Crítica | A sensibilidade da mudança em ‘Temporada’

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5
On 20 de abril de 2019
Last modified:20 de abril de 2019

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“Você chega em casa faz um café, se senta em frente à TV e não tem ninguém pra conversar… Você quem decide se isso é solidão ou liberdade.”
Temporada
Diretor, roteiristaprodutor mineiro e negro, André Novais já havia conquistado o público com seu drama Ela Volta Na Quinta, indicado a Melhor Filme no Festival de Brasília de 2014, onde levou os prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante para Elida Silpe e Melhor Ator Coadjuvante para Renato Novais. Em seu novo filme temporada, agora disponível na Netflix, o diretor volta a abordar o afeto e as relações pessoais, dessa vez na vida de Juliana, uma mulher que ao passar em um concurso, muda de cidade e se vê permeando por grandes transformações. 

Ao se mudar de Itaúna (BA) para Contagem (MG) a protagonista inicia sua nova vida como Agente da Saúde, se vendo então em uma nova casa, em um novo trabalho, com novas pessoas e uma nova rotina. As mudanças em sua vida começam drasticamente a partir dessa conjuntura, que são ressaltadas quando a mesma perde o contato com seu marido que continuou em Itaúna. A premissa é simples, mas conforta ao apresentar o dia a dia de uma mulher comum, que tenta se adequar a sua nova vida da maneira que pode. A conversa íntima que possui com sua prima, o voltar para casa todos os dias são ações que nos aproximam da protagonista influenciando assim a forma de identificação. 

A comodidade e conformismo com a vida são duas características presentes no filme e abordadode forma evidente que hora causa graça, em outros momentos, aflição. No seu primeiro dia no trabalho, seus colegas afirmam que aquele emprego não é para passar muito tempo, já que o salário não é bom, entretanto estão no mínimo a 4 anos trabalhando ali. 

Em outro momento, quando o relacionamento da protagonista entra em pauta, é dito que ela está a oito anos com seu atual parceiro, Carlos. E apesar de seu relacionamento não ser o foco principal do filme, é interessante ver como o brusco afastamento dos dois encerrou algo que a protagonista já via como estranho e maçante. O conformismo da posição de ambos era tanta que era mais confortável para eles continuar, mesmo não sendo satisfatória, do que se lançarem a uma nova experiencia. 

Apesar de destacar esses dois trechos, o filme apenas se coloca no lugar de provocação, ao fazer com que nós nos identifiquemos e analisemos se também não fazemos isso em nossas vidas. Juliana por exemplo, só entrou em movimento após ter sido lançada rumo a uma nova conjuntura. 

Por estar começando uma vida em uma nova cidade, Juliana ainda está em processo de adaptação e por isso também passa muitos momentos sozinha, quando em casa, os ângulos da câmera refletem a solidão vivida pela protagonista. O grande espaço não ocupado, a lanchonete em que come vista de frente ressaltando também este aspecto, no qual sua única campainha é um vira-lata, ainda sim, a troco de comida. Em contraponto entra a trilha sonora de Pedro Salles Santiago, que com um instrumental forte e vívido casa com as cenas e ressalta as mudanças pelas quais a personagem está passando. 

As referências às mudanças que ocorrem na vida de Juliana vão para além do físico e do evidente, passam a ser representadas também através de pequenas ações no dia a dia. No início do filme ela se depara com seus medos, um deles explicitado de forma literal. Durante sua primeira visita em uma casa passa a ter noção de que terá de lidar com coisas que lhe dão pavor como escorpião e escadas. E aos poucos, se vê não só superando esses medos, como encarando-os de frente e agregando essas experiências de forma positiva a sua vida.  

O mesmo pode ser usado para referenciar a relação que a protagonista tem com a solidão, a inquietude em estar sozinha e a necessidade de tentar mudar isso do jeito errado. Ao permitir que as mudanças ocorram, passa a se libertar e consequentemente a solidão também passa. 

Interpretada magistralmente por Grace Passô, Juliana é uma mulher de poucas palavras, que utiliza muito do olhar e de respostas apenas curtas. Entretanto, sua grande personalidade reflete, a partir de suas vivências, a leveza que passa a adquirir durante o filme. A atriz venceu o prêmio de Melhor Atriz na última edição do Festival de Brasília e no Torino Film Festival em 2018.

Sua performance não é a única de destaque. Russo Apr que interpreta Russão é uma das grandes descobertas do cinema nacional em 2019. O ator interpreta o colega de trabalho da protagonista, que com leveza e diversão vive sua vida apesar dos percalços. O ator também foi premiado no Festival de Brasília com o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. 

temporada abraça e aquece ao ressaltar a temporalidade da vida, as mudanças pelas quais passamos e que por mais que necessitemos sair da zona de conforto, sempre terá um recomeço, que pode no mínimo ser libertador.  

TEMPORADA
5

RESUMO:

Em Temporada, André Novais sensibiliza e conforta, ao abordar as mudanças através da passagem pela comodidade na vida de uma mulher.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.