Crítica | ‘The Walking Dead’ se reinventa com uma 9ª temporada elogiável

Que as últimas temporadas de The Walking Dead estiveram longe de ser um consenso, ninguém duvida. Mesmo sendo um dos programas de TV mais assistidos do mundo – e a série de TV mais popular e pirateada de 2018 com a ausência de Game of Thrones – os índices de audiência em queda eram sintomas de que algo não caminhava muito bem.

Como se não bastasse tudo isso, a chegada da nova temporada foi marcada pela saída de Andrew Lincoln, protagonista da série desde o seu lançamento, em 2010; e Lauren Cohan, membro do grupo principal desde o segundo ano da série. Maggie e Rick eram personagens queridas, e talvez, quando o antigo showrunner Scott Gimple decidiu matar Carl Grimes na metade do oitava temporada, não imaginasse o quanto essas perdas, em sequência, teriam impacto negativo. A questão era: O que vem depois?

Felizmente, Angela Kang assumiu a série nesta temporada. O nono ano de The Walking Dead teve a árdua missão de lidar com as saídas e reorganizar a sociedade pós-apocalíptica. Ao lidar com os acontecimentos que tiraram Rick da série – mas não deste universo já que retornará em três filmes – a série mostra que os erros do passado finalmente serviram para um aprendizado. Sem enrolação, Kang conseguiu nesta primeira metade realizar dois saltos temporais, resolver a questão do antigo protagonista, introduzir novos personagens e mostrar uma nova e talvez mais assustadora ameaça até aqui.

Todos esses elementos presentes na nona temporada foram colocados de forma balanceada. Houve terror e ação, sim, mas o drama e a busca pela sobrevivência ganharam um amplo destaque. As condições mais rudimentares e a escassez de recursos deram uma nova cara ao programa, com uma aura mais realista nesse apocalipse zumbi que se aproxima de uma década neste universo. Além disso, a convivência entre as comunidades, inicialmente abalada e posteriormente restabelecida, fez com que a política se tornasse um elemento bem-vindo ao seriado.

Jackson Lee Davis/AMC

Duas temporadas em uma

Os primeiros cinco episódios serviram para contextualizar o momento pós-Negan, que foi o primeiro passo para desvincular a imagem da série tão desgastada pelas temporadas 6, 7 e 8, com o conflito interminável entre Salvadores e Alexandria/Hilltop/Reino. Saem as armas e carros, entram carroças e lanças. Essa primeira leva de episódios soube preparar o terreno para a saída de Rick Grimes de forma orgânica, dando um primeiro salto no tempo e fazendo da tentativa de construção da ponte por parte do xerife um legado para o futuro.

É claro que a decisão em manter Rick no universo pós-apocalíptico trata-se de uma questão comercial e, quem sabe, além dos filmes, uma possibilidade de retorno em um futuro não muito distante seja considerada? Sua morte teria sido mais coerente, de certa forma. No entanto, dado o histórico recente, era de se supor que The Walking Dead  optasse por promover esse desfecho no fim da primeira metade, o que felizmente não aconteceu. O “cliffhanger” que poderia irritar mais uma vez o público não foi deixado para especulação de três meses e logo no episódio 6, novos personagens e uma passagem de tempo de seis anos nos mostraram que o mundo e a sociedade que conhecemos agora é outro.

Desta forma, nos episódios seguintes, de 6 ao 8, já se configura um formato em que as comunidades ganham destaque em conjunto. O novo grupo, formado por Magna, Luke, Yumiko, Connie e Kelly chega não apenas para arejar o elenco, mas para colocar em foco o quão fechada as comunidades se tornaram, mostrando em contraponto a desconfiança com que os próprios personagens principais entraram para o grupo principal, como Michonne, Tara, Eugene e Rosita – algo que voltaria a ser discutido mais a frente com a chegada de Lydia.

