Crítica | Game of Thrones 8×03: ‘The Long Night’: gelo, fogo, terror e redenção em uma noite épica

Mais do que um episódio, “The Long Night” foi uma experiência. Com poucos diálogos e muita ação, a representação da Batalha de Winterfell trouxe diversos elementos como combate físico, terror e suspense. Uma noite inesquecível para Game of Thrones.

Dirigido por Miguel Sapochnik, curiosamente, não há muito para se dizer sobre o episódio. Mas não porque ele não é bom. Isso acontece pois trata-se também de uma experiência imersiva. As cenas escuras, que para alguns podem ter incomodado – mais por questões técnicas do HBO do que escolhas criativas – nos levam para dentro do desconhecido e inesperado. Note: o adversário dos nortenhos e aliados não se cansam, não param, não se ferem, não desistem. As escolhas precipitadas, os métodos de batalha, nada poderia ser capaz de conter uma ameaça tão diferente do usual.

O passeio aterrorizante de Sapochnik, que já conduziu com exito outras duas grandes batalhas na série em Hardhome e Battle of the Bastards, começa em silêncio focando mãos trêmulas da Sam. A câmera passeia por entre os personagens, com sons de lâminas, botas e por pouco, seria possível sentir os calafrios destes personagens, prestes a enfrentar a morte, literalmente.

As escolhas do diretor reforçam o senso de perigo a todo instante. Planos fechados nos rostos aterrorizados, calma nos momentos necessários e planos abertos para exibir a magnitude dos eventos e o tamanho dos exércitos. Cenas que enchem os olhos, e que casam com maestria com a trilha sempre precisa de Ramin Djawadi, econômica ou imponente quando necessário.

Gelo e fogo tomaram conta de episódio, com tudo o que os fãs ávidos por ação nesta temporada estavam aguardando. O azul e o amarelo, com tons de laranja e preto da noite eram salpicados pelo vermelho escuro do sangue, quase imperceptível na escuridão dos arredores de Winterfell, se misturando à sujeira e neve. Não é surpresa alguma lembrar que esta batalha levou 55 dias para ser filmada e custou vultuosos US$ 16 milhões. O resultado, entre um ou outro efeito mais artificial como o vôo dos dragões, foi uma experiência sensorial incrível; Oitenta e dois minutos de televisão em estado bruto e emocional.

Jornadas que fizeram sentido

O episódio deixa claro, desde o início, quais são os temas centrais aqui. As jornadas encontrariam propósito ou redenção. É como o destino de Beric Dondarrion, que ressuscitou seis vezes para que no momento crucial, pudesse proteger Arya Stark. É o objetivo da vida de Melisandre, que viveu por centenas de anos, balançou na fé e cometeu os atos mais desprezíveis para um ser humano, mas que ambiguamente, reviveu Jon Snow e carregou parte da Batalha de Winterfell nas costas. A mulher vermelha, aliás, previu o que aconteceria ainda na terceira temporada.

É também a noite da redenção de Theon Greyjoy, outro pária que por suas atitudes, recebeu ódio da audiência e por algum tempo foi um dos personagens que mais sofreu na série. Mas, em uma noite de sacrifício e heroísmo não convencional, coube a esse bom homem, segundo as palavras de Bran Stark, proteger em pessoa o Corvo de Três Olhos. Poético e honrado como o destino de Jorah Mormont, protegendo com honra sua Khaleesi. Mais do que um ato de bravura, um ato de amor, no limite de qualquer esforço físico imaginável.

Quanto as jornadas, entre os Starks não houve vida fácil para ninguém. Todos que lutaram ou se protegeram nesta batalha saíram pelo mundo e retornaram. Arya nunca soube o que realmente quis, mas nunca deixou de buscar o seu propósito. E convenhamos, não havia ninguém mais preparado do que ela. Furtiva, astuta e sagaz, o golpe derradeiro no Rei da Noite é uma surpresa, mas não de uma forma negativa.

Jon Snow e Daenerys Targaryen bem que tentaram, mas foi complicado para esses dois. Suas atitudes quase custaram a vida dos dragões, deles mesmos e de todos. Um dos méritos em “The Long Night” é deixar clara esta situação, o que dá a cada um dos personagens envolvidos a devida importância, mesmo com o protagonismo de Arya e Melisandre.

Foi uma noite trágica para Lyanna Mormont, uma gigante frente ao seu oposto físico, um gigante literal, mas brava como poucos. E poderia ser para tantos outros: Jaime Lannister, Brienne, Davos, Verme Cinzento, O Cão e outros que, certamente, estão sendo guardados para o desfecho da série. Matar mais personagens teria sido a escolha ousada que o episódio faria para atingir a perfeição, porém, não foi dado esse passo adiante. Faltou coragem aos roteiristas David Benioff e Dan Weiss, precisamos admitir, embora o trabalho aqui tenha sido bom.

O começo do fim para jogo dos tronos

Considerado um anticlímax, o desfecho de Batalha com os mortos com três episódios por vir não é incoerente. É claro, “o inverno está chegando” sempre foi um dos motes da série, um jargão que a família Stark carrega e que alimenta o imaginário dos fãs desde o primeiro episódio, que levo inclusive esse nome.

Porém, este também é o jogo dos tronos. As tramas políticas e a revindicação do trono não serão deixados de lado e o fim da série aponta para uma batalha igualmente sangrenta entre os exércitos de Jon e Daenerys contra Cersei.

Porém, há de se considerar duas coisas: depois da batalha, como ficará a relação entre o verdadeiro herdeiro do Trono de Ferro e sua tia; e, não menos importante, se Dany lutou a luta de Jon, perdeu os seus exércitos e arriscou a vida e a de seus dragões pela “guerra de Jon”, agora é hora de Jon lutar a guerra dela. Pelo menos em tese. É ai que se encaixam as articulações, e é nesse terreno que personagens como Tyrion, Sansa e Varys voltarão a ter importância.

A Batalha de Winterfell é um momento importante para a TV. Não apenas pela ação ou recursos colocados a disposição para um episódio catártico. Ela é crucial para colocar a telinha com o mesmo peso das telonas. Em uma semana impactada pelo avassalador desempenho de Vingadores: Ultimato nos cinemas, Game of Thrones se coloca como uma obra capaz de mover multidões, algo igualmente importante na cultura pop.

GAME OF THRONES 8X03 - THE LONG NIGHT
4.5

RESUMO:

Terror, suspense e muita ação são a base de “The Long Night”, episódio que apresentou uma batalha épica e deu sentido a muitas jornadas de Game of Thrones.

 

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...