Crítica | ‘Capitã Marvel’ não existe somente para agradar, mas para servir de exemplo

Sem perder tempo, o longa começa com uma abundância de informações que podem até se apresentar desconexas ou confusas de início, já preparando o terreno para a guerra intergaláctica que se estenderá pelo restante da projeção e alguns flashbacks introduzindo uma das mais poderosas heroínas do universo, Carol Danvers (Brie Larson). Não é desta vez que a Marvel se abdica de reciclar a fórmula de sempre, mas Capitã Marvel inclina-se em elementos que não a tornam cansativa ou ultrapassada, manifestando-se como um ótimo filme de origem.

Pelo meio da bagunça que metade do primeiro ato desencadeia a história, e julgando a quantidade de objetivos que o filme contém – introduzir uma nova heroína em uma história anterior a quase todos os filmes da Marvel (com exceção de Capitão América: O Primeiro Vingador) e ligá-la ao mesmo tempo que a torna necessária para aparecer em Vingadores: Ultimato – até finalmente tomar um rumo detalhado, parece justificável.

Estabelecida na década de 1990, a trama se desenvolve em dois espaços: no mundo Kree, apresentado por um design de produção altamente tecnológico, com edifícios e transporte consideravelmente modernos; e no planeta terra, que aparece primeiramente por meio de uma blockbuster ainda com vídeo cassetes, destoando o mundo que Danvers acaba de sair com o qual ela acaba de chegar; mas detalhes como uma jukebox e jogos de arcade ainda os interligam no espaço-tempo.

Mesmo com amnésia, as lembranças da personagem são vasculhadas pelos skrull ainda nos minutos iniciais, onde permeiam vários dizeres como “você não é forte o suficiente”, “você não pertence aqui”, “nunca vão deixar você pilotar” e “você pilota bem, mas é muito emotiva” ditas por homens.

A questão da protagonista ser muito emotiva aparece desde os primeiros momentos do filme e subsiste até uma de suas cenas finais, porém a narrativa não integra o quão exageradamente emotiva ela parece ser já que esse fator é tão apontado, transmitindo essa ideia apenas como uma forma de machismo. Mesmo após se determinar intensamente poderosa, ela continua a ouvir a mesma frase; o que muda é a forma com a qual ela lida com isso.

As lembranças de Carol se sobressaem mais tardiamente quando há um encontro com sua velha melhor amiga e companheira de trabalho Maria Rambeau (Lashana Lynch) e sua filha, que concede uma construção de maior empatia do público com a protagonista por meio de um laço mais pessoal. Sua considerada família mostra fotos, conta histórias e relembra a ótima e poderosa pilota, amiga e companheira que Carol era – mesmo antes de lançar energia pelos punhos.

Em Capitã Marvel, as cenas de ação não existem com o propósito de serem destaque. São consideravelmente rápidas, com cortes que as encurtam. A frase de “não lutar guerras, mas acabá-las” repetida mais de uma vez, ganha força. O longa também não tenta se sustentar no humor já típico dos filmes da Marvel – mesmo que ainda possua o alívio cômico balanceado por Nick Fury (Samuel L. Jackson) e por Goose.

O foco realmente parece se encontrar na essência de Carol Danvers que é descoberta pelo público juntamente da personagem e, por isso, a obra dirigida por Ryan Fleck e Anna Boden investe em cenas sutis que não limitam a protagonista encontrar sua força, mas traz a possibilidade de identificação e acolhimento que as fãs mulheres da Marvel precisavam há muito tempo. Brie Larson faz uma bela representação de uma heroína que torna perceptível que não existe somente para agradar, mas para servir de exemplo.

Além disso, ainda há a crítica aos refugiados que aparece como um aspecto importante, algo fundamental ao desenvolvimento da protagonista. As criaturas inofensivas que estão à procura de uma casa são vistas como ameaças por não obedecerem a regras impostas por uma figura “maior”. Assim, Danvers precisa encontrar sua própria força para que possa ajudar terceiros e exteriorizar o sentimento de justiça que sempre esteve presente nela – que ainda deve ser mais ressaltado em Vingadores: Ultimato.

No geral, o roteiro amarra bem as questões e não se estende mais do que o necessário, cumprindo seu papel de ser uma obra divertida e inclusiva sem apelações. Os elementos que permitem que Capitã Marvel seja interessante à formula vão progredindo conforme a trama avança, assim como a verdadeira essência de Carol Danvers; que encontra força na sua vulnerabilidade de ser apenas humana.

CAPITÃ MARVEL | CAPITAIN MARVEL
4

RESUMO:

Reciclando a mesma fórmula de sempre, Capitã Marvel inclina-se em elementos que não a tornam cansativa ou ultrapassada, manifestando-se como um ótimo filme de origem.

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é a forma mais sensível de explorar realidades.