Crítica | ‘Dumbo’ cativa pelo seu realismo e graciosidade

Desde o lançamento de Malévola (2014) ocorrido há 5 anos, a Disney descobriu um novo filão para explorar, os live-actions, ou seja, a proposta é refilmar os desenhos animados de maior sucesso em formato de filme, com atores de carne e osso. Muitos filmes como A Bela e a Fera e Cinderela, no fundo, foram apenas remakes encenados por atores, sem quase nenhuma mudança no roteiro. Dumbo

Dumbo (2019), lançado nessa última quinta-feira (28), além de possuir diferenças significativas do clássico desenho, amplia sua história. Nessa versão, há um acréscimo de personagens, ainda que a história continue girando em torno de Dumbo. Há uma preocupação do diretor em mostrar como o estranho filhote de elefante afetou as suas vidas.

No longa, Hoit Farrier (Colin Farrell) retorna da guerra sem o braço esquerdo e se depara com a notícia do falecimento recente de sua esposa, devido a uma doença. Seus filhos passaram a ser cuidados pelo dono do circo, Medici (Danny DeVito), em que trabalhava quando era um domador de cavalos.

Ao tentar regressar para a sua antiga função, Hoit descobre que os cavalos foram vendidos, o circo estava falido e sem qualquer perspectiva de recuperação. Entretanto, o dono arriscou em um novo investimento, uma elefante fêmea grávida, a Senhora Jumbo. Hoit então foi encarregado em cuidar dela e dos outros paquidermes. Poucos dias depois, a elefanta dá a luz ao seu filhote, um elefantinho extremamente orelhudo.

A princípio o dono do circo fica estarrecido e não sabe o que fazer com o estranho filhote. Já filhos de Hoit se identificaram com o distanciamento entre a elefanta e o seu filhote, devido principalmente a perda recente da mãe deles e assim passaram a conviver mais com o elefantinho. Aos poucos perceberam um dom único nele, que depois, passaria a ser explorado pelo ganancioso “show business”.

O diretor Tim Burton acerta no tom do filme e nos efeitos especiais, sem perder a meiguice do elefante protagonista e sem deixar de fazer algumas referências ao desenho, como na cena dos elefantes nas bolhas de sabão. A narrativa foi construída em um formato realista, não há animais falantes ou um ratinho conselheiro.

O circo é tratado de uma forma bucólica e nostálgica, nota-se na expressão dos artistas uma certa tristeza e a lamentação da perda dos dias gloriosos. No começo do filme, as cenas são mais escuras, contribuindo para um clima mais depressivo.

Quando o talento de Dumbo é descoberto, a fotografia passa a ser mais iluminada e colorida. A interpretação da maioria do elenco é comum em um todo, sem grandes destaques, com exceção de Danny DeVito e Michael Keaton, que apesar de interpretarem personagens caricatos, obtiveram ótimas atuações, além de um grande carisma. Por outro lado, Colin Farrel obteve um desempenho fraco e apagado assim como Eva Green.

Dumbo é uma ótima metáfora referente a maneira como a sociedade enxerga e lida com o diferente. Em um primeiro momento suas orelhas são vistas como uma bizarrice, um erro e um desvio da natureza. Entretanto, a sua maior deformação se revela o seu maior trunfo. Como o próprio apresentador fala em um dado instante, já se viu muitas coisas voarem, até um peixe, mas um elefante era algo inimaginável. Ironicamente, Dumbo antes rechaçado e depois se torna uma lenda e uma atração imperdível, o que despertou então o interesse de Medici e Vandemere.

O Milagre a Deficiência

Freddie Mercury foi considerado um dos maiores vocalistas de todos os tempos. Sua voz atingia quatro oitavas e uma frequência sonora praticamente inumana. Constatou-se então que grande parte da sua habilidade era proporcionada por uma deficiência na voz.

Garrincha, um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, constrangia seus adversários com os seus dribles desconcertantes e suas pernas eram completamente tortas. Sorte daqueles que não se preocupam em permanecer dentro de uma norma e conseguem transformar os seus defeitos em talentos.

DUMBO
3.5

RESUMO:

Colocando em foco o milagre da deficiência, a nova versão de Dumbo, do diretor Tim Burton, cativa pelo seu realismo e graciosidade.

Dumbo – 2018 (Walt Disney Pictures)

 

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.