Crítica | ‘O Tradutor’ conta uma importante e emocionante história real

Exibido no Festival de Sundance de 2018, O Tradutor, novo filme do (queridíssimo) Rodrigo Santoro, é uma parceria entre Cuba e Canadá, que trazem às telas uma importante história real de um professor de literatura russa, Malin (Santoro), que foi designado pelo governo de seu país a ajudar na comunicação entre pacientes vítimas da tragédia de Chernobyl e médicos de um hospital.

Para relembrar, Chernobyl foi um desastre nuclear (até hoje, o maior da história) ocorrido em 1986 na Ucrânia, onde um reator causou uma enorme explosão que liberou resíduos tóxicos 100 vezes mais radioativos que a força combinada de duas bombas atômicas lançadas no desastre em Hiroshima e Nagasaki.

Tendo dito isso, o filme, dirigido pelos próprios filhos de Malin, Rodrigo Barriuso e Sebastián Barriuso, se inicia contando sobre o momento político e econômico do país daquela época. Ali, os diretores já dão contexto para um ponto que será muito importante no futuro da história: as dificuldades da família após a designação de Malin para trabalhar como tradutor.

Ao chegar no hospital pela primeira vez, Malin é colocado para trabalhar com a ala infantil. Contra sua vontade, e após uma tentativa de trocar de ala com outro tradutor por conta do desconforto ao encontrar crianças naquele estado, ele tenta se manter forte para exercer seu trabalho e, aos poucos, vai se envolvendo emocionalmente com os pacientes. Ele acaba exercendo não somente a função de tradutor, mas também de professor: lendo histórias e criando atividades para que ajudem as crianças a passarem por esse momento.

Quanto mais Malin se envolve no trabalho, mais sua vida pessoal desmorona. Ele troca o dia pela noite para estar no hospital, o que ocasiona em estar menos presente para sua esposa e filho. E, quando está presente, menospreza o trabalho de sua mulher (Yoandra Suárez), a deixando para cuidar sozinha de todas as questões familiares. Para ele, qualquer assunto que não seja as crianças – especialmente Alexi (Nikita Semenov), por quem ele se afeiçoa mais – é, praticamente, irrelevante.

A crise econômica, mostrada no início do filme, bate na porta da família, ocasionando assim, diversos problemas a mais na vida de Malin. Problemas os quais ele, particularmente, não sabe como resolver por estar tão envolvido em sua nova realidade.

Para o filme, Santoro precisava aprender a língua russa em um curto espaço de tempo. Afinal, seu personagem é um professor de literatura russa designado a traduzir a língua para o espanhol para que os pacientes possam se comunicar com seus médicos. Não havia como fugir dessa obrigação. Então, ele teve que aprender o sotaque e a língua (uma das 3 línguas mais difíceis de falar no mundo) em apenas 4 semanas. O que foi um grande desafio, segundo o próprio ator. Para isso, ele criou um “mapa fonético”, onde ele escrevia a exata forma de pronunciar as palavras para tentar facilitar a memorização. Foi preciso dar o máximo de si e não apenas decorar e saber o que significava suas falas em russo, mas também fazer o mesmo com as falas de seus parceiros em tela. Não era possível ele dar vida a este personagem sem saber o que estava sendo dito para ele em cena.

O esforço é comprovado. Santoro entrega uma excelente performance. Delicada, mas ao mesmo tempo intensa. É perceptível no rosto do ator – o que também é fruto do bom trabalho de maquiagem – o peso que ele está sentindo ao ver e acompanhar diariamente a luta dessas crianças. Não é preciso dizer nada. Apenas observar. O que torna o trabalho de Santoro ainda melhor e especial.

Em conjunto vemos Gladys, interpretada de forma brilhante por Maricel Álvarez. Enfermeira da ala infantil que, constantemente, precisa controlar suas emoções ao estar ainda mais de frente com a tragédia que Chernobyl causou. Contracenando, em grande parte, ao lado de Rodrigo Santoro, Álvarez esbanja talento ao precisar conter os sentimentos da personagem em viés do profissionalismo. Mas que também é visto em seu olhar que aquilo não deixa de afetá-la. A cena em que Malin encontra Gladys chorando em um quarto de hospital é rápida, porém muito significativa.

A direção de Sebastián e Rodrigo Barriuso dá um olhar muito singelo e sincero para a vida de seu pai. Eles não procuram isentar ele de seus erros, e sempre tentam dar sua maior atenção ao quanto aquele trabalho o afetou emocionalmente. Além disso, eles procuram também focar em mostrar algo que poucos sabem que ocorreu com as vítimas de Chernobyl.

Ao final, O Tradutor traz uma importante e emocionante história real, que se torna ainda mais especial por ser contada pelo olhar de duas pessoas que viveram juntamente de Malin: seus próprios filhos. É um olhar delicado e singelo de uma história pesada, mas ao mesmo tempo bastante humana, e que merecia ser contada.

O TRADUTOR | UN TRADUCTOR
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RESUMO:

O Tradutor se destaca por trazer um olhar delicado e humano para uma história pesada, mas que, ao mesmo tempo, merecia ser contada.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.