizadora da série?

Algumas teorias e possibilidades: The OA não vai lembrar de quem é nesta nova dimensão, isto foi afirmado durante toda esta segunda parte (só não sabíamos do quê se tratava até este final). Os outros — visto que, aparentemente, os jovens da dimensão inicial da série também estão nessa nova — vão tentar convencer Brit de sua identidade e ela vai achar que eles enlouqueceram e entraram demais em seus “papéis” de atuação.

A porta para a existência de outras dimensões é a nossa própria mente e no que acreditamos, o que condiz com a proposta do multiverso em cada um de nós. E Karim? Volta à sua própria realidade e questiona a veracidade de seu eu?

A dicotomia Real x Ficção foi estabelecida. Quais os limites dessa oposição? São conceitos opostos ou complementares? O que é o cinema e o meio audiovisual afinal? As imagens são falsas, invenções, ou são reais dentro de seu universo e seus códigos? Se aquelas imagens desdobram-se a nossa frente, seja em uma tela de cinema, TV ou computador, não estão, de fato, acontecendo? O filme — séries, etc — não seria um documentário de si mesmo? A partir do momento em que demonstra e evidencia uma realidade, que não a nossa, mas ainda assim, uma realidade.

A nova dimensão, que será abordada numa possível terceira temporada de The OA, seria apenas mais uma? A ORIGINAL? Que possibilitou todas as outras? Porque a própria Brit pode ter viajado ou tido sonhos com esse paralelismo do universo e, a partir disso, escreveu uma série sobre isso.

A grande pergunta a se fazer é: A série veio a partir dos sonhos com dimensões ou as dimensões vieram a partir da série?

Agora é esperar por uma nova temporada e torcer que não leve mais três anos para nossas dúvidas sobre The OA serem respondidas.

THE O.A. - 2ª TEMPORADA
4.5

RESUMO:

A segunda temporada de The O.A. responde perguntas, mas deixa uma série de questionamentos. É uma viagem absurda e incrível.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"