Crítica | “Nós” e as questões sociais à luz do terror psicológico

‘Por isso, assim diz o Senhor: “Trarei sobre eles uma desgraça da qual não poderão escapar. Ainda que venham a clamar a mim, eu não os ouvirei.’ Jeremias 11:11. Nós Us

Em 2017, Jordan Peele mostrou sua habilidade ao desenvolver um suspense psicológico de forma magistral na direção de seu primeiro filme, Corra!, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original. Este ano ele retorna ao cerne de sua obra, dessa vez com um terror psicológico que assusta, surpreende e faz refletir.

Em Nós, Lupita Nyong’o interpreta Adelaide, uma jovem adulta, mãe de dois filhos, Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex) que juntamente com seu marido Gabe (Winston Duke), vai passar as férias em Santa Cruz, uma praia que costumava ir quando mais nova. Entretanto, após vivenciar um estranho acontecimento na praia durante sua infância, ela tem um pressentimento ruim quanto aos próximos dias de sua família naquele lugar.

Inspirado em um episódio da série “Twilight Zone” (cujo reboot será comandado pelo próprio Peele), ‘Mirror Image’ de 1960, aborda a história de uma mulher que ao encontrar sua duplicata, acredita que a mesma está tramando para tomar o seu lugar. Diante disso, Peele coloca Adelaide e sua família para enfrentar cópias de si mesmos que apresentam uma esperteza e força equivalente à deles.

O filme de Peele é um prato cheio de referências e reflexões. Desde o uso de uma camiseta de um filme de Spielberg a citações religiosas, crítica social e moral. O longa está repleto de itens que nos levam novamente a ver o uso do terror como alegoria para assuntos políticos que são pouco discutidos em um maior âmbito. Bem como a simbologia utilizada através da numerologia e animais que estão presentes em grande parte do filme.

Através de diálogos e situações apresentadas pelo roteiro, o filme consegue passar tudo aquilo no qual se propõe, entretanto, para isso é necessário que o visual case com o teórico. Peele portanto, explora de outras opções de enquadramentos da câmera. Em grande parte do filme ele segue essa tradicional família americana através de ângulos que se alocam nas portas espalhadas pela casa, reforçando o tom de ser vigiado e perseguido. Bem como a utilização das cores que assim como em Corra! se repete o uso do azul e vermelho, além do branco, ‘coincidentemente’ as cores da bandeira dos Estados Unidos.

Apesar de todos os aspectos do filme serem responsáveis por sua grandiosidade, o elenco se faz primordial, principalmente por em grande parte do filme eles estarem contracenando com eles mesmos. Os Wilson possuem uma dinâmica leve e divertida, que apesar de apresentar questões familiares a serem resolvidas, orquestram muito bem o lado humano e fraterno que um tem pelo outro. Já aqueles que compõe a sua sombra são cínicos, aterrorizantes e calculistas, sendo todas essas características ressaltadas apenas diante da expressão corporal de cada ator, pois ao atuarem como sombra, não possuem falas.

Embora estejamos no início do ano, já temos uma das melhores performances de 2019, Lupita Nyong’o, fenomenal no papel de uma americana e sua ‘dupla’. De um lado interpreta Adelaide Wilson, de maneira intuitiva, introspectiva e cautelosa, tudo isso muito bem representado em seu olhar ligeiro, porém humano. Ao mesmo tempo ela interpreta Red, vingativa, aterrorizante e controladora. Aqui Lupita utiliza do seu exuberante olhar atrelado a uma voz grave e rouca que compõe a personagem de forma única, se destacando assim pela sua performance em ambos os papeis.

Outros elementos que merecem destaque são a cronologia da narrativa, que se guia a partir do presente e do passado, criando uma tensão diante dos fatos ocorridos ainda não revelados, que se cruzam com ações no presente, criando no público certa ansiedade quanto ao desfecho dos arcos. Além da trilha sonora que, composta por Michael Abels – parceiro de Peele em Corra! – conduz o suspense de forma primorosa ao adicionar o terror necessário através da tensão sonora.

Apesar de ser um filme voltado para o terror, com utilização de tensão pré-acontecimento, uso de trilha sonora marcante, susto, medo e criaturas míticas, Nós é carregado de assuntos políticos que dizem respeito as minorias que além de viverem nas sombras, vivem com as piores condições humanas possíveis. E apesar de se estruturarem e viverem da forma como podem, não deixam de desejar e querer o que o mundo oferece de melhor e que os mais privilegiados têm acesso.

NÓS | US
4.5

RESUMO:

Nós se sustenta no terror psicológico que assusta e impressiona, além de ser uma ótima crítica social para os tempos de hoje.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.