Crítica | ‘Suspiria’ é um remake que se arrisca mas não envergonha o original

Houve bastante estardalhaço quando se ouviu falar que uma nova versão de Suspiriaicônico filme de terror da década de 1970 que serve de referência para o gênero até os dias de hoje — estava sendo produzido. O problema em mexer com obras clássicas é a represália por parte de admiradores mais fanáticos que idolatram tanto a obra original a ponto de se tornarem incapazes de aceitar qualquer influência naquilo que elas tanto apreciam.

Em se tratando de caminhos a serem trilhados, algumas possibilidades existiam diante desse remake. O filme de Dario Argento, o original de 1977, possui algumas características bastante peculiares e expressivas, e que na época impressionaram o público e lançaram tendências nos filmes posteriores.

Argento apostou em uma narrativa bastante imersiva e com uma grande aura de suspense, revelando os segredos aos poucos, para potencializar as surpresas que vão surgindo ao longo do enredo. Outra característica marcante no original é o uso de uma iluminação surrealista, utilizando cores saturadas nas cenas, criando momentos que não necessariamente se parecem com a realidade, mas sim, que adquirem um aspecto de pesadelo, com bastante vermelho saturado enchendo os olhos do expectador para mostrar cenas aterrorizantes regadas a mortes cruéis.

Essa falta de realismo é Argento transportando o expectador para seu cenário fantástico e que se utiliza não do realismo, mas das sensações para contar sua história. E por falar em sensações, seu último trunfo se deve ao uso de uma trilha sonora marcante e que estrategicamente acompanha os eventos que vão acontecendo em tela — de uma maneira não tão sutil em alguns momentos — e proporciona momentos únicos que são reverenciados em escala atemporal.

Contudo, a versão de 2018, dirigida por Luca Guadagnino (Me Chame Pelo Seu Nome), aposta em uma abordagem diferente, sem tentar entregar uma cópia da obra original, mas estabelecendo um novo olhar sobre este cenário, um olhar próprio do diretor.

Em Suspiria, a música não está presente de forma tão incisiva e muito menos as cores. As cores dessa versão são opacas, com bastante presença do marrom e de cores em tons pastéis, entregando uma fotografia melancólica e apática, mas que contém uma beleza própria e uma espécie de energia sombria. Os tons vermelhos estão presentes, mas em momentos pontuais, especialmente quando o sangue é jorrado na tela.

Apesar de a escolha do caminho a ser trilhado pelo diretor tenha sido um acerto e realmente tenha relegado à obra uma personalidade única, o longa escorrega em outros aspectos e um deles é o roteiro de David Kajganich. Apesar de começar muito bem e estabelecendo enigmas interessantes e um cenário misterioso que atiça o expectador, em vários momentos, a trama perde o ritmo.

A premissa se mantém quase idêntica à do filme de Argento, com uma jovem ingressando na academia alemã de dança, apenas para se deparar com estranhos acontecimentos que irão revelar que a escola na verdade é administrada por uma sociedade de bruxas. Enquanto isso, um psicólogo investiga os misteriosos fatos que aconteceram nos últimos tempos envolvendo as bruxas, mas esse é sem dúvida, o arco menos empolgante do enredo, uma vez que essa parte da história além de cortar o ritmo, não cria empatia e nem interesse por parte do expectador, formando uma espécie de “barriga” que não ajuda em nada a história.

No quesito relacionado à atuação dos atores, a personagem principal, a jovem e ingênua dançarina Susie, interpretada por Dakota Johnson, infelizmente não se mostra forte o suficiente para carregar nas costas todo o longa como a protagonista. Apesar de a atriz entregar bons momentos, há cenas em que ela parece bastante insegura.

Já a misteriosa professora Blanc, interpretada por Tilda Swinton, possui uma força ímpar que é lindo de se ver. Além disso, a personagem carrega uma aura de ameaça por onde passa e mesmo em momentos em que ela é cortês e educada, podemos enxergar o perigo que mora por trás de seus olhos.

Outro fator interessante de se mencionar é que Swinton, graças a muita maquiagem, também interpreta o psicólogo responsável pela investigação, maquiagem esta que, diga-se de passagem, também não é outro acerto do filme, uma vez que ela é estranha e ligeiramente não natural. Quando se olha para este personagem, não é possível não perceber que há algo errado ali.

Contudo, Suspiria não é um fracasso. Muito pelo contrário, é um filme de terror bem acima da média. A câmera é bastante acertada, utilizando-se de perturbadores movimentos de zoom in, que causam estranhamento nas cenas e a sensação de que algo está muito errado. Logo no começo, há uma cena bastante empolgante, quando uma personagem morre na sala dos espelhos, assim como as belíssimas sequências de sonhos.

Apesar de não ser algo que vá marcar a história como sua antecessora, Suspiria de 2018 é um filme que com certeza vale a pena ser apreciado. Não para ser comparado ao original — como se fosse possível não fazer tal comparação — mas para ser assistido como um filme individual, com sua própria identidade.

SUSPÍRIA: A DANÇA DO MEDO | SUSPIRIA
3.5

RESUMO:

Suspiria (2018) se arrisca ser um remake diferente do original e apesar de não marcar tanto quanto o primeiro, não envergonha a obra de Dario Argento.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...