Crítica | ‘Estrada Sem Lei’ e o outro lado da história de Bonnie e Clyde

Entre 1931 e 1936 a região central dos Estados Unidos sofreu com os ataques e assaltos a mão armada do casal de criminosos formado por Bonnie Parker e Clyde Barrow. Ambos marcaram a história tornando-se não apenas um dos casais mais emblemáticos da vida real, como também do cinema. Bonnie e CLyde (1967) de Arthur Penn, retrata a aventura que o casal fugitivo viveu durante a época da Grande Depressão. Entretanto, pouco se sabe o que foi feito do outro lado da história, como ocorria, portanto, a caçada da polícia pelos foragidos. Estrada Sem Lei, de John Lee Hancock retrata então a busca de dois Texas Rangers pelo casal durante os anos 30 nos Estados Unidos.

Kevin Costner interpreta Frank Hamer, um Texas Ranger aposentado que é procurado pelo governo para iniciar uma caçada ao casal que mata policiais no interior dos Estados Unidos, além de praticar diversos assaltos. Para iniciar sua operação, Hamer vai em busca de um antigo colega de profissão, Maney Gault interpretado por Woody Harrelson, com quem viveu grandes momentos de sua vida. A dupla faz parte de uma antiga patrulha nomeada de Texas Rangers, equipe policial criada em 1823 que aplicava a lei com jurisdição em todo o estado do Texas nos Estados Unidos da América.

O filme retrata os anos 30, época na qual o país passava pela crise de 1929, período de grande de recessão econômica. Durante a temporada, os americanos viviam uma onda de desemprego, fome e migração em busca de uma vida melhor. A desigualdade social vivida na época é abordada no filme através das condições materiais expostas pelos cidadãos das diversas cidades pelas quais os Rangers passam.

O design de arte por um lado constitui uma pacata vida social para aqueles que possuem um poder aquisitivo maior, as mulheres que andam pela rua utilizam o que está na moda, trajes que são usados por Bonnie Parker. Em contrapartida há os grupos de migrantes que, em precárias situações, se mudam de suas casas para acampamentos comunitários onde encontram meios de sobreviver com outros em semelhante situação. A partir daí é possível entender de onde surge a admiração dos civis pelo casal de criminosos. No filme, Bonnie, Clyde e sua gangue assaltam bancos que lucram com o dinheiro do povo e poupam os menores comerciantes.

Em contrapartida, os Rangers vão em busca do casal seguidos pela conduta moral. Ao matar policiais, ajudar alguns amigos a escaparem da prisão e cometerem assaltos os mesmos estão violando inúmeras leis, e a única forma de evitar um número maior de crimes seria a sua captura. A grande comoção social para com o casal tende a dificultar o trabalho dos Rangers, entretanto, o filme se afasta durante todo o tempo em definir quem é o vilão e quem é o mocinho, apresentando durante a trajetória os ideais de ambos os lados e utilizando desse embate para criar a tensão.

Já velhos e aposentados, as cenas de perseguição apresentam o efeito do tempo nos personagens. Costner interpreta um homem apático em sua residência, que ao retornar para a estrada torna-se o autoritário servidor da lei. Sério e introspectivo, conduz a viagem junto ao seu parceiro de maneira formal, que apenas com a influência de Gault – um pobre senhor com ânsia de aventura – se abre para a experiência e para a forma diferente de pensar do mesmo.

Bonnie e Clyde além de terem sido representados no cinema em 67 por Faye Dunaway e Warren Beatty, foram utilizados também na série de 2013 Bonnie & Clyde, com Holly Grainger e Emile Hirsch nos papeis dos protagonistas. O que ambas produções fazem de diferente de Estrada Sem Lei é criar uma representação particular do casal. Em ambos produtos audiovisuais os dois são protagonistas anunciados, possuindo atributos físicos claros que ajudam a compor um imaginário sobre essas pessoas.

Já em Estrada Sem Lei, Bonnie e Clyde são apenas alegorias utilizadas através da narrativa. Quando são apresentados ao público, aparecem de forma desfocada ou de outros ângulos que não explorem muito suas faces como de costas, de lado, mas nunca de frente, facilitando para que nós não nos prendamos às figuras dos “fora da lei”, que já possuem um espaço no imaginário coletivo criado através das figuras de Dunaway e Beatty. Isso contribui com a maneira pela qual a narrativa é conduzida, de forma que os mesmos não sejam o foco principal do filme.

Um bom elenco coadjuvante compõe o cenário que retrata os anos 30, bem como a excelente trilha sonora de Thomas Newman que se adequa ao meio faroeste, conduzindo o telespectador ao passado americano. Com alguns personagens caricatos, mas bem interpretados e com a chave de possuir o outro lado da história, Estrada Sem Lei faz jus aos personagens que aborda.

ESTRADA SEM LEI | THE WIGHWAYMEN
4

RESUMO:

Estrada Sem Lei não se sustenta na fama de seus personagens, mas cria uma nova identidade para o outro lado da história de Bonnie e Clyde através de boas performances e excelente composição artística.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.