Filmes Originais Netflix: O purismo da indústria e a trajetória do streaming rumo ao Oscar

Quando se fala em Netflix, com toda certeza as séries devem ser a primeira coisa a surgir na sua cabeça e na maioria das pessoas. House of Cards, a primeira série original do serviço de streaming, estreou no início de 2013 e abriu caminho para as centenas de produções disponíveis hoje na plataforma.

Dois anos e alguns meses depois, quase no fim de 2015, o primeiro filme original da Netflix chegou ao streaming. Com a marca do diretor Cary Joji Fukunaga e o co-protagonismo de Idris Elba, Beasts of No Nation conseguiu agradar crítica e público, concorrendo a  prêmios como o Globo de Ouro na categoria de cinema, e não filme para a TV, como acontece no Emmy, premiação dedicada a produções como séries e telefilmes. Isso é tema de discussão mais abaixo.

Porém, há um fato a ser observado. Para que fosse habilitado às principais premiações do cinema, Beasts Of No Nation precisava ser lançado nos cinemas. O longa foi distribuído em 31 salas de cinema por um período limitado, obtendo um resultado pífio.  O que não causou nenhum preocupação ou constrangimento à Netflix, que viu seu filme ir muito bem na audiência dos seus assinantes, mesmo que ainda não seja prática da empresa divulgar números. A não ser em ocasiões muito específicas e positivas, como no caso de Bird Box, visto por mais 90 milhões de pessoas em menos de um mês de lançamento.

Sandra Bullock em “Bird Box”

Passada a temporada de premiações de 2016, nos anos seguintes, o desempenho dos filmes Originais Netflix esteve longe de ser um consenso. Ao mesmo tempo em que algumas produções são exibidas em festivais badalados ao redor do mundo – o caso de Sonhos Imperiais é uma exceção, pois estreou em Sundance em 2014 e chegou à plataforma em 2017 -, muitos longas de qualidade bem questionável chegam ao streaming, sejam eles de grande orçamento ou não. Prova disso são as comédias de Adam Sandler, em contraponto aos filmes que debutam em Cannes, por exemplo, e a presença de grandes atores encabeçando os “blockbusters” da plataforma.

O que fica claro nas produções realizadas pela Netflix é justamente a pluralidade de objetivos. A audiência, embora seja um índice não divulgado pela empresa, faz com que a plataforma faça acordo milionários e produza filmes com o intuito de agradar ao público menos exigente e que não se importa muito com o que a crítica está dizendo. Outra prova disso é a super produção Bright, estrelada por Will Smith e Joel Edgerton. O filme foi massacrado pela crítica, mas assistido por milhões de pessoas.

Por outro lado, The Irishman, filme de Martin Scorsese que reúne nomes de peso como Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci, deve ser a grande aposta do serviço de streaming para as premiações em 2020. O orçamento de 125 milhões de dólares dificilmente seria abraçado por um estúdio de cinema, e o longa encontrou na Netflix o porto seguro necessário para essa história ser contada. Mais do que um filme que certamente será muito assistido, é uma produção que entra com o pé na porta na próxima temporada de premiações, e que já começa a incomodar a muitos em Hollywood.

Robert De Niro durante as gravações de “The Irishman”

QUALIDADE X AUDIÊNCIA: NETFLIX É UM ESPELHO DE HOLLYWOOD?

Há também os filmes da Netflix que simplesmente não são bons. E eles são muitos, poderíamos fazer uma lista e dividi-la em várias partes. Outros possuem certa qualidade, mas nenhuma divulgação. Poucas pessoas assistem e eles acabam se perdendo na imensidão do catálogo de produções, no aspecto do volume que a plataforma quer oferecer. Mas, não seria a Netflix apenas um avatar da indústria cinematográfica hollywoodiana, que produz a cada ano, para cada filme memorável, uma dezena do longas esquecíveis? O que afinal diferencia um serviço de streaming que precisa lucrar e obviamente, buscar o prestígio das premiações, dos tradicionais estúdios hollywoodianos?

