Crítica | ‘O Anjo’: um excelente drama biográfico que foge dos padrões

Com a produção de Pedro Almodóvar e a ácida direção de Luís Ortega, chega aos cinemas brasileiros O Anjo, drama biográfico completamente fora dos padrões, repleto de charme e novidades.

Nele acompanhamos a trajetória de um hábil ladrão chamado Carlitos (Lorenzo Ferro), que se autoproclama um “anjo” de Deus aqui na terra e que rouba pelo puro prazer de se sentir “livre” na vida. Os rumos de sua jornada mudam quando o mesmo encontra Ramón (Chino Darín) e sua família, ladrões e futuros parceiros de crime.

Note que no parágrafo anterior duas palavras foram colocadas entre aspas; e ambas merecem uma leve reflexão. Logo no início do filme somos recebidos com um grande escarnio religioso por parte do protagonista que levemente satiriza as crenças de pessoas mais simples, de um lado é cômico, mas do outro é levemente reflexivo, pois fez lembrar de um questionamento de um filosofo cristão chamado Leibniz:

Se deus existe de onde vem o mal? E se deus não existe de onde vem o bem?

Claro que aqui coloquei um questionamento extremamente profundo e amplo, e, não iremos entram em seus méritos, todavia, perceba que valores como o bem e o mal serão totalmente abordados na obra de maneira dúbia e reflexiva visando perturbar o espectador a todo momento.

Outro grande enrosco apresentado logo no início é a questão da liberdade; na primeira cena Carlitos questiona o porquê de todas as pessoas simplesmente recusarem sua liberdade natural, reflexão muito polêmica, pois todos nos sentimos enjaulados, mas a saída que ele mostra é o roubo e a violação da propriedade privada.

Mas, perceba que aqui o enrosco é grande, pois não se trata de roubar para adquirir bens materiais ou capital, mas simplesmente o ato que o faz se sentir dono de tudo, roubar uma moto para dar uma volta e larga-la em qualquer lugar para que outro possa dar uma volta também, para dar um exemplo. O problema aqui vai te perturbar até os créditos subirem, pois aprovamos a sensação de liberdade de Carlitos, mas desaprovaremos seus métodos do início ao fim, pois se trata de uma ótica deturpada da realidade do mundo, transposta em um roteiro incrivelmente sagaz, que desvia a atenção desse feito a todo o tempo e alfineta o espectador com vontade.

Tanto no papel quanto em termos técnicos o que melhor define O Anjo é o seu teor sensual, percebido em falas, deslocamentos de câmera e até em cenas inteiras, omitindo durante basicamente todo o filme cenas de sexo propriamente ditas. Temos aqui metáforas e comparações eróticas percebidas na excitação do manejo de armas, na curiosidade com as mesmas, no prazer quase orgástico de cometer um crime e na excitação que os ladrões acabam sentindo um pelo outro. Podemos fazer ligações aqui com diversos conceitos de liberdade, com a psicanalise Freudiana e por aí vai – um filme ácido e “caliente” em todos os seus aspectos.

Chino Darín em “O Anjo”

Em termos de atuação acredito que o mais perto da realidade é dizer que todos os atores foram muito bem escolhidos e todos conseguiram brilhar com o material que tinham, tendo seus momentos. Nenhum personagem tomou espaço desnecessário ou uma boa atuação foi ofuscada por um mal roteiro. Outro fator muito chamativo é o figurino e a construção de cenário dos anos 70, brilhantemente criada e muito imersiva.

O Anjo é um filme que foge pela tangente e evita muitos convencionalismos, nos traz um personagem difícil de engolir e que brinca com nossas emoções do início ao fim. Um protagonista que tem como mérito a transparência, deixou claro quais eram os seus valores e viveu sua vida inteira de acordo com os mesmos, mesmo que deturpados, se você se identificou com algumas coisas, o errado só pode ser você.

Filme que não pode ser perdido devido ao seu teor divertido, aos seus momentos que afetivamente nos perturbam, sua qualidade técnica e, o que é mais importante, é bem provável que você vá querer discutir sobre ele com os amigos.

O ANJO | EL ÁNGEL

RESUMO:

O Anjo é um filme que foge pela tangente, brinca com as emoções, evita muitos convencionalismos e nos traz um personagem difícil de engolir.

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Matheus Amaral

Formado em Audiovisual, amante do cinema em todos os seus aspectos. Filósofo de bar. As vezes mistura as coisas...Desde pequeno assistia tudo o que via pela frente, cresceu lado a lado com o cinema e com as suas diversas vertentes.