Crítica | ‘Duas Rainhas’ e a força da mulher na liderança

Na 90ª edição do Oscar em 2018, Saoirse Ronan e Margot Robbie concorreram na categoria de Melhor Atriz por seus papeis, respectivamente, em Lady Bird, de Greta Gerwig e Eu, Tonya, de Craig Gillespie. Em 2019, ambas se confrontam novamente no filme Duas Rainhas, de Josie Rourke, que conta a história de Mary Stuart (Ronan), rainha da Escócia e rainha da Inglaterra Elizabeth I (Robbie) em uma fria disputa pelo trono da Inglaterra na segunda metade do século XVIII.

O longa-metragem de época se divide em dois núcleos, um retratando a vida de Mary, que após perder seu marido, rei da França, retorna a Escócia para recuperar seu trono, vigente até então por seu meio irmão. Enquanto isso, a Rainha Elizabeth I, prima de Mary, governa a Inglaterra e tenta manter de forma cautelosa o seu reinado.

A disputa política é feita em grande parte através de cartas e mensagens informais que correm pelos palácios. Entretanto, não há apenas o jogo político como também o âmbito religioso predominante da época. Enquanto Mary é católica, Elizabeth é protestante, bem como o povo que governa. Devido a isso, as ações praticadas por qualquer uma das partes diz respeito não apenas ao território, mas também a religião, já que ambos estão interligados. A equipe que forma o conselho de cada rainha trama então, ações e problemáticas fundamentadas em guerras, casamentos e progenitores para que o lado pelo qual luta saia vitorioso.

O jogo político conduz a trama desenvolvendo assim a personalidade das rainhas. Elizabeth deixa claro o seu propósito em cuidar do reino inglês exclusivamente, de modo que a vida matrimonial não é um dos interesses da mesma, apesar de ser cobrado insistentemente pelos homens que compõem o seu conselho. Racional e objetiva, a rainha procura conselhos apenas em casos urgentes, ainda assim, tende a tomar decisões sozinha em todos os âmbitos de sua vida.

Já Mary Stuart é uma jovem passional, o oposto de Elizabeth. Apesar disso, ao chegar na Escócia até então governada por seu meio-irmão, toma o seu posto de rainha e passa a vigorar suas decisões por conta própria, agindo na maioria das vezes de forma precipitada.

Ambas as personagens possuem personalidades opostas, o que nos auxilia a traçar suas ações subsequentes. Mary é uma mulher impulsiva e intensa, ao ter sua ambição voltada a um foco específico, não demanda de muito planejamento para que tente alcança-lo.

Saoirse Ronan está excelente no papel, que por vezes lembra sua personagem em Lady Bird, em um tom menos caótico. Sua extravagancia contrapõe o modo de vida de Elizabeth I, reclusa e introspectiva, tende a programar suas ações visando as possíveis consequências. Já Margot Robbie, surpreende ao trabalhar mais com as expressões, dando vida a uma rainha que luta para esconder suas fraquezas, fugindo da estigmatização da “mulher frágil”.

Assim como a narrativa, esteticamente os planos também se dividem entre os dois palácios, o de Elizabeth e o de Mary. O palácio de Elizabeth costuma ser mais aberto e claro, casando assim com os ideais da rainha, que possui em mente seus perceptíveis fundamentos a serem seguidos, mesmo que para isso tenha que abrir mão de seu lado afetivo. Já o castelo de Mary Stuart possui cenas em locais fechados, mais escuros e com um maior número de pessoas ao seu redor, sinalizando assim a quantidade de pessoas envolvidas em suas decisões, mesmo que em parte as escolhas fossem pessoais, houvesse uma grande influência externa.

Apesar de desenvolver a personalidade das rainhas através da disputa político religiosa, é também por meio dela que o filme apresenta as semelhanças entre essas mulheres. Tanto Mary quanto Elizabeth precisam tomar conta de seus reinos com a mesma intenção: a sua preservação e a conquista de novos aliados. Portanto, vivem constantemente semelhantes situações, são rodeadas por homens que as ajudam a manter os negócios, bem como, vivem cercadas por homens que querem tomar seus postos.

O limiar entre a confiança e a desconfiança é um quesito presente durante toda a vida dessas mulheres e suas ações diante dessas situações é o que distingue uma da outra. Enquanto Mary se arrisca ao dar uma nova chance ao amor, após perder seu marido, se envolvendo com um lorde que acabara de conhecer, Elizabeth prefere viver sozinha, sem assumir o relacionamento que vive, para que isso não influencie nem ao reino, nem a si mesma.

Indicado ao Oscar em 2019, Duas Rainhas conseguiu duas indicações, uma na categoria de Melhor Figurino para Alexandra Byrne, outra em Melhor Maquiagem. As indicações ressaltam o que o filme possui de maior atributo, como na maioria dos filmes de época, remete ao passado a partir do ambiente através dos palácios presentes no longa, e do figurino desde os longos vestidos às roupas de batalha dos cavaleiros. Destaque para a maquiagem de Elizabeth I ao ser afetada pela varíola e a progressão de sua melhora ser usado como indicativo para a passagem do tempo.

Duas Rainhas apresenta o embate entre duas grandes rainhas do século XVIII, revelando o protagonismo das mulheres em meio a um grupo de homens que tentam guia-las, mas são repreendidos. A produção de arte nos leva de fato à época, entretanto, o filme não é mais que isso, uma boa adaptação cinematográfica, que apesar de ser interessante, não marca.

DUAS RAINHAS | MARY QUEEN OF SCOTS
3

RESUMO:

Duas Rainhas não surpreende no seu gênero, mas é um bom filme sobre a força da mulher na liderança representada por duas grandes figuras históricas.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.