‘Border’: entre a humanidade e o animalesco

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On 4 de maio de 2019
Last modified:3 de maio de 2019

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Tina (Eva Melander) é uma policial que trabalha na alfandega de um porto na Suécia, com seu estranho dom consegue detectar criminosos a partir de seu faro aguçado. Além de sentir o cheiro das drogas que alguns passageiros transportam, percebe também as reações emocionais como o medo e intimidação. Desde o começo da história Tina causa uma estranheza com a sua aparência animalesca e seus comportamentos.

Apesar de ser tratada e criada como uma pessoa comum, intui-se que há algo encoberto na sua origem, por mais que se sinta diferente em comparação aos outros não consegue compreender o porquê de sua discrepância. Ao conversar com o seu pai a respeito de sua infância, ele apenas lhe diz que ela teve uma vida comum. Ao questioná-lo sobre a sua cicatriz nas costas, ele apenas diz a ela que, um dia, a mesma escorregou de uma pedra e se cortou.

O cotidiano de Tina mudou por completo ao detectar um passageiro suspeito na alfândega chamado Vore (Eero Milonoff), mesmo depois de inspecioná-lo não obtêm nenhuma prova contra ele. Um outro dia, eles se encontraram com na alfândega e se aproximaram, aos poucos foram desenvolvendo uma intimidade, talvez por causa de uma identificação mútua, pois Vore tinha uma aparência muito semelhante a dela.

Conforme passaram a conviver, seu novo amigo lhe mostrou um novo estilo de vida, mais selvagem e primitivo, como por exemplo a ingestão de larvas e dormir ao relento no meio da floresta. Um dia Vore faz uma estranha revelação a Tina, e lhe diz que na verdade eles não são seres humanos e sim trolls.

Essa é uma referência interessante da mitologia nórdica, apesar do casal de amigos não corresponderem exatamente as descrições físicas dos mitos, de fato possuem um aspecto hominídeo e um tanto animalesco, talvez se pareçam mais com neandertais do que com ogros. No decorrer do envolvimento dos personagens nota-se uma tentativa do novo amigo de Tina em seduzi-la com os prazeres e a liberdade proporcionada pela natureza. Além da promessa em encontrar um grupo de trolls escondido em uma comunidade.

Lentamente Vole demonstra o seu ódio direcionado aos homens e o quanto os trolls tendem a ser apartados pela humanidade. Diante desse sentimento do amigo, Tina se choca e entra em um conflito: abraçar um estilo de vida baseado em um arcadismo selvagem, tomado por um impulso fugere urbem ou continuar como uma pacata policial guiada por uma moral e uma ética civilizada?

O filme é caracterizado pelo realismo fantástico, possibilitando muitas interpretações e metáforas. Uma delas talvez remeta a figura do diferente, do classificado como anormal, o quanto os trolls do filme por terem as suas discrepâncias com os humanos, tendem a ser marginalizados e perseguidos.

Tina, por mais que tenha as suas dificuldades de relacionamento com as pessoas e um sentimento de estranheza frente a elas, foi criada como uma humana. Graças ao seu olfato prodigioso, encontraram uma utilidade social para ela e até mesmo um certo respeito, ainda mais por ocupar uma função de policial, alguém que se remete à lei, diferentemente de Vole, que apesar de conviver com os humanos busca vingança.

Uma outra linha de interpretação trata possivelmente de um aspecto irracional projetado na figura dos trolls, apesar de terem características monstruosas, em outros quesitos se assemelham aos homens por mais que Vole negue. Talvez os trolls representem os aspectos impulsivos do nosso inconsciente.

Freud em “Mal-Estar na Civilização” discute sobre o conflito do homem entre os seus deveres éticos e sociais em contrapartida com as impossibilidades em realizar os seus desejos proibidos, principalmente os de caráter sexualizados. Como por exemplo em relação ao controle de seus esfíncteres e a restrição quanto a prática sexual com mais de uma pessoa, sem contrariar os preceitos sagrados do casamento.

Em nome de uma segurança frente as ameaças da natureza, o homem abdicou de grande parte da sua liberdade. O que inevitavelmente gerou efeitos colaterais e um novo sofrimento na maior parte dos indivíduos: a neurose, ou seja, diante dos desejos proibitivos, o homem se esforça em driblá-los e escondê-los no fundo do inconsciente, mas inevitavelmente retornam como sintomas psicológicos. Tina, por mais que tenha ficado tentada com a proposta de fuga de Vole, no fundo sabia que não poderia abandonar a sua condição humana, pois já havia se tornado civilizada.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.