Os conflitos psicológicos a partir da repetição em ‘Boneca Russa’

Análise com spoilers da série da Netflix “Boneca Russa”.

Nadia (Natasha Lyonne) é uma mulher problemática, usuária de drogas e com dificuldade em relacionamentos. Boneca Russa começa com a protagonista saindo do banheiro da casa de sua amiga, onde ocorre a festa de aniversário de Nádia (ela completou 36 anos). Apesar de ainda desfrutar de certa juventude, a amarga protagonista lamenta a sua idade, diz estar em um corpo de 72 anos, devido ao abuso de hábitos nada saudáveis.

Durante o aniversário, Nádia parece não se importar com a presença dos convidados e conversa rapidamente com alguns. Depois de flertar com um deles, rapidamente sai da festa e vai para o apartamento com ele, após transarem o despacha e chama um táxi para ele. Quando estava no computador percebe que havia acabado o seu cigarro e sai para comprá-lo. No caminho viu o seu gato perdido próximo a um parque, atravessou a rua sem sequer olhar para os lados e imediatamente foi atropelada.

Mesmo depois de morrer, ela retorna para a primeira cena da série, olhando para o espelho do banheiro da casa de sua amiga durante o seu aniversário. Nádia se assustou diante de um milagre tão absurdo, acreditou ter enlouquecido Apesar de reviver o mesmo dia uma segunda vez, interagiu com outras pessoas, como o seu ex-namorado.

Durante a conversa, os dois trataram das mágoas do relacionamento, quando andavam pela rua, Nádia novamente viu o seu gato, outra vez iria correr para pegá-lo, mas seu ex-namorado a segurou e a impediu de ser atropelada. Entretanto, novamente brigaram e a perturbada protagonista foi até o parque sozinha e resgatou o seu gato, ela sentou na grade do rio e de repente se deu conta que seu gato não estava no seu colo, se assustou e caiu no rio, novamente morreu. Mais uma vez ressuscitou na sua festa, esse era apenas o começo de um longo ciclo, ela ainda morreria várias vezes.

Inconformada com o estranho fenômeno se repetindo várias vezes, Nádia vai atrás de respostas. Primeiramente pensa que a droga oferecida pela sua amiga teria a afetado, chegando ao ponto de causar graves delírios, porém rapidamente percebe que já havia utilizado drogas semelhantes e não havia passado por isso. Uma nova hipótese surge, acredita que o apartamento de sua amiga seja mal assombrado, e depois de muita confusão, faz o seu ex-namorado conversar com um rabino em busca de esclarecimentos, afinal o apartamento é propriedade judaica, contudo não obtiveram respostas.

Mais uma vez se sente desorientada, Nadia fez amizade com um mendigo e passou a noite com ele. Durante a madrugada eles morreram de hipotermia. Ao recomeçar na sua festa, corre para encontrar o seu novo amigo na tentativa de salvá-lo e dorme com ele em um albergue. Quando acordam, ela foi chamada para uma reunião de trabalho. No elevador, acidentalmente conhece Allan e assim como ela, ele também está passando pelo mesmo problema, morre e revive o último dia de sua vida.

BONECA QUEBRADA

A grande temática da série é a repetição. Por mais que que seja um tanto cansativo as várias mortes da protagonista, essa é a metáfora da forma como ela lida com a sua vida. Apesar de estar presa a um mesmo dia, Nadia reproduz os mesmos comportamentos no decorrer do tempo, age com indiferença com as pessoas a sua volta, manifesta atitudes inconsequentes e destrutivas, além de ter uma perspectiva melancólica e niilista.

Para a Psicanálise, a repetição é um ponto importante no desenvolvimento psíquico dos sujeitos. Por um lado, ela é saudável e fundamental, pois permite a constituição e a manutenção de certas características psicológicas. Além disso, possui um papel fundamental na organização e na autopreservação. Por mais que as pessoas se queixem de suas rotinas, é ela que permite algum controle e previsibilidade. Muitos dizem que adoram surpresas, mas de certa forma é impossível ter uma vida plenamente excitante e cheia de novidades a todo o momento.

Por outro lado, a repetição pode revelar também um lado psicopatológico importante no psiquismo. Em muitos momentos as pessoas se deparam com sintomas psicológicos extremamente desagradáveis dos quais não conseguem se livrar, por mais que sofram, tendem a repetir incessantemente os mesmos comportamentos que lhes incomodam. Muitas vezes essas atitudes costumam ser bem destrutivas, excessivas e violentas, por mais que se tenha certa consciência dos malefícios de tais atos, o sujeito fica entregue e impotente caindo em uma compulsão a repetição.

A origem dos sintomas inconscientes costumam estar relacionadas a traumas infantis não elaborados. Os sujeitos costumam saber daquilo que lhes incomoda, inclusive da carga prejudicial de certos sintomas, mas não fazem a menor ideia do porquê. O mecanismo responsável por essa confusão é o recalcamento, durante a vida passamos por uma série de experiências, parte delas são aterrorizantes e traumáticas, principalmente as da infância. Essas habitualmente são mais marcantes, pois são as que nos constituem, além de se tratar de um momento em que se é ainda mais frágil psicologicamente, pois a forma como se lida com os sentimentos é mais caótica.

Quando alguém sofre um trauma e não consegue suportá-lo, principalmente os de caráter infantil, este é cindido entre o seu significado e o seu afeto. O significado dele é enterrado nas profundezas do inconsciente, com um acesso quase impossibilitado. Enquanto o afeto é sentido em um nível consciente e manifestado por algum sintoma, seja no corpo, nos atos ou nos pensamentos. Uma questão importante sobre a repetição é que embora certos conteúdos se manifestem quase iguais, a forma como reaparecem é diferente. Na própria série, apesar de Nadia reviver o mesmo dia várias vezes, eles nunca se sucederam da mesma maneira.

No decorrer de Boneca Russa, enquanto Nadia se depara com o enigma de estar presa ao dia do seu aniversário, conversa com uma amiga psicóloga a respeito do seu passado e da conflituosa relação dela com sua mãe. Aos poucos se recorda de algumas cenas, dos abusos realizados pela mãe e de certas escolhas impostas a ela quando ainda era criança. A partir desse relacionamento conturbado é possível supor que a protagonista vivenciou muitos traumas sem ser capaz de simbolizá-los, o que talvez tenha constituído um padrão de relacionamentos pautados em brigas, desamparos e abandonos. Enquanto ela não revisitou o seu passado e seus traumas infantis, se manteve na repetição de seus sintomas destrutivos e em relações esvaziadas.

Apesar de repetir a fórmula de filmes como Feitiço do Tempo e A Morte te Dá ParabénsBoneca Russa teve êxito em criar um roteiro original e construir uma personagem complexa como Nadia, além de uma ótima atuação de Natasha Lyonne, dirigido por ela, Jamie Babbit e Leslye Headland.

Com uma temporada curta de 8 capítulos (com possibilidade de uma segunda temporada) e com episódios dinâmicos com uma média de 25 minutos, a série se mostrou profunda, divertida e com muitas situações inusitadas. Além de criar metáforas ricas sobre as repetições da vida e das pequenas “mortes” diárias em que se vivencia na rotina quando não se percebe os padrões danosos dos quais se mantém preso. A série talvez tenha esse nome por tratar dos vários “eus” de Nadia, conforme se desenrola, adentramos em camadas mais profundas de sua personalidade até restar os aspectos infantis da menor de todas as bonecas.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.