Crítica | ‘Vox Lux’ retrata a excelente construção de uma artista criada pela mídia

Ator em renomados filmes como Melancolia e Violência Gratuita, Brady Corbet estreou na direção de um longa em 2015, com A Infância de Um Líder. Retornando agora com Vox Lux: O Preço da Fama, Corbet mostra seu verdadeiro potencial ao contar a história sobre a ascensão – e o esvaziamento – de uma estrela do pop.

Após ser uma das únicas sobreviventes de um massacre em sua escola, Celeste tem todos os holofotes voltados para si. Jornalistas, parentes das vítimas ou apenas pessoas comovidas querem ouvir o que a garota tem a dizer. E é em um desses momentos que acontece o estopim do começo da jornada da jovem artista; ao cantar uma música sobre a tragédia que viveu, enquanto um cinegrafista aparece em cena focando a lente da câmera em Celeste – agora pertencente à mídia, cuja canção se torna um domínio público.

Em sua primeira parte, interpretada por Raffey Cassidy, Celeste passa por ensaios, viagens, gravações e escolhas profissionais. Acompanhamos a garota de apenas 14 anos em seu início de carreira e os processos que a levaram à fama, instruída pelo seu agente (Jude Law) e sua irmã mais velha Ellie (Stacy Martin), que compõe todas as músicas da caçula.

Enquanto a imagem de Celeste é formada, Corbet traça a personalidade da garota antes e durante essa transformação, focando no forte laço afetivo com a irmã. Ellie diz possuir uma voz mais potente e escreve todas as músicas responsáveis pelo sucesso de Celeste; apontando realmente a “construção” de uma artista e não alguém que nasce com talento, uma garota a qual a indústria musical tirou proveito da pequena e rápida brecha que teve na mídia.

Porém, o grande mérito do filme (e o quesito que o destaca) é o salto temporal entre a construção de Celeste como artista, aos 14 anos, para os seus 31 anos, quando já possui anos de experiência com o show bussiness, ápice de sua carreira. Outro massacre, desta vez na praia, dá início à segunda metade do filme, sendo também o elemento que liga as duas partes. Ao invés de possuir uma ponte narrativa convencional, esse pulo resulta em tornar as comparações entre os dois tempos ainda mais fortes.

A fase adulta de Celeste, interpretada por Natalie Portman, é marcada pelas expressões caricatas da atriz e pelo desdém da personagem em relação aos acontecimentos que a circundam. Corbet, além de representar uma grande variação de personalidade entre um período e outro, evidencia esse esvaziamento de maneira abrupta; ainda manifestando-o pelo fato de usar a mesma atriz que interpreta Celeste mais jovem no papel de filha da grande artista, colocando-as lado a lado.

E não somente uma artista vazia – sem ao menos conseguir em ter uma conversa normal com a filha em um almoço -, Celeste também se tornou uma pessoa vazia, com um péssimo temperamento e problemas com alcoolismo. O comentário “eu tenho mais hits número um do que revistas padrões de 30 rounds da AK-47” que a artista faz durante uma coletiva de imprensa que sucede o segundo massacre demonstra que ela não possui a mesma sensibilidade de antes; sua humanidade também foi esvaziada.

Por fim, chegamos ao show final que marca o fim de Vox Lux. Uma apresentação longa– até em excesso – que traz marcas do começo da preparação de Celeste para o estrelato. Passos de dança de seu primeiro treinamento com a coreógrafa e repetições de algumas partes de canções quando era mais jovem, como “I, I, I, I (4x)” integram as “novas” músicas mesmo após 17 anos. Mas, se antes estávamos entretidos com a construção da carreira e até com as cenas longas dos ensaios – a cena do show já não proporciona a mesma sensação.

VOX LUX | VOX LUX: O PREÇO DA FAMA
3.5

RESUMO:

Em seu segundo longa-metragem, Brady Corbet retrata uma excelente construção – e esvaziamento – de uma estrela do pop por meio de comparações em um salto temporal de 17 anos em Vox Lux: O Preço da Fama.

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é a forma mais sensível de explorar realidades.