Crítica | Adaptação do sucesso literário, ‘After’ não se arrisca e procura agradar somente aos fãs

Parece que se inicia uma nova fase de adaptações literárias juvenis no cinema. Após o sucesso estrondoso de Crepúsculo Jogos VorazesAfter chega discretamente para tentar conquistar seu espaço e o novo posto de saga juvenil a levar multidões aos cinemas. Mas, quando digo que se inicia uma nova fase, me refiro as adaptações de obras literárias que, anteriormente, eram fanfics na internet. 

Fanfics, para quem chegou de paraquedas por aqui, é uma expressão inglesa abreviada de fanfiction, que significa “ficção de fã”. Em outras palavras, são histórias ficcionais que fãs escrevem baseando-se em personagens/universos de algum filme/livro, ou até mesmo em cima de ídolos musicais e celebridades.  

Cinquenta Tons de Cinza, apesar de não ser uma obra juvenil, foi quem deu o ponta pé inicial para que a ideia de trazer After às telonas se iniciasse. Enquanto a história de Christian Grey Anastasia Steele era baseada em CrepúsculoAfter surgiu ao trazer Harry Styles, integrante da boyband One Direction, como personagem principal. 

A história do filme é bem simples (e bem sem sal, por sinal). Tessa (Josephine Langford)é uma jovem de 18 anos que acaba de deixar a casa de sua mãe para ingressar na universidade. Inocente, dedicada aos estudos, e com seu futuro praticamente já traçado, ela terá a vida posta de cabeça para baixo após conhecer Hardin (Hero Fiennes-Tiffin),o típico bad boy popular de faculdade.  

Como visto, a história é o mais famoso clichê adolescente, o que justifica o sucesso de vendas da série de livros. Sim, é uma série. De 6 livros. Porém, esse sucesso vem lado a lado de uma polêmica: o relacionamento abusivo. O romance de Hardin e Tessa é recheado de momentos controversos onde o jovem abusa do psicológico da garota ao agredir ela verbalmente, tomar diversas atitudes extremamente tóxicas e ser bastante explosivo. 

No filme, e aqui está o ponto positivo dessa adaptação, isso tudo foi amenizado. Aqui, o relacionamento dos dois é modificado para não repercutir negativamente do mesmo jeito que os livros repercutiram e repercutem até hoje. Hardin continua com a personalidade explosiva, porém não chega a afetar diretamente Tessa. Ele está bastante controlado, e seus momentos explosivos acontecem enquanto a garota não está por perto. 

Porém, os pontos positivos param por aí. A diretora Jenny Gage não procurou abordar a história de uma forma que ficasse mais palpável para o público em geral. A direção é fraca e pouco criativa. As escolhas para tentar criar conexões com o público são as mais óbvias possíveis, fazendo com que 70% das cenas sejam embaladas com alguma música pop. 

Os atores, apesar de serem simpáticos fora das telas, também não convencem e não possuem química juntos. Hero vai agradar aos fãs com seu sotaque extremamente charmoso e chamativo, mas atuando não surpreende. Nos momentos em que exigem um pouco mais de expressividade ele não consegue entregar e, no fim, acaba desperdiçando a oportunidade de se destacar além do núcleo de fãs dos livros.  

Josephine se sai um pouco melhor. Irmã da talentosa Katherine Langford (a Hannah Baker, de 13 Reasons Why), ela entrega uma performance contida, de acordo com a personalidade da personagem, porém sem nenhum atrativo. Há um talento escondido ali, mas não foi com este papel, ou pelo menos, com esse roteiro que ela conseguiu mostrá-lo. 

Os diálogos e momentos românticos beiram ao ridículo, e ao invés de emocionarem a plateia, causam somente risos involuntários. É difícil levar a sério o romance dos dois quando tudo parece ter sido tirado das primeiras ideias que vieram da diretora e roteirista. Eles não procuram dar um pop visual a história, igual, por exemplo, Cinquenta Tons fez. O material é precário, e era necessário algo para deixar a experiência com o filme não ser a mais cansativa possível.  

Para não ser cruel ao extremo, a cena que envolve o casal em um lago é até interessante pelo rumo que toma, mas não vai além disso. O mesmo pode ser dito das esperadas cenas picantes. Presentes nos livros, mas na tela elas são poucas e simples, perdendo a oportunidade de criar algo sensual. Parece que a diretora estava com medo do filme ganhar uma classificação etária mais alta, o que impediria grande parte dos fãs de poderem assistir nos cinemas. É uma pena, devo dizer. 

Ao final, After procura agradar somente aos fãs dos livros. Mas, corre o risco de não conseguir agradar nem a este público. É pouco inspirado, e dirigido no modo automático. Era necessário um certo carinho para trazer o projeto para o cinema, porém ele é inexistente. Agora só nos resta esperar se a bilheteria será suficiente para que as continuações sejam confirmadas. E, caso isso aconteça, tomara que o próximo diretor não tenha a mesma falta de interesse que Jenny.
 
Iria falar que é preferível ficar somente com os livros, mas ao lembrar do relacionamento abusivo que é retratado por lá sem o menor pingo de cuidado e responsabilidade, talvez seja mais vantajoso ficar com nenhum dos dois.

AFTER
1.5

RESUMO:

After é mais um romance adolescente que procura agradar somente a quem já conhece a história. Com atuações fracas, e um roteiro que gera somente risos involuntários, a adaptação da obra juvenil é que corre risco de não alavancar se o amor dos fãs não for o suficiente.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.