As controvérsias desonestas sobre ‘Roma’ e o que as domésticas têm a dizer

“Quero agradecer à Academia por reconhecer um filme centrado em torno de uma mulher indígena, um dos 70 milhões de trabalhadores domésticos em todo o mundo sem direitos trabalhistas, historicamente relegado ao cenário do cinema”, disse Alfonso Cuarón durante seu discurso de aceitação do prêmio de melhor diretor por Roma, no Oscar de 2019.

Dentre as polêmicas que Roma gerou, uma delas inclui as contradições entre o público pela forma em que o tema é abordado. Parte dos espectadores e alguns críticos de cinema consideraram o filme tóxico ou problemático, alegando que o diretor Alfonso Cuarón não saiu do seu local privilegiado de homem branco elitista; e por isso, retrata Cleo (Yalitza Aparicio) como uma simples empregada e babá doméstica impotente, a “coitadinha” que sofre abusos e continua calada.

A comparação com Que Horas Ela Volta?

Roma foi tão comparado entre os brasileiros com Que Horas Ela Volta? (os dois ótimos a sua maneira) que alguns até ignoram que tanto sua abordagem como sua narrativa diferem profundamente. A obra de Anna Muylaert toma os rumos da ficção quando a filha de Val reside por um curto espaço de tempo na casa da chefe da mãe e questiona todas os tratamentos dados a ela – e por isso se torna também mais acessível ao público.

E por mais reconfortante que a história proceda pelos questionamentos que a mesma faz e os rumos de rebelião que ela toma, Que Horas Ela Volta? se manifesta como um filme majoritariamente crítico ao invés de simplesmente representar a vida real de milhares de trabalhadoras domésticas, transformando-o em utopia de certa forma.

Trabalhadoras domésticas, em diferentes partes do mundo, não possuem todos os direitos que deveriam e não são apreciadas como merecem. Passam por situações injustas, por abusos, por inúmeros sofrimentos e têm seus problemas pessoais silenciados; mas continuam caladas por medo da demissão ou de algo similar – afinal, elas têm as próprias contas para pagar.

O filme de Cuarón é constituído de sutilezas. Diálogos como “Cleo salvou nossas vidas” seguido de “Cleo, pode me trazer um milkshake de banana?” são detalhes que revelam o ar provocativo do filme concedendo o impacto ao próprio espectador. Roma evidencia os esforços de Cleo para colocar a família em primeiro lugar independente do que esteja acontecendo em sua vida, além de mostrar toda a hipocrisia que persiste na forma em que os membros da casa a tratam – um retrato de milhares de empregadas domésticas.

Mas isso não significa que Cleo ou qualquer outra doméstica é fraca ou até mesmo boba. Se sua posição social e seu vínculo empregatício não permitem que ela se comporte de uma maneira que a faria justiça, será que a culpa estaria mesmo na forma em que o filme a retrata? O incômodo estaria no filme em si ou na realidade que ele mostra?

Regina Casé e Camila Márdila em “Que Horas Ela Volta?” (2015)

Realidade x Ficção

Ao assistirmos filmes que relatem problemas reais, precisamos separá-los entre os que seguem pelo caminho que supostamente deveria – o do politicamente correto -, ou, se ele pretende estabelecer uma denúncia da realidade. Obras que se encaixam no segundo grupo são geralmente má interpretadas e julgadas como problemáticas, como aconteceu com Três Anúncios para um Crime durante a temporada de premiações passada e como, em alguns casos, ocorreu com Roma recentemente.

Já que esses filmes não são feitos para o “grande público” em quesitos de serem obras meramente comerciais, elas têm a função de causar algum tipo de impacto no espectador e até mesmo gerar um debate sobre a situação das domésticas, problema enraizado há décadas, mas que não possui discussões ou questionamentos suficientes. Não está ali para simplesmente massagear a consciência; incomoda, e é para incomodar.

O fato de não tentar educar o público por meio de diálogos ou retratar as minorias levando-as a um patamar fora de sua realidade para representá-las heroicamente não se demonstra necessário diante de uma narrativa tão poderosa que consegue convencer o público (ou grande parte) desses elementos por si só.

E, é claro, é completamente natural que haja várias interpretações sobre um filme que não tenta se auto explicar, mas é importante se atentar para as intenções do diretor quando optou por contar o filme daquela maneira. Se o próprio Cuarón declarou inúmeras vezes que Roma é baseado nas memórias da sua infância, parece um pouco arbitrário e até desonesto querer julgar como a protagonista deveria agir ou como ela deveria ser.

Roma (2018) – Netflix

A visão das empregadas domésticas

Então, enquanto a classe média branca reclama de Roma ser tóxico e problemático, o que as empregadas domésticas têm a dizer sobre o filme?

Nos Estados Unidos, além de aumentar a discussão sobre a falta de mulheres indígenas no meio da cultura pop, as milhares de domésticas e babás têm usado a atenção que o filme tem recebido para falar sobre direitos que a maioria delas não possuem, diferentemente de outros tipos de trabalhadores: não são ao menos protegidas pela lei federal quando sofrem assédio sexual ou discriminação.

A National Domestic Workers Alliance organizou um evento de tapete vermelho para dezenas de trabalhadoras domésticas de todo o país, com a presença de Cuarón, que também levou a diretora executiva do grupo, Ai-jen Poo, como sua convidada em algumas premiações.

June Barrett, uma ajudante de saúde domiciliar no sul da Flórida disse que a história de Cleo em Roma também era sua história e a história de milhões de mulheres pobres que deixam suas próprias famílias para cuidar de outras pessoas. Ela participou do evento e conheceu Cuarón, além de beijar o troféu do Oscar que recebeu por diretor. “Quem teria pensado que uma garota da Jamaica sem pais, que foi estuprada e abusada, jamais poderia ter essa oportunidade?”, ela disse. “Há poder na organização e poder em contar nossas histórias.”

Recentemente, o The New York Times produziu um vídeo com Jacqui Orie, uma doméstica imigrante. Ela fala sobre sua visão de Roma, além de contar da sua própria experiência. Jacqui cansou de fazer tarefas as quais não foi contratada, como recolher cocô de cachorro, e assim, foi eventualmente demitida por falar sobre esses abusos.

A situação das trabalhadoras domésticas permanece ruim em quase todos os locais do mundo. O que adianta torná-las questionadoras do sistema em filmes, enquanto continuam a ser maltratadas na vida real?

Além da maior visibilidade dada às trabalhadores domésticas, Alfonso Cuarón tem participado ativamente junto com a National Domestic Workers Alliance com o intuito de adquirir os mesmos direitos legais concedidos a outros trabalhadores, além de alguns direitos novos: dias de doença remunerados, programação regular e benefícios de aposentadoria.

Recentemente, o diretor também gravou um anúncio de serviço público apoiando a Declaração Nacional de Direitos dos Trabalhadores Domésticos.

No Brasil, pouco mais de três anos que entrou em vigor a lei que garantiu todos os direitos do trabalhador às domésticas, 70% estão na informalidade. O número de trabalhadoras domésticas sem carteira assinada subiu de 4,2 milhões para 4,4 milhões, segundo o IBGE.

Apesar do teor altamente crítico em Que Horas Ela Volta?, Roma tem sido fortemente representativo para as domésticas e as têm ajudado a conquistar mais direitos. Então, por que estamos lendo textos da classe média branca falando o quanto Cuarón não saiu de seu lugar de fala de homem branco, ao invés de ouvirmos as reais protagonistas dessa história?

Yalitza Aparicio em “Roma” (2018) – Netflix

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é a forma mais sensível de explorar realidades.