Crítica | ‘Vingadores: Ultimato’ é um dos maiores blockbusters de todos os tempos

Atenção: esse texto possui spoilers de ‘Vingadores: Ultimato’ 

Não é exagero dizer: Vingadores: Ultimato é exatamente do tamanho de sua expectativa. É o maior blockbuster da década e, seguramente, um dos maiores filme de super-heróis já feitos. Isto posto, longe do calor da emoção da sessão de estreia, o filme continua melhor na cabeça. Há de tudo um pouco: drama, humor e ação, tudo elevado a máxima potência.

O filme dirigido pelos irmãos Russo chegou aos cinemas na última quinta-feira (25) cercado de expectativas e segredos. Afinal de contas, o estalar de dedos de Thanos em Vingadores: Guerra Infinita deixou muitas perguntas em aberto e a principal delas era não apenas se, de alguma forma, isso poderia ser desfeito, mas como. E a trajetória construída desde o primeiro minuto até o desfecho do longa é um passeio épico de três horas por todo o Universo Cinematográfico da Marvel nos cinemas. Um verdadeiro deleite e um presente para os fãs.

Como na maioria dos filmes da Marvel no MCU, Vingadores: Ultimato não deve ser analisado como apenas mais uma obra, das 22 já feitas neste universo. Ele é a peça final de um quebra-cabeça que começou a ser moldado em 2008 com Homem de Ferro. O longa consegue funcionar por si só, mas coloca em perspectiva todo o universo construído até aqui, trazendo a tona um sem-número de referências que direta ou indiretamente, nos remetem a diversos filmes da franquia. Você poderia imaginar, por exemplo, que Thor: O Mundo Sombrio (2013) e Vingadores: Era de Ultron (2015), criticados em suas estreias, ganhariam tanta importância um dia? Saímos da sessão cientes da importância de cada passo dado até aqui.

A caixa-preta em que se transformou o filme se justifica do início ao fim. O marketing econômico que entrega apenas elementos, em sua maioria, do primeiro ato, não se aproxima nem um pouco das surpresas que o filme proporciona. O clima de desesperança, auxiliado pela empalidecida fotografia que acompanha o filme até meados do segundo ato – quando a brilhante trilha de Alan Silvestri começa a empolgar de fato – impõe um tom de dramaticidade, que só não é ampliado porque as consequências do sumiço de metade da população da Terra se torna um conflito interno para cada um dos personagens. O filme não faz questão de abrir o escopo da perda para além dos Vingadores, mostrando mais do mundo em ruínas, como fez com maestria a série The Leftovers.

Ao invés disso, os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely nos mostram a perda do ponto de vista dos heróis. Tudo o que eles são e o que eles eram são afetadas pela perda, e a sensação de impotência permanece mesmo quando a cabeça de Thanos rola de forma surpreendente, ainda nos primeiros quinze minutos. Antes de tudo, Ultimato é sobre como aceitar a derrota e seguir em frente, além de nos trazer de forma real e com consequências palpáveis heroísmo e sacrifício. Afinal de contas, o que significa ser herói? Qual o significado da vingança pura e simples para esses personagens?

Mas, não se esquecendo que essencialmente este é um filme de super-heróis, Anthony e Joe Russo entregam momentos absolutamente fantásticos. Eles poderiam ser listados em tópicos e poderíamos falar a respeito por horas sobre o Mjölnir empunhado pelo Capitão América; Bruce Banner surgindo como Dr. Hulk; O Homem de Ferro repetindo sua frase icônica que deu início a tudo isso; as heroínas da Marvel lado a lado; a chegada da Capitã Marvel; uma batalha nunca antes vista nos cinemas; o retorno dos heróis mortos – e não apenas isso, a maneira como isso acontece; dentre tantos outros. Perdoe-me se não listei mais algum, eles são muitos. Além disso, soluções simples como o retorno do Homem-Formiga deixam a complexidade para outros aspectos e movem a trama com inteligência.

Além do convencional, Vingadores: Ultimato mexe com um tema espinhoso para qualquer roteirista, e até brinca com isso referenciando obras como a trilogia De Volta Para o Futuro. Utilizando a abordagem da viagem no tempo, ou melhor, no espaço-tempo, o tema é tratado de uma forma diferente, o que renderia uma nova rodada de discussões. Mas, se mantém fiel ao que apresenta em sua mitologia, abraçando a fantasia de forma muito divertida e nostálgica.

Aliás, um parêntese para falar de cada uma dessas visitas ao passado. A nostalgia é incrível e revisitar antigas cenas através de outros ângulos foi de um cuidado incrível, e não gratuito. É como voltar ao cinema, quando a Batalha de Nova York encheu os nossos olhos pela primeira vez, ainda em 2012. Mas não é somente isso: é o sentido que as coisas passam a ter o que torna isso tão especial. É o que reforça a escolha do recurso utilizado.

