Crítica | 1ª temporada de ‘Coisa Mais Linda’ é bonita e fala sobre feminismo

“Interessante” seria uma boa palavra para resumir a nova série brasileira da Netflix Coisa Mais Linda, lançada na última sexta-feira (22/03). Sua proposta mostra-se especialmente melhor que o conteúdo em si, o que não tira o mérito da trama. Vale a pena sim, com algumas ressalvas.

Somos apresentados à Maria Luiza (Maria Casadevall) que, ao mudar-se para o Rio de Janeiro, descobre que seu marido roubou seu dinheiro e desapareceu deixando dívidas e um restaurante mal acabado. Ela encontra em outras mulheres o suporte que precisava para ir em busca de sua independência e lutar pelo seu lugar em uma sociedade extremamente machista. Uma delas é Adélia (Patrícia Jesus) que vira sua sócia no clube de música idealizado por Malu. Tudo isso permeado por um cenário de ascensão da bossa nova.

Bossa nova, músicas brasileiras cantadas em inglês, Rio de Janeiro, praia, bares na Lapa são elementos bastante apelativos, não negativos, para que a série pudesse ser também aceita não somente no Brasil. A estética e a estrutura narrativa lembram muito as produções de fora, o que nos faz pensar que muito de Coisa Mais Linda pode ter sido pensado “para inglês ver”.

No entanto, não se pode deixar de elogiar a direção de arte, figurino e fotografia da série, que a fazem extremamente charmosa e um deleite para o olhar. Cores quentes e coloridas, enquadramentos simétricos que poderiam ser facilmente uma fotografia, cenários habilmente montados e uma indumentária belíssima e bem planejada. Tudo isso misturado a recortes saudosos e encantadores de um Rio de Janeiro histórico e nostálgico.

Aline Arruda / Netflix

Em complemento ao comentado acima, as personagens principais são o componente que merece mais destaque. Malu, Adélia, Tereza (Mel Lisboa) e Lígia (Fernanda Vasconcellos) formam um forte grupo de guerreiras no caminho para o empoderamento, brigando por direitos de ser, estar e sonhar. Coisa Mais Linda é bem-sucedida em expor as injustiças, subordinações, opressões, repressões e violências sofridas pelas mulheres à época.

Um ponto muito importante também a ser enfatizado é o debate extremamente atual e que precisa ser mais abordado em produções culturais do feminismo negro e branco. A personagem de Malu, branca e de família rica, é mimada e até um pouco egocêntrica ao ficar lado a lado de Adélia, negra, analfabeta e de origem humilde. Apesar de serem ambas mulheres e sofrerem com desigualdades, há uma enorme distância entre as duas e a série acerta muito ao discutir privilégios.

Apesar da discussão completamente relevante e necessária tratada na trama, esta poderia ter sido melhor explorada e trabalhada. Aspectos como algumas abordagens do roteiro, diálogos e atuações beiravam à artificialidade, quase como se estivesse tudo muito ornado, enfeitado.

Aline Arruda / Netflix

O final nos faz esquecer um pouco dos defeitos repetidos durante toda a temporada a partir do momento em que suscita o choque. Ficamos com a sensação de “quero mais” e percebemos estar torcendo por aquelas mulheres e seus sonhos. Agora o jeito é esperarmos pela confirmação de uma segunda temporada de Coisa Mais Linda.

COISA MAIS LINDA - 1ª TEMPORADA
4

RESUMO:

Brasileira, carioca e saudosa, a mais nova série brasileira original Netflix Coisa Mais Linda é bonita e fala sobre feminismo.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"