Minding The Gap | Documentário mostra o skate como forma de escape e transição para a vida adulta

O jovem Bing Liu, estreante na direção, passou 12 anos de sua vida filmando suas aventuras de skate com seus amigos, as frustrações da adolescência e as semelhantes situações que abarcaram suas vidas.Minding The Gap

Indicado ao Oscar, Minding The Gap acompanha a vida do diretor e de seus amigos Kiere Johnson e Zack Mulligan, seguindo os passos de cada um desde a infância até se tornarem adultos. Apesar de possuírem vidas diferentes, as questões da fase adulta estão presentes na trajetória dos três, que parecem um pouco perdidos, assim como todos nós já estivemos. Profissão, família, deixar tudo para trás e começar uma nova vida, tudo isso perpassa a vida dos amigos que tentam viver da maneira como podem. Enquanto isso, utilizam o skate para se libertar dentro da sua restrita realidade na qual vivem, sempre com manobras radicais e tentativas que as vezes falham. O andar de skate é, por si só, uma representação de suas vidas.

A priori o filme aparenta ser apenas o retrato da vida esportiva dos garotos, entretanto, o jovem Bing usa de suas filmagens e do tom ameno para adentrar assuntos mais profundos que dizem menos respeito ao skate e tem mais a ver com as vidas pessoais de cada um. Respeitando assim a ordem dos fatos, já que os três se conheceram nas pistas de skate e a partir daí criaram um vínculo.

 

O filme aos poucos abre mão do skate e das manobras para explorar mais as vidas dos os três moradores de Rockford, Illinois. Seu amigo Keire, dos três é o que mais leva a sério o skate e pensa em seguir carreira, desde pequeno utilizava o esporte para fugir de casa. O garoto mora com a mãe e irmão, mas o assunto recorrente durante sua parte do documentário é seu pai. Familiar com quem viveu durante anos, depois que o mesmo disse a sua mãe que “ela não poderia lhe ensinar o que ele poderia”. Morou com ele até ser agredido. Apesar do episódio, Keire fala do seu pai com saudade e afeto, recordando as memórias da infância e adolescência. Algo que Bing explora bem ao deixar o amigo falar e entrelaçar a partir das imagens, a temática do relacionamento abusivo ao seu outro amigo, Zack.

Zack se apresenta como sendo o amigo mais inconsequente do grupo. Saiu da casa dos pais aos 16 anos, buscando sua independência. Nunca desejou o “estilo de vida americano”, sempre fugindo dos rótulos e padrões. Se tornou pai cedo, aos 21, sendo o primeiro do grupo a ter um filho. Manteve um relacionamento de curto período com a mãe do seu filho. Ambos discutiam muito, eram poucos os momentos de paz em sua casa. A partir da nova fase do amigo, Bing introduz Nina, namorada do Zack, ao documentário. Apesar do relacionamento conturbado dos dois, Nina fala com ternura sobre Zack, assim como Keire fala de seu pai.

Além dela, há também as outras mulheres abordadas no documentário, todas elas tendo passado por violência doméstica, seja física ou psicológica. Esse tema é o que leva Bing abordar a sua própria vida. A partir de entrevistas feitas com pessoas que cresceram com ao seu redor, Bing é apresentado como um garoto introvertido e calado, sempre com sua câmera na mão, preferia ouvir do que falar. Cresceu em uma casa com um pai rigoroso, e em seguida com um padrasto tão severo quanto.

Bing reserva arte do documentário para confrontar sua mãe. Pessoa por quem guarda grande mágoa devido as agressões do padrasto. Como já abordado no texto, o que liga não só os homens, mas também as mulheres do filme é a violência doméstica, portanto a mãe de Bing também era agredida pelo seu novo marido. Em sua voz ela carrega o peso e a dor de alguém que sofreu, e o lamento por não ter feito nada na época.

Juntamente com a paixão pelo skate e a violência doméstica. outros temas são abordados no filme como perdas literais e simbólicas, por exemplo ideologias que fazemos durante um período da juventude e na vida adulta não se concretiza. Em contrapartida há o otimismo representado visualmente pelas realizações que foram sonhos um dia.

Ao ponto que se tornam melhores skatistas enquanto crescem, é possível analisar o amadurecimento deles a partir do caminho que cada um decidiu seguir. É difícil não se identificar com ao menos uma circunstância de suas vidas. Durante todo o documentário você se encanta, passa a viver a história deles e a torcer por cada um. De forma tocante, sensível e impactante o filme projeta o que qualquer pessoa entrando na vida adulta pensa ou vive, resta saber qual será o desfecho de cada um.

MINDING THE GAP
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RESUMO:

Minding The Gap aparenta ser apenas o retrato da vida esportiva dos garotos, entretanto, o jovem Bing Liu aborda assuntos mais profundos e pessoais.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.