Tornar o passado dos personagens o futuro de cada um deles parece complicado, mas livra o filmes das amarras que isso poderia conter e torna o roteiro imprevisível e sagaz. A chegada da ameaça e retorno dos Vingadores aniquilados por meio do assalto no tempo foi uma jornada mais incrível do que poderia se imaginar, culminando em uma batalha em larga escala; poucas vezes se viu algo tão impressionante em tela. Heróis lado a lado em uma luta épica com cenas de ação impressionantes, de uma maneira que só os quadrinhos seriam capazes de fazer. Pelo até a estreia desse filme.

Jornadas que se encerram e mudam de várias formas

Se Guerra Infinita trouxe um vilão como protagonista, Ultimato tratou de colocar Thanos como um coadjuvante de luxo, e devolveu aos heróis o protagonismo. Desde os principais aos mais secundários, o tratamento dado a cada um deles foi bem distribuído. Porém, o mais importante aqui foi o fechamento de um ciclo. Jornadas se encerraram de diversas maneiras, desde desfechos irremediáveis até a possibilidade de novos caminhos no futuro.

Maior astro da franquia, Robert Downey Jr. se despede de Tony Stark fazendo os fãs chorarem, rirem e se emocionarem como nunca. E de quebra, entrega sua maior atuação desde que entrou para este universo. O primeiro vingador apresentado nos cinemas é, por ironia do destino, quem encerra a Saga do Infinito. Uma perda tão real quanto coerente, inevitável tal qual Thanos foi. “Eu sou o Homem de Ferro”, os hambúrgueres que sua filhinha pede a Happy no final do filme (que remetem ao primeiro filme) e sua relação com o pai nos conectam com Stark de tantas maneiras que seria impossível continuar sem fazer uma lista.

Chris Evans, em seu sétimo filme como Capitão América, é também responsável por viver pela última vez o personagem que é uma das molas propulsoras do filme, e de toda a Saga. O Capitão é responsável por momentos icônicos, desde uma saída inteligente no repeteco da cena do elevador (mostrando mais uma vez a simplicidade do roteiro em alguns momentos), passando pela luta com sua duplicata, até a batalha final. Sua saída de cena é incrível, um tanto previsível, é verdade, mas emocionante. Um tanto quanto brega, é verdade. Mas é o Capitão. Ele pode.

Outra estrela da franquia, conosco há nove anos, Scarlett Johansson, por ironia do destino, só vai ganhar um filme solo em 2020. Ainda que demasiadamente tardia, uma justiça póstuma para a personagem, aliás. E que surpresa. Aqui a Viúva Negra é muito bem trabalhada, o peso de sua perda é sentido e as consequências do sacrifício de Natasha Romanoff são importantes para a trama. “Custe o que custar”.

Johansson consegue ainda nos entregar lindas cenas com Jeremy Renner, que chega ao ápice como o Gavião Arqueiro. O arco mais dramático do filme é dele, ao lado da Nebulosa, vivida por Karen Gillan. Começamos o longa vendo o personagem destroçado pela perda da família e sua entrega é fantástica, tanto como Ronin, até se tornar um herói novamente. Essa história deve continuar no Disney + e não poderíamos estar mais ansiosos para isso.

As boas surpresas

Chris Hemsworth e Mark Ruffalo já haviam mostrado uma química impressionante em Thor: Ragnarok. os atores possuem uma ótima veia cômica e se saem muito bem nesse terreno. A leveza encontrada para Thor, ao contrário do que parte do público achou, até favorece seus momentos mais dramáticos. E a continuidade desse equilibrio – já visto em Guerra Infinita – e acentuado aqui foi importante para sua mudança física. O Deus do Trovão do início do filme, devastado pela derrota, é totalmente diferente da sua decadente versão que mais parece uma mistura de Lebowski (sim, é uma referência ao filme O Grande Lebowiski) com Axl Rose dos dias atuais.

Tanto esse novo Thor quando o Dr. Hulk, a fusão das personalidades de Bruce Banner com o Gigante Esmeralda, são algumas das inúmeras surpresas que o filme se encarrega de entregar ao público. Por isso, a trajetória que envolveu toda a divulgação do filme até aqui se mostrou um grande acerto. Quantos aos personagens, seus arcos também se fecham, mas de uma forma que ainda seja possível mante-los por perto neste universo. O endgame não é necessariamente um ponto final.

 

De fato, Vingadores: Ultimato vai além de um simples filme, ou de uma culminação. É um acúmulo de sensações e recompensas, produzidos de forma minuciosa. É um marco na cultura pop e no seu gênero, e acima de tudo, um evento. O tempo vai se encarregar de concretizar sua relevância. Porém, se há um filme da Marvel para ser chamado de inesquecível, esse é o mais capaz de ocupar este lugar.

VINGADORES: ULTIMATO | AVENGERS: ENDGAME
5

RESUMO:

Vingadores: Ultimato vai além do desfecho da Saga do Infinito, e além de se tornar uma culminação primorosa de 22 filmes, é um dos maiores blockbusters da história do cinema.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...