Crítica | ‘Suprema’ é uma obra preciosa contra a misoginia

Em uma palestra na universidade estadual de campinas (Unicamp) sobre o feminino e a misoginia, o filósofo e historiador Leandro Karnal parafraseia a celebre filosofa existencialista e ativista feminista Simone de Beauvoir – frase esta que nunca saiu de minha mente. Suprema

É preciso defender as mulheres, inclusive, para que os homens sejam libertados do peso de oprimi-las.

O mais recente drama jurídico, social e biográfico, Suprema (On the Basis of Sex) nos leva para uma viagem através da juventude de Ruth Bader Ginsburg (Segunda mulher juíza da história dos EUA) e todas as suas dificuldades, desde sua vida na universidade de direito de Harvard, curso predominantemente “masculino”; até a total rejeição em todas as advocacias em que buscou emprego.

Quando assistimos a um drama de cunho social, este visa elucidar o espectador de uma falha coletiva, apontando para a Ética e para as instituições da sociedade, geralmente os campos políticos e jurídicos; a moral e os conflitos psicológicos ficam em segundo plano. O drama social pode ser revolucionário ou não, isto é, dar uma solução ao problema ou apenas evidenciar nossas mazelas.

Já os dramas de cunho biográfico e/ou histórico tem mais facilidade em se diluir entre tramas psicológicas ou sociais, porém, a maioria dos filmes históricos que você vai encontrar por aí sempre vão dar mais ênfase ao teor social. Filmes antigos, medievais, modernos e os que mostram as gerações passadas tem o trunfo de conseguir mascarar em épocas passadas – e explicitar com maior liberdade, problemas que são enfrentados na atualidade do espectador.

Esse gênero causa desconforto e faz com que o público, de maneira sutil, não queira se identificar com aquele coletivo e pense algo parecido com isto: Como era desumano e perverso o tratamento dos afrodescendentes na América Portuguesa, ainda bem que não vivemos mais assim. Você pode até achar que este tipo de pensamento é uma negação as mazelas que existem dentro daquele espectador, e de certa forma é, mas de maneira suave, a obra mexeu com sua moral, e quando ele sentir algo em seu dia a dia que se assemelhe ao que foi sentido durante o filme, ele vai se lembrar disso.

Suprema é um filme que chega em um ótimo momento. A misoginia é uma das discriminações mais enraizadas na nossa sociedade, parte disso é porque sente uma grande dificuldade de sair da esfera da naturalidade das coisas, é menos falada que o racismo, menos conscientizada nas escolas e menos evidenciada na cultura.

Temos aqui um roteiro sagaz de Daniel Stiepleman, que consegue mostrar tal discriminação em inúmeras roupagens diferentes e tem a coragem de rebate-las com argumentos pouco convencionais; os guardiões do limiar junto ao grande antagonista cumprem seu papel com excelência, enganam o espectador com frequência e coloca em cheque a discriminação de gênero.

Porém, temos aqui um filme mais esperançoso. Ruth dificilmente se deixa intimidar e mesmo com seu grande sonho perdido, faz o melhor que pode com o que tem, até que uma nova oportunidade apareça. Isso acontece, pois, o lado psicológico da personagem é pouco afetado e pouco discutido, todavia suas lutas são travadas junto do apoio de inúmeras outras mulheres e até mesmo homens que, na medida do possível, cedem espaço e auxilio para que elas apareçam.

Este é um filme que quer passar um recado e que visa uma solução; é uma história que mostra que aqueles engajados em mudar o mundo, aqueles que conseguem ver um mundo melhor não são necessariamente construtivistas, não moram apenas em ideias e imaginação, mas tiraram essas reflexões do mundo da vida, porque o mundo já mudou, o diferente já bateu na porta e é necessário que espaço seja cedido para o novo vigorar – É necessário que os homens saibam se afastar um pouco, para que as mulheres possam existir.

Digo que este é um filme esperançoso porque ele crê que com o ponto de vista certo que os dominantes vão ceder espaço aos dominados.

Ainda vale falar da ótima atuação de Felicity Jones e de sua Ruth destemida, resistente e sempre dona de si. Armie Hammer também se destaca como Martin, marido que luta para que a esposa apareça no mundo até onde os olhos de um homem podem enxergar. Cailee Spaeny interpreta a filha de Ruth e é uma das atrizes que mais surpreende, mostrando um jeito diferente de se enfrentar a discriminação, que a início até parece antagônico; e Kathy Bates que tem pouco destaque, mas é uma atriz que sabe brilhar como ninguém.

Suprema é um filme bem dirigido por Mimi Leder, bem roteirizado, bem atuado, atualmente importante e muito divertido. É uma obra de linguagem simples e de poucos ataques, visando alcançar bastante público. É uma ótima experiência e não pode ser perdido.

SUPREMA | ON THE BASIS OF SEX
4

RESUMO:

Drama jurídico, social e biográfico, Suprema (On the Basis of Sex) nos leva para uma viagem através da juventude de Ruth Bader Ginsburg (segunda mulher juíza da história dos EUA) e todas as suas dificuldades, com uma boa direção, além de atuações e roteiro afiados.

Leia a nossa resenha sobre o documentário indicado ao Oscar RBG, sobre Ruth bader Ginsburger.

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Matheus Amaral

Formado em Audiovisual, amante do cinema em todos os seus aspectos. Filósofo de bar. As vezes mistura as coisas...Desde pequeno assistia tudo o que via pela frente, cresceu lado a lado com o cinema e com as suas diversas vertentes.