‘O Patrão: Radiografia de um Crime’ mostra como a miséria pode provocar um assassinato brutal

* Texto com spoilers do filme O Patrão: Radiografia de um Crime

Hermógenes (Joaquim Furriel) é um homem simples e analfabeto. Vindo de Santiago Del Estero, ele juntamente com sua esposa Nora (Andrea Garrote) buscam sobreviver na capital argentina. Devido à falta de estudo são obrigados a trabalhar em péssimas condições e rapidamente caem nas garras Don Latuada (Luis Ziembrowski), dono de uma rede de açougues com oito lojas em Buenos Aires. Nora vai trabalhar de faxineira na casa do Don, enquanto Hermógenes se torna aprendiz em um dos açougues do seu novo patrão.

O filme começa com a investigação de um assassinato. Hermógenes mata o seu patrão dentro de um dos estabelecimentos dele. No decorrer da história acompanha-se o desenvolvimento da relação do protagonista com Don Latuada e os motivos que o levaram a cometer o crime. Desde o início nota-se como essa relação abusiva foi constituída. Hermógenes e sua companheira não ganhavam um salário fixo e não havia uma data estipulada para receberem o pagamento. Por estarem em uma condição precária, aceitaram morar na parte de cima do açougue em que Hermógenes trabalhava, um quarto pequeno, sem janelas, sujo e sequer havia um chuveiro.

Armando, um açougueiro experiente, ensina o protagonista as falcatruas para conseguir vender toda a carne podre, perversamente nessa rede apenas se comercializava este produto estragado. Hermógenes, devido a sua falta de instrução, não percebe a atrocidade que estava cometendo, aprende rapidamente todas as sujeiras com naturalidade, sem questionamentos. Apesar de todos os maus-tratos, o açougueiro se submete a todas as ordens do patrão e o coloca em uma posição de pai, afinal o Don lhe oferece um certo “amparo” a um preço bem alto.

O roteiro ainda que tenha sido inspirado em uma história real, faz uma ótima analogia da violência vivida por Hermógenes e Nora. O casal paga com o trabalho, com o seu corpo, com a sua carne e seu sangue. A carne dilacerada e podre do açougue corresponde a exploração dos corpos do casal.

Depois de sofrerem várias humilhações, Norma sugere ao marido retornarem para Santiago ainda mais por ela estar grávida, no começo ele reluta em aceitar a ideia, mas depois se convence de que poderia ser a melhor opção. Rapidamente, Don descobre os planos do casal e sem grandes dificuldades dobra Hermógenes e lhe promete uma vida melhor. Logo em seguida a vigilância sanitária vai até o estabelecimento e o lacra, pois uma cliente foi intoxicada pela carne em decomposição e os denunciou. Como o açougue foi fechado, o casal não conseguiu entrar no quarto e eles passaram a madrugada na rua.

No dia seguinte, Don conseguiu reabrir o estabelecimento. Naquela mesma noite, ele se enfezou com Norma por um motivo banal e a mandou embora. Alegou para Hermógenes o quanto ela poderia atrapalhar a sua vida por causa do filho deles e ainda afirmou que ela flertou com outros homens. Não bastando todas as calúnias, o patrão disse que ele estava devendo o aluguel do quarto. Na manhã seguinte, quando o Don foi inspecionar o seu trabalho, o errante protagonista cravou uma faca na barriga de seu algoz. Don tentou fugir, mas Hermógenes o esfaqueou mais algumas vezes no meio da rua em plena luz do dia.

Um Crime Justificável

Chama atenção no filme a resignação de Hermógenes em acatar todos os mandos de seu patrão sem nenhuma crítica. Norma muitas vezes aponta para as explorações vivenciadas, mas seu marido não lhe dava ouvidos. Sua falta de recursos intelectuais somada a péssima condição socioeconômica deles, contribuiu com a manutenção da passividade frente a escravidão pela qual passaram. Em termos psicológicos Hermógenes é um sujeito que precisa ser guiado e cuidado por uma figura de autoridade, entretanto, tende a estabelecer relações de dependência tornando-se vulnerável a exploração de um abusador.

Paralelamente, enquanto acompanha-se a história do protagonista, ocorre a investigação de seu crime e a construção da defesa pelo advogado Marcelo (Guilhermo Pfening). Além de ser oprimido pelas injustiças e desigualdades do sistema capitalista, o sistema judicial quer ligeiramente condená-lo a prisão perpétua e classificar o assassinato como qualificado, devido a brutalidade do ocorrido. O corajoso advogado em uma defesa sensível e brilhante consegue provar que o ato do réu, no fundo, foi uma reação desesperada e intempestiva de um homem escravizado e de certa forma vítima das circunstâncias.

Hermógenes não é um assassino perverso, apesar de seu ato violento, ele e sua esposa são vítimas de uma circunstância perversa e da negligência do desamparo do Estado. Como disse o advogado, ele já vive em uma prisão perpétua, a prisão do analfabetismo, da ignorância e da pobreza extrema. Condená-lo a uma pena tão implacável seria selar injustamente para sempre a vida de um homem digno.

Joaquim Furriel e o diretor Sebastián Schindel

Por fim, Hermógenes foi imediatamente solto, na vida real chegou a cumprir dois anos de prisão, mas foi condenado como um crime sobre violenta emoção. Ao se despedirem na rodoviária e retornar à sua cidade natal, para demonstrar a sua gratidão, o protagonista se oferece para prestar um serviço braçal ao advogado e novamente elege um patrão.

Dirigido por Sebastián Schindel, O Patrão: Radiografia de um Crime (2014), disponível na Netflix, faz um excelente retrato de como um sujeito desfavorecido pelo sistema pode ser facilmente culpabilizado ao se defender da barbárie da desigualdade social e da miséria.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.