Crítica | Game of Thrones 8×01: ‘Winterfell’ é um prelúdio morno para o fim da série

A espera acabou. Foram exatos 595 dias de hiato entre o episódio “The Dragon and the Wolf“, e “Winterfell”, o primeiro dos seis capítulos que irão fechar a adaptação das crônicas de Gelo e Fogo para a TV.

Dirigido por David Nutter, “Winterfell” tinha duas missões. A primeira delas, logicamente, organizar as peças para o que será visto durante a curta temporada. A segunda, não menos importante, dar sequência aos acontecimentos que foram mostrados no dia 27 de agosto de 2017, dia em que vimos o Rei da Noite derrubar a grande Muralha.

É justamente no desbalanceamento dessas duas premissas que “Winterfell” derrapa. Não é um episódio ruim, pelo contrário. Há uma adição de humor inusitada, os Starks estão em relativa paz (pelo menos ninguém morreu e podemos passar um tempo com eles) e ainda temos tempo para apreciar uma boa trama política, um das grandes características da série. Porém, é justamente por causa dessa aparente calmaria, em contraponto  aos acontecimentos urgentes que bateram à porta da Patrulha da Noite, que os mais ávidos por ação e desdobramento da ações irão reclamar. E com razão.

A não ser que o Rei da Noite tenha um plano que vá além de uma simples chegada aos portões de Winterfell – é bom lembrar que ele possui um dragão de gelo e exército jamais visto – não parece razoável que se tenha tempo para intrigas políticas no Norte. Já se passou algum tempo desde esses acontecimentos, e a ausência de um senso maior de urgência (aqui temos tempo para passeio de dragão) não condiz com o panorama caótico que se aproxima. Por outro lado, os reencontros, uma redenção e a grande revelação apresentada foram os grandes momentos da noite de domingo.

King´s Landing e os Greyjoys

“Você é o homem mais arrogante que já conheci”. Eu gosto disso.”

Cersei está de volta. E se por um lado ceder ao cortejo de Euron Greyjoy não representa o retrato fiel de sua personalidade, ela se redime consigo mesma tramando um plano que pode colocar em choque nossas expectativas sobre um personagem.

Quando Qyburn oferece a Bronn – que em um bordel não parece não estar muito preocupado com o que há de vir – ouro em nome da rainha para que ele vá ao Norte e mate Tyrion e Jaime com uma besta, ficamos surpresos. Não com ela, mas com a informação inusitada, e curiosos com o que ele pode vir a fazer.  Os irmãos Lannister são muito ligados ao Senhor da Água Negra e isso pode gerar um intenso conflito moral. Nos resta saber como e quando ele chegará ao Norte. E o que ele vai fazer, é claro.

O ato de redenção de Theon Greyjoy é outro momento importante aqui. Sua chegada ao navio onde a irmã está presa não é explicada, apenas acontece. Mas, colocar Yara nas Ilhas de Ferro paga uma dívida e lhe dá carta branca voltar ao Norte e lutar pelos Starks. Ao que parece, uma redenção heroica se aproxima para Theon, pagando uma dívida com sua irmã e com os nortenhos.

Além da Muralha

Todos ficamos ansiosos para saber o que aconteceu depois que o Rei da Noite montou em Viserion e destruiu a Muralha. É lógico, Tormund, Beric Dondarrion e alguns poucos que lá em cima estavam conseguiram escapar. Edd e alguns patrulheiros também sobreviveram. Todos esses personagens, juntos, protagonizam a cena mais aterrorizante do episódio. Aquela que nos faz lembrar do que está por vir e que provavelmente esses personagens não chegarão ao fim da história.

A cena carrega um suspense muito bem-vindo, em um episódio que mais aqueceu corações do que gelou espinhas. Mas, o que realmente quer dizer essa mensagem do Rei da Noite? Quando o corpo do jovem lorde Umber, que conhecemos mais cedo em Winterfell, é visto em pedaços na parede, ai sim, voltamos às origens do programa, em uma de suas primeiras cenas. Mas é a única referência que “Winterfell” faz ao piloto. Mas é a mais assustadora.

Os Starks reunidos novamente

A chegada de Jon Snow e Daenerys Targaryen em Winterfell é um daqueles momentos emblemáticos que toda série tem. Também é uma forma de dar consistência visual e exaltar a produção de Game of Thrones, pois toda a sequência é muito bem desenvolvida, fazendo inclusive muitas referências ao episódio piloto, quando Robert Baratheon e os Lannisters chegam ao Norte. Mas, desta vez, temos o exército dos Imaculados e Dothraki, além dos dragões, com uma fria recepção, que depois se torna medo.

Ver alguns reencontros despertam emoções diversas. Como não se irritar com a plenitude – e cara de paisagem – de Bran, que desperta uma incredulidade em Jon? Como não se emocionar com o abraço caloroso de Jon em Arya Stark, seguido de uma enfática afirmação de que ela apoiará a irmã? Como não enxergar que Sansa Stark nasceu para governar e está tendo a melhor leitura da situação?

A tensão e rivalidade entre Sansa e Daenerys é o grande propulsor da intriga política aqui. O poder das escolhas e o papel de um líder são temas que voltariam a ser discutidos, e desembocam em um diálogo mais feroz entre Jon e a irmã mais velha. Ele afirma ter feito uma escolha para salvar o Norte, e por isso renunciou ao posto que os nortenhos lhe concederam. São argumentos ponderados. Mas, como a Lady de Winterfell bem lembrou ao irmão, se aliar à Danny não é mais uma questão prática: “Você dobrou o joelho para salvar o Norte ou porque você a ama?”, perguntou Sansa, sem resposta.

O episódio, sobretudo, utilizou alguns de seus momentos para enfatizar o relacionamento entre Jon e Daenerys, e como ele pode ter consequências. Goste ou não do “Jonerys”, ele está posto e não há nada que possamos fazer. Porém, o passeio de dragão não é coerente com a mitologia dos animais, não se justifica e não faz o menor sentido, a não ser um momento visual que nos dá uma visão panorâmica do Norte de uma forma que ainda não tínhamos visto. Ou, se preferir, um show off. Desnecessário.

A verdade que muda o jogo

Samwell Tarly é um dos personagens que mais evoluiu durante a série. Este sobrevivente improvável chegou ao último ano da série com um segredo de proporções monstruosas, e agora, a revelação se tornou o ponto alto de “Winterfell”. Contar a Jon a verdade sobre seus pais foi o momento mais bem construído do episódio e coube a Sam protagonizá-lo. Isso porque, a cena anterior nos mostrou a revelação de que Daenerys e seu senso autoritário de justiça ao matar seu pai irmão, que não dobraram o joelho, pode não ser o melhor para um líder.

Jon Snow é Aegon Targaryen, sexto de seu nome, e o verdadeiro herdeiro do Trono de Ferro. Não há revelação mais perturbadora para ele do que isso. Isso muda o que ele foi, o que ele é, e o papel que poderá ter daqui para frente. Claro, Snow é desapegado com títulos e nunca houve ambição maior que o seu desejo de justiça e proteção. Porém, o que foi dito nas criptas de Winterfell, com direito a uma referência visual a Ned Stark, modifica o panorama da série.

Outras palavras

* Vários reencontros marcaram “Winterfell”: Arya e Gendry; Arya e O Cão; e Tyrion e Sansa. Esse último rende uma frase do Lannister: “muitos subestimaram você; a maioria deles está morta agora”, ao passo que Sansa o adverte sobre o fato dele acreditar na promessa de Cersei. A boa fé do anão foi superada pelo pragmatismo da Lady de Winterfell e ele parece ter subestimado a si mesmo.

* Uma linha de diálogo é importante para pontuar o momento da série. Varys afirma em uma conversa que os jovens usam o “respeito” como um mecanismo para manter os mais velhos afastados, se referindo a Jon e Daenerys. Não nos esqueçamos no papel dele até aqui.

*  Jaime Lannister chega a Winterfell e vê o menino que ele empurrou da torre de Winterfell no primeiro episódio da primeira temporada. Eles olham um para o outro e os créditos sobem. A expressão de Nikolaj Coster-Waldau diz tudo. É perfeito.

* Eu mal posso esperar para ver o reencontro de Brienne com Jaime. E com O Cão.

GAME OF THRONES 8x01: WINTERFELL
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Resumo:

Primeiro episódio da oitava temporada de Game of Thrones, “Winterfell” serve como apresentação da temporada e situa personagens na trama final.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...