Além disso, ao colocar Henry em um papel de destaque, e introduzir Judith Grimes como uma personagem desatacada, a série adapta de forma criativa o papel exercido por Carl nas HQs. Ele viria a ser no futuro uma peça-chave para os eventos mais devastadores da 9ª temporada, enquanto a menina é parte importante do processo de construção de um novo Negan, sempre interpretado de forma sagaz por Jeffrey Dean Morgan.

Gene Page/AMC

Os Sussurradores deixam a sua marca

Com o fim da midseason finale, Jesus é morto. Se por um lado, o personagem já não estava tendo grande destaque na série, por outro, isso desagradou fãs por se tratar de alguém com carisma para assumir a liderança em Hilltop. Porém, analisando a longo prazo, esta baixa serviu para colocar os Sussurradores como grande ameaça logo de cara, e nada melhor para isso do que uma perda significativa. Além disso, a comunidade seria a mais afetada no futuro, em termos de liderança.

Um dos grandes destaques de toda a temporada é Samantha Morton. A atriz responsável por interpretar Alpha colocou na linha de frente uma mulher que supera a maior parte dos vilões que já passaram pela série. Em uma entrega tanto física quanto cênica, Morton é responsável dar vida a uma vilã construída com background, motivações e muita psicopatia. Além disso, o seu grupo acrescenta a imprevisibilidade como peça chave para a tensão. Se o horror provocado pelos zumbis, cada vez mais deteriorados vinha sendo cada vez menor, agora, o bando é sem dúvida um grande perigo.

De todas as consequências já sofridas pelo grupo principal – antes chamaríamos de grupo de Rick – a que os Sussurradores impuseram foi a mais chocante e trágica. “The Calm Before”, antepenúltimo episódio da série, adapta um momento devastador do material de origem, matando personagens relevantes e que vinham crescendo em posições de destaque como Tara (líder), Enid (médica) e Henry (o “príncipe”). Uma decisão acertada em todos os sentidos, abalando muito personagens e sendo um dos melhores episódios da série por toda a sua condução e desfecho, e não apenas pelo choque. Não torná-lo o fim da temporada deu a possibilidade do público e personagens assimilarem o golpe e organizarem as peças no último episódio, que embora tenso e esteticamente impecável, foi mais calmo (algo já corriqueiro em Game of Thrones por exemplo).

Jackson Lee Davis/AMC

Novos protagonistas

O vácuo de liderança provocado pela saída de Rick era natural. Nos primeiros episódios sem aquele que foi “a cara” da série por tanto tempo, havia uma noção mas não se sabia ao certo quem iria de fato ocupar o posto e se isso iria funcionar. Michonne (que ganha um flashback impactante e brutal), Daryl e uma poucas vezes tão fragilizada Carol – e eventualmente Ezequiel – catalisaram a liderança das comunidades em diferentes aspectos.

O episódio das estacas deixa bem claro, no entanto, que Norman Reedus é a pessoa a ser procurada se alguém disser “me leve até o líder”. No entanto, essa não é uma liderança nata e como os episódios tem ido em muitas direções, tanto os novos personagens quanto os antigos ganharam mais espaço com isso, sem a necessidade de um episódio pra si. É o caso, por exemplo, de Gabriel, Eugene e Siddiq.

Mais do que um protagonismo, no entanto, a luta pela sobrevivência volta a ser o centro de The Walking Dead. Um inverno rigoroso, escassez de alimentos e um modo de vida mais arcaico fazem com que, mais do que nunca, as pessoas precisem colaborar e se unir, seja para construir uma ponte ou se abrigar em volta de uma lareira. Do início ao fim da nona temporada, pouco mais de seis anos se passam. E durante esse tempo, tanto a temática do episódio 1 quanto o 16 conversam entre si.

Jackson Lee Davis/AMC

O grande acerto da 9ª temporada de The Walking Dead foi aprender com os erros do passado e direcionar sua atenção para o futuro, lidando com as perdas de maneira prática e objetiva. Sem Rick, a dúvida inicial foi substituída pela certeza de uma leva de bons episódios que organizaram as peças para uma 10ª temporada. Com os devidos méritos para Angela Kang, a 10ª tem tudo para seguir o mesmo caminho.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...