‘Elefante’: Brutalidade e crueza ao retratar uma chacina na escola

Em uma escola de ensino regular em Portland, no Oregon, acompanha-se o cotidiano de um grupo de alunos do ensino médio. O filme é dividido em pequenos capítulos contando o dia-a-dia de alguns adolescentes. Por mais pacata que aparentemente seja a vida desses jovens, problemas típicos da adolescência são mostrador. A dificuldade em lidar com a sexualidade, o bullyng sofrido por Alex (Alex Frost), as três amigas bulímicas que vomitam logo após o almoço, entre outras questões. Elefante

Com o desenrolar do filme fica clara a preocupação do diretor Gus Van Sant em retratar brevemente as aflições típicas da adolescência de uma forma bastante direta. Entretanto, o foco do filme está na chacina que dois alunos cometerão na escola próximo do final da história, baseado no massacre de Columbine, ocorrido em 1999, em que 14 estudantes e 1 professor foram assassinados.

É interessante notar o estilo narrativo do filme, não há uma preocupação em aprofundar os diálogos ou os conflitos dos personagens. Percebe-se um enfoque maior em Alex e Eric (Eric Deulen), os responsáveis pela chacina no colégio. Próximo da execução do terrível ato, observa-se todo o planejamento e suas fontes de inspiração. No quarto de um dos dois personagens, eles encomendam rifles, revolveres e facas pela internet e as recebem rapidamente pelo correio. Enquanto isso jogam jogos violentos no computador e assistem vídeos nazistas, ironicamente, enquanto Eric joga, Alex toca músicas clássicas no piano, compondo assim uma trilha sonora calma e singela, destoante com a barbárie que ocorrerá em breve.

Antes de irem para a escola, Alex e Eric se beijam no banho, demonstrando certa identificação e cumplicidade. Ambos sabiam que não sobreviveriam e planejaram o suicídio ao término da carnificina. Quando chegaram no colégio acidentalmente encontraram um colega e disseram para ele se afastar, pois logo mais as coisas ficariam feias por lá. Rapidamente o rapaz, ciente, tenta impedir a entrada das outras pessoas no prédio. Pouco depois, Alex e Eric iniciam a matança. Chama atenção a frieza com que a dupla atira nos alunos e funcionários. Ainda que Eric tenha matado um professor que não gostava, todas as outras vítimas foram aleatórias.

Uma das sacadas do diretor é revelar, próximo do desfecho do filme, que muitos momentos mostrados espalhados no decorrer do enredo, se tratavam na verdade de minutos, talvez instantes antes do início da carnificina. Provavelmente com a intenção de retratar a forma abrupta como a chacina interrompeu e surpreendeu o cotidiano dos estudantes e funcionários. Alguns morreram sem esboçar qualquer reação em um total estado de choque.

Outro elemento diferenciado foi o estilo de filmagem, semelhante ao ângulo da câmera nos jogos de videogame, em que vemos o personagem de costas em terceira pessoa. O filme transmite a sensação do diretor ter se voltado mais em expor a inexplicável frieza da dupla de assassinos e a interrupção chocante do sossegado dia-a-dia de uma escola, ao invés de adentrar nas vidas dos alunos. Mesmo no caso da dupla macabra, sabe-se pouco a respeito deles.

Elefante (2003) é no mínimo um título peculiar, o filme obteve esse nome devido a uma expressão: “um elefante na sala de estar”, ou seja, trata das questões que incomodam, mas que muitas vezes tende-se a ignorar. Em Cannes, foi agraciado com as estatuetas de melhor direção e melhor filme, algo raríssimo de ocorrer nessa premiação. Talvez o que tenha mais impressionado não seja a complexidade do roteiro, mas a maneira nua e crua como Gus Van Sant se esforçou em se aproximar da tragédia ocorrida em Columbine, além de ser um dos primeiros filmes a tratar dessa temática.

Há alguns dias, na região metropolitana de São Paulo, aconteceu um incidente semelhante ao do filme, dois jovens entraram armados em uma escola pública de Suzano e assassinaram 5 alunos e 2 funcionárias. Mais uma vez assiste-se dois rapazes matando pessoas gratuitamente, sem qualquer motivo aparente e com uma certa influência nos jogos de videogame, pois além de manifestarem uma estranha calma, como se estivessem jogando, um deles estava como um besta (espécie de arco e flecha), inspirada na Idade Média. Existem inúmeros jogos com esse contexto histórico.

É possível notar uma pressa da mídia e dos profissionais consultados em achar algum tipo de explicação para esse tipo de crime. Alguns afirmarão que isso se deu devido a influência da violência dos jogos virtuais, como se os jovens pudessem confundir a realidade com a virtualidade caso jogassem demais ou simplesmente se deixassem influenciar de alguma forma. Um argumento bastante questionável se pensar na grande quantidade de jogadores que não praticam qualquer tipo de crime. Os jogos podem oferecer até uma espécie de pano de fundo para a barbárie, mas não são os causadores.

Alguns psiquiatras entrevistados já querem diagnosticar precocemente os jovens, costumam pensar em um quadro de psicose. Entretanto, não possuem informações suficientes da vida deles ou algum tipo de histórico, fazem essa avaliação utilizando apenas um fato isolado. Outros pensam que o discurso de ódio do armamento pode ter fomentado uma raiva abrupta, já que estariam sendo autorizados por esse discurso ideológico.

É importante ressaltar que o primeiro incidente nesse estilo ocorrido em uma escola foi há quase 20 anos em Columbine, muito antes de qualquer discurso do polêmico dessa natureza. Alguns psicanalistas associam o crime como se as armas envolvessem uma questão narcísica da masculinidade dos assassinos, utilizam as armas como uma extensão do próprio falo (objeto de poder e desejo) comprometido.

Acredito que no fundo nenhum de nós tem uma resposta razoável que explique minimamente o que motiva alguém a matar pessoas de uma forma tão banal e fria. Até hoje escuta-se apenas hipóteses mal embasadas. De fato esse é um mistério angustiante, pois coloca os profissionais e a mídia em uma condição impotente.

Não podemos esquecer que esse tipo de chacina, além de ser um fenômeno relativamente recente, por mais que os casos tenham aumentado nos últimos anos, eles são escassos. Talvez o melhor a se fazer é observar e fornecer um espaço de escuta para as angústias da adolescência, como diria Lacan: “Não se deve compreender rápido demais!”.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.