‘Relatos Selvagens’ choca ao mostrar aspectos brutais do psiquismo

Com spoilers do filme Relatos Selvagens.

Mais uma vez o cinema argentino nos proporciona uma obra prima cinematográfica: Relatos Selvagens (Relatos salvajes, Damián Szifron – 2014), dividido em seis contos intensos, podemos observar os impulsos mais primitivos de seus complexos personagens.

O primeiro conto se passa dentro de um avião comercial. Dois passageiros iniciam uma conversa despretensiosa entre um crítico de música e uma modelo. A moça comentou que seu ex-namorado era um músico chamado Gabriel Pasternak, o crítico quis saber melhor quem ele era e descobre que esse homem foi um doutorando que ele defenestrou. A modelo comentou o quanto ele havia se incomodado na época com essa rejeição tão incisiva.

Logo em seguida uma senhora interrompe a conversa dizendo que conhece Gabriel, foi sua professora do colégio e teve que reprová-lo uma vez. Aos poucos, outros passageiros admitem conhecer o músico fracassado e por fim, todos os passageiros em algum momento de suas vidas haviam convivido com ele. Pouco depois a aeromoça escuta a polêmica e os informa de que Gabriel é o piloto do avião, todos os passageiros de alguma forma o frustraram.  Eles ganharam as passagens, foram sorteados em algum concurso ou teoricamente foram mandados pelas respectivas empresas em que trabalham. Restava a dúvida então, pra onde estariam indo realmente? Por fim, Gabriel joga o avião em cima da casa de seus pais e completa sua brutal vingança.

No segundo conto ocorre dentro de um restaurante simples, um cliente se senta na mesa e é recebido pela garçonete. Instantes depois ela nota que ele é um mafioso que prejudicou sua família, arrematou a casa deles e seu pai se suicidou devido ao incidente. A cozinheira ao escutar a história propõe envenenar o bandido, mas a garçonete recusa. Mesmo assim, a cozinheira colocou o chumbinho no prato do mafioso. Pouco tempo depois, o filho do nefasto cliente chega ao restaurante e come junto com seu pai. Dessa vez a garçonete o impede de comer, não queria que o menino morresse, então joga as batatas no rosto do mafioso. Em seguida, ele lhe pega pelos cabelos e tenta obriga-la a catar tosas as batatas, entretanto, a cozinheira o esfaqueia várias vezes pelas costas e o conto termina com a sua prisão.

No terceiro conto dois motoristas aleatórios se cruzam em uma rodovia pouco movimentada. Um dos motoristas estava em um carro velho e não lhe permitia a ultrapassagem e fechava e o outro que estava em um Audi. Depois de finalmente ultrapassá-lo, o motorista refinado xinga e mostra o dedo do meio. Pouco depois, o motorista do Audi fura um pneu e estaciona perto de uma ponte, para o seu azar, o homem que ele ofendeu passa por ele e o ataca com uma chave de roda, apesar do carro ser blindado, sofre sérios danos. Uma briga de vida ou morte é iniciada por motivo totalmente banal. O motorista do Audi mesmo depois de ter se livrado de seu agressor decide retornar para mata-lo, após outra luta, o Audi fica parado na beira do rio com os dois personagens pendurados e o conto se encerra com os dois se explodindo abraçados.

No quarto conto, Simón (Ricardo Darín) é um engenheiro de implosões planejadas depois de mais um dia bem sucedido no trabalho, ele vai a uma confeitaria e compra um bolo de aniversário para a sua filha. Ao sair, ele percebe que seu carro foi guinchado. Ao ir retirar o seu carro Simón alega que não havia nenhum aviso comunicando que aquele lugar era proibido para estacionar o automóvel. Ainda assim, a burocracia para pegar o carro aprendido era enorme. Simón tem certa dose de razão ao se revoltar com o ocorrido, mas perde a cabeça para lidar com o funcionário do governo. Ao chegar em casa, sua esposa discute com ele por perder a festa da filha e por estar quase sempre ausente para a família.

No dia seguinte, Simón vai até a prefeitura e reclama para um funcionário da suposta injustiça. Além de xingá-lo, tenta agredi-lo com um extintor e vai preso. Após ser libertado, ele é demitido pois a prefeitura é a principal cliente da empresa, não bastando isso, sua esposa lhe pede o divórcio e a pensão alimentícia para a filha. Ao ir em uma empresa atrás de um emprego, mais uma vez seu carro é guinchado. Simón bola um plano de vingança, dessa vez ele propositalmente para o carro em um lugar proibido, mas com explosivos no porta-malas. O carro ao chegar no estacionamento é explodido, mas ninguém se machuca. O errante protagonista vai preso e dessa vez é condenado sem direito a fiança. So menos na cadeia é reconhecido como um herói, por contrariar o governo e adquire a alcunha de “bombita”!

No quinto conto, o filho de um político atropela e mata uma mulher grávida, por fim foge da cena do crime. Durante toda a história assistimos aos esforços do milionário (Oscar Martinez) em encobrir o assassinato cometido pelo filho, para livrá-lo da condenação, cria-se um enorme esquema de corrupção para pagar o advogado, as propinas as autoridades e ao funcionário da família. Ele seria acusado pelo crime do filho do milionário e seria preso em seu lugar, tornando-se assim um testa de ferro. Todos os envolvidos na farsa conversaram para manterem a história falsa do “acidente”, ao se entregar para a polícia há uma manifestação na porta da mansão, no meio dos manifestantes surge o marido da grávida assassinada e esfaqueia o falso culpado.

O último conto do filme trata da festa de casamento de Romina (Érica Rivas) e Ariel (Diego Gentile). Durante o luxuoso evento, a noiva descobre que seu futuro marido tem um caso com uma colega do trabalho. Em um impulso desesperado vai para o alto do prédio aos prantos, por um acaso conhece um funcionário do buffet que a conforta. Tomada por impulso repentino, seduz o funcionário e faz sexo com ele no último andar do prédio.

Ariel os flagra no momento do ato, que é encerrado com uma nova discussão entre os noivos. Dessa vez Romina deixa de ser a vítima e chantageia o noivo adúltero, dizendo que irá lhe arrancar até o último centavo e o exporá nas redes sociais. Após a discussão Ariel vomita e ambos retornam para a festa como se nada houvesse acontecido. A baixaria não acabou por aí, a noiva descontrolada enquanto dançava rodopiando com a amante de seu marido a arremessou em cima de um espelho. Os noivos novamente brigam, mas dessa vez com todos os convidados assistindo, porém, surpreendentemente voltam a se entender e transam em cima da mesa do bolo. Horrorizados, os convidados os deixam.

FORA DO ATO

Relatos Selvagens, dirigido por Damián Szifron, se mostrou um filme  intenso e chocante. Todos os contos são bem escritos e originais, apesar das atitudes desequilibradas e desproporcionais de seus personagens, a verossimilhança é preservada, revelando assim os aspectos mais primitivos e bárbaros do psiquismo humano.

Todas as histórias possuem esse elo em comum, aspectos insanos da personalidades dos personagens, desencadeados sobre certas situações. Muitos deles se mostram a princípio pessoas razoáveis e sensatas em um primeiro momento, mas os acontecimentos desagradáveis os colocam a prova e fatalmente cederam aos impulsos mais insanos e destrutivos.

Em cinco dos seis contos pode-se notar um conceito interessante da Psicanálise, conhecido por Acting Out, segundo ele, as pessoas em determinadas situações perdem o controle sobre si, agem por certos impulsos irracionais e rompantes extremos. Esse tipo reação é absolutamente inconsciente, o sujeito perde o domínio de seus atos. Alguns autores traduzem o termo por Atuação, entretanto por gerar sentidos muito dúbios, soltos e faltar certa clareza quanto ao caráter psicopatológico, outros teóricos preferem manter o termo em inglês. Particularmente acredito na possibilidade de traduzi-lo como Fora do Ato, pode-se pensar o ato como um comportamento racional e controlado. Já o Fora do Ato situa-se em uma outra dimensão, ao do inconsciente e de parte de seus impulsos agressivos e mortíferos.

No filme pode-se observar vários Foras do Ato. Gabriel, ao reunir todas as pessoas que lhe magoaram dentro de um avião e por fim arrematá-lo na casa de seus pais, mostra que seus impulsos se tornaram tão mórbidos que ele se deixou levar por uma atitude vingativa com um “grand finale” kamikaze. No terceiro conto com o duelo automobilístico dos dois personagens há mais uma vez o conceito discutido, com várias atos violentos e irracionais causando-lhes o autodestruição de ambos. No quarto conto, Simón se deixa envenenar pelo ódio e perde totalmente a razão com a aparente injustiça da prefeitura ao guinchar o seu carro, culminando na separação de sua esposa e sua prisão ao explodir estacionamento.

No quinto conto, quem age movido por um sentimento de revanche desenfreada é o marido da grávida, no final das contas mata o testa de ferro, enquanto o verdadeiro culpado sai ileso. No sexto conto há uma variedade enorme de Foras do Ato por parte dos noivos, sejam pelas brigas descabidas ou pela relação sexual com o primeiro homem que cruzou o caminho de Romina, arremessar a amante do noivo no espelho e assim como o desfecho da festa. O segundo conto é o único em que não há um Acting Out, apesar da cozinheira matar brutalmente o mafioso. Ela agiu de uma forma mais fria e calculista, pois a princípio pretendia envenená-lo, apenas o esfaqueou porque o plano saiu do controle e para salvar a garçonete.

Ainda que Relatos Selvagens tenha uma narrativa aparentemente fantástica e irreal, devido aos excessos de seus personagens, ele nos mostra com um estilo contundente a capacidade das pessoas em serem impulsivas em certas contingências. Ironicamente, não são apenas os lunáticos que são capazes de cometer bizarrices, em certos momentos o inconsciente toma as rédeas do psiquismo das pessoas “normais” e revela as monstruosidades que nos habitam.

Relatos Selvagens (Damián Szifron, 2014)

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.