Via de regra, para entrar na disputa do Oscar especificamente falando, um longa deve ser exibido publicamente em uma sala comercial de cinema da cidade de Los Angeles e, ainda, permanecer em cartaz por pelo menos sete dias consecutivos. A estreia deve ocorrer entre os dias 1º de janeiro e antes da meia-noite de 31 de dezembro do ano anterior ao da cerimônia. Filmes que forem lançados apenas na internet, TV a cabo, TV aberta ou em vídeo não podem concorrer.

Em 2018, Seteven Spielberg se posicionou contra a presença de filmes como os da Netflix, na corrida do Oscar. Para ele, que defende o enquadramento de filmes feitos pela plataforma no Emmy (premiação dedicada à TV), não é justo que um filme concorra ao prêmio só porque foi exibido dentro do mínimo previsto. E não é só ele: Pedro Almodóvar e Christopher Nolan já se manifestaram dessa forma. Mas, se a regra é clara, o que se pode fazer?

“Okja” (2017) estreou no Festival de Cannes em 2017

É claro, concorrentes da Netflix como a Amazon e a HBO não utilizam desse expediente. A primeira produz filmes, lança nos cinemas e posteriormente lança em sua plataforma, o Prime Video. O canal a cabo lança seus filmes diretamente na TV. O cineasta alega que há injustiça nesse modelo de negócios e defende uma discussão na Academia para que haja mudanças nas regras. Mesmo com um lançamento reduzido nos cinemas, Roma, de Alfonso Cuarón, se qualificou para o Oscar, venceu diversos prêmios durante a temporada e levou três estatuetas da Academia para casa.

A campanha da Netflix foi milionária: 50 milhões de dólares. Mas, não é nada que um estúdio de cinema não faça, não falando dos valores em si, mas de prática comercial. Seria uma tolice, também, ignorar os jantares e eventos promovidos por esses estúdios, e achar que apenas os filmes enviados para a consideração dos membros são a divulgação necessária.

Há uma janela de 90 dias que separa os filmes do cinema e do home vídeo. A Netflix lança seus filmes direto em streaming, e no caso dos lançamentos em circuito limitado, não se aplica o prazo. Para Spielberg, o fato dos filmes estarem disponíveis em 190 países, 24 horas por dia, torna a disputa com os lançamentos tradicionais injusta. Porém, um filme independente que concorre com um longa lançado por um grande estúdio não sofre do mesmo mal?

POLÊMICAS E ORIGINAIS NEM TÃO ORIGINAIS

A polêmica tambémtem sido uma marca registrada nesse modelo de distribuição. Em 2017, a Netflix levou dois de seus filmes originais para Cannes: Okja (Joon-ho Bong, 2017), primeiro filme Original Netflix a disputar a Palma de Ouro, e Os Meyerowitz (Noah Baumbach, 2017, filme que fez Adam Sandler ser aplaudido de pé), o que provocou uma discussão mais ampla sobre o fato da empresa almejar prêmios sem sequer exibir suas produções nos cinemas com lançamento amplo. E também pelo fato de que cineastas estejam elevando a qualidade de seus “telefilmes”. Ou, em outras palavras, uma ameaça ao cinema tradicional. Pedro Almodóvar, presidente do júri do festival naquele ano, chegou a dizer que seria um paradoxo o fato de um filme ganhar um prêmio e não ser visto na tela grande.

O debate, que provoca a resistência em imputar qualidade a um filme que seja distribuído para um formato que poderá ser visto em smarphones, tables ou notebook, além da TV, pode ser considerado um mero purismo para alguns. Para outros, acesso do espectador aos filmes através do streaming dá a oportunidade da apreciação para um público mais amplo, o que poderia beneficiar muitos realizadores. Há quem garanta que o debate é essencial, mas, no meio disso tudo, não há como negar que para muitos erros, há acertos nitidamente reconhecidos por crítica e público nessas produções originais. E as premiações seriam a coroação dessa produção.

Ben Stiller e Adam Sandler em “Os Meyerowitz” (2017)

No ano passado, a Netflix sacudiu novamente o modelo de distribuição de filmes. Mudbound, que estreou nos EUA direto no streaming, foi adquirido pronto pela Netflix, por US$ 12,5 milhões no festival de Sundance. Foi a maior aquisição realizada no festival em 2017. Aqui no Brasil, e em outros países, o longa foi distribuído nos cinemas. No Oscar, o elogiado filme dirigido por Dee Rees foi indicado quatro vezes, mas não conquistou nenhum prêmio.

Por outro lado, há casos em que acontece justamente o contrário. Em 2018, Aniquilação foi adquirido junto à Paramount pela Netflix, e estrou no mercado internacional direto na plataforma. O filme chegaria aos cinemas por aqui, mas isso aconteceu somente nos Estados Unidos, tendo um desempenho muito ruim nas bilheterias, ao contrário do sucesso obtido no streaming.

Também em 2018, a Paramount negociou a venda dos direitos de exibição de The Cloverfield Paradox com a Netflix, temendo o fracasso do filme nas bilheterias, devido ao resultado final ter sido considerado ruim pelo produtor J.J. Abrams. O que parece ter sido uma decisão acertada para ambas as partes.

O impactante anúncio da estreia da ficção científica, feito no intervalo do Super Bowl, pegou todo mundo de surpresa, com o filme estreando logo após o fim do jogo. Porém, a crítica não perdoou a sequência, embora o filme tenha sido visto por milhões de pessoas na plataforma. E também foi o suficiente para reaver parte do investimento a Paramount através da venda por US$ 50 milhões.

The Cloverfield Paradox (2018)

Mas esse modelo de negócios não é uma exclusividade da Netflix. Exibido em Sundance, The Tale conquistou a crítica e era apontado como um possível concorrente no Oscar 2019. Porém, a HBO adquiriu os direitos de exibição do filme dirigido por Jennifer Fox e protagonizado por Laura Dern. Há quem diga que o filme pudesse ter fôlego nas premiações de cinema. No Emmy, o filme concorreu ao prêmio de melhor filme, mas foi preterido, em uma categoria não muito prestigiada na premiação televisiva, onde paradoxalmente, a Netflix não costuma se dar bem. E nem faz questão, diga-se.

ENFIM, RUMO AO OSCAR

A corrida do Oscar 2019 ano teve um concorrente fortíssimo. Roma, esse sim um original “genuinamente” Netflix, deu a Alfonso Cuarón três prêmios: melhor fotografia, filme estrangeiro e direção. Mas não melhor filme.

Para isso a Netflix teve que ceder. Além da campanha milionária, Roma foi exibido não apenas em festivais, como em Veneza, onde venceu o Leão de Ouro, mas em circuitos de exibição comercial. O filme ficou em cartaz por três semanas. Tal estratégia colocou um original Netflix no mapa do Oscar, com 10 indicações, mas ainda não foi dessa vez que o prêmio de melhor filme ficou com a gigante do streaming e seus realizadores.

Roma (2018)

Há quem diga que Martin Scorsese queira voar mais alto com The Irishman. Segundo informações do THR, o diretor pediu à Netflix para que seu novo filme ganhe um lançamento amplo nos cinemas antes de chegar ao streaming. A estatueta de melhor filme teria ido para nas mãos de Cuarón caso isso tivesse ocorrido? Nessa relação, todos precisam inevitavelmente ceder. Pelo jeito, Scorsese está um passo a frente de Spielberg.

Em todo caso, a Netflix planeja mais saltos ambiciosos. Produções de cineastas como Steven SoderberghDee Rees, Fernando Meirelles e Noah Baumbach estão a caminho do serviço de streaming em 2019.

A plataforma, é bom lembrar, já emplacou o Oscar de Melhor Curta duas vezes com Os Capacetes Brancos (Orlando von Einsiedel, 2016) e esse ano com Absorvendo o Tabu (Rayka Zehtabchi, 2018). No ano passado, Ícaro (Bryan Fogel, 2017) conquistou a estatueta de Melhor Documentário, categoria que viu A 13ª Emenda (Ava DuVernay, 2016) entre os indicados em 2017.

É claro, vão continuar havendo os “filmes ruins da Netflix”, e também aqueles filmes que fazem sucesso com o público mas não possuem tanto valor cinematográfico. Porém, não parece o melhor caminho colocar o streaming como um vilão do cinema. Ele também pode facilitar a vida de muitos cineastas e principalmente do público. Sentar à mesa para discutir a participação no jogo em conjunto é mais sensato do que tentar excluí-lo do processo.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...