Crítica | Mesmo sem muita originalidade, ‘Durante a Tormenta’ é envolvente e intrigante

O texto abaixo contém spoilers de ‘Durante a Tormenta’

Vera (Adriana Ugarte) é feliz ao lado de seu marido e de sua filha. Durante uma tempestade, prevista para durar 72 horas, ela acaba entrando em contato com um jovem, Nico Lasartes ( Julio Bohigas-Couto), em 1989, e o salva da morte. Isso acaba alterando a realidade de Vera, onde sua filha não nasceu e ela não conheceu seu marido.

Durante a Tormenta, dirigido por Oriol Paulo, é uma ficção científica que trabalha bem a questão da viagem no tempo. Na verdade, esse termo nem seria correto de ser utilizado, pois ocorre um contato entre duas pessoas de temporalidades diferentes e, a partir de uma alteração num determinado evento, a realidade dessas duas muda. Ninguém chega de fato a viajar para o passado ou para o futuro. Mas as regras são as mesmas nesse filme. É possível notar também um pouco de suspense à la Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock.

O longa espanhol da Netflix bebe muito da fonte de outras ficções científicas. A referência mais marcante é Efeito Borboleta, estrelada por Ashton Kutcher. Embora, e isso precisa ficar claro, o filme de Oriol seja muito melhor e mais consistente do que o citado. Além disso, também lembra a série alemã Dark.

Nesse ponto, é interessante pensar um pouco em Durante a Tormenta como uma história americanizada que se passa na Espanha. A estrutura narrativa lembra bastante a de um longa de Hollywood. Talvez isso faça sentido por ser um produto da plataforma de streaming que foi divulgado para o mundo todo e essa estruturação seja o que mais chame a atenção dos consumidores. Ou seja, a história segue as regras clássicas de uma ficção científica dos norte-americana, não apresenta algo original.

O desenvolvimento do roteiro apresenta alguns problemas, mas, no geral, tem um saldo positivo. A relação entre Vera, no presente, e Nico, em 1989, é feita de maneira criativa. A cena da câmera e da TV, por mais que tenha um certo problema com o ritmo, que será comentado mais abaixo, é muito boa. A história, escrita por Oriol e Lara Sendim, também presta um bom serviço no que diz respeito à elaboração das diferentes linhas temporais.

São três linhas no total. A primeira é o tempo comum, aquela na qual Vera vive com a filha e, consequentemente, a que Nico morre; a segunda é a que mostra os eventos do ano de 1989, quando Nico sobrevive após o aviso de Vera; a terceira é a linha criada pelo inspetor Leyra (Chino Darín) para que Vera consiga atingir o seu objetivo sem que Nico necessariamente morra.

As duas primeiras linhas temporais funcionam muito bem, fazem bastante sentido. Essa primeira metade do filme é intrigante e envolvente. Já na terceira linha, a história escorrega um pouco. Algo frustrante é a resolução do crime que ronda a história. As questões ficam um pouco soltas e são resolvidas de maneira apressada. Com isso, os roteiristas utilizam o recurso do personagem que explica tudo de maneira gratuita, que seria o inspetor Leyra. É quando o filme perde força, deixando uma ponta ou outra soltas, o final acaba ficando um pouco confuso.

Um aspecto que deve ser elogiado é o trabalho feito em relação à consciência de Vera. Com a alteração das linhas temporais, a personagem não perde a noção de que as coisas estão diferentes. No entanto, é como se a vida dela em cada temporalidade não tivesse parado. Por exemplo, quando a tempestade gera o contato entre a protagonista e o Nico.

Consequentemente, nas alterações de Vera na segunda linha temporal, ela é uma neurocirurgiã famosa e não tem filha, mas, mesmo assim, ela se lembra de sua vida, apresentada ao público na primeira linha. Pensar um pouco sobre isso faz com que o final do filme ganhe um sentido e fecha bem o roteiro. Há uma passagem muito marcante de acordo com esse raciocínio, na qual Vera diz: “É impossível que todas as minhas memórias sejam uma distorção.”

Adriana Ugarte é o grande destaque desse longa. Sua trama é mais dramática. Ela tem o objetivo de reencontrar a sua filha e voltar a sua vida normal. E é só isso. A personagem não tem tanto espaço para crescer, até mesmo, por causa da situação desenvolvida ao redor dela. Vera sofre com o ritmo dado à história. Porém, no geral, ela tem uma ótima atuação.

Também estão no elenco Álvaro Morte (o Professor de La Casa de Papel) e Chino Darín. Eles fazem um bom trabalho dentro do que lhes é possível. O roteiro também falha com os personagens dos dois por deixar pontas soltas. Ademais, são bastante previsíveis.

O ritmo imposto ao filme, em certos momentos, funciona muito bem, porque deixa a história mais ágil e, em outros, nem tanto, pois não permite que alguns pontos sejam desenvolvidos com calma. A ponto de exemplificação,  a cena do contato entre Vera e Nico, citada acima. É uma das melhores cenas do filme, mas acontece muito rápido e as ações dos personagens acabam ficando exageradas. Talvez fosse o momento em que a edição devesse pisar no freio. Vera se envolve com a situação do jovem de maneira muito rápida. Também é válido comentar sobre a trilha sonora, que funciona muito bem, ora estrondosa, ora com tons de suspense.

Durante a Tormenta é um bom filme. Não chega a ser algo original dentro do gênero de ficção científica e isso não é um problema. Apresenta um roteiro envolvente, intrigante e bem desenvolvido até certo ponto. Alguns aspectos são previsíveis, o final é um pouco confuso e deixa algumas pontas soltas, mas, num todo, tem um saldo positivo. É aquele típico filme para se assistir num fim de semana e discutir com os amigos sobre suas teorias.

DURANTE A TORMENTA | DURANTE LA TORMENTA
3.5

RESUMO

Durante a Tormenta apresenta uma história boa e intrigante. Por ter um tema como viagem no tempo, é capaz de gerar discussões saudáveis entre os amigos